A carreira de Neymar sempre foi marcada por brilho, protagonismo e momentos decisivos. Mas, nos últimos anos, um padrão incômodo tem ganhado força: o camisa 10 continua entregando boas atuações em jogos de menor peso, enquanto sua presença, ou impacto, em partidas realmente grandes tem sido irregular ou, em alguns casos, inexistente.
A vitória do Santos sobre o Remo é um exemplo recente dessa dualidade. Neymar foi bem, participou de gols, comandou o ataque e mostrou qualidade técnica acima da média. Era, em tese, o tipo de atuação que reforça sua candidatura a um lugar na seleção brasileira.
No entanto, o contexto do adversário e da partida inevitavelmente reduz o peso dessa exibição. O Remo não é um rival de elite, e jogos assim, embora importantes para o clube, não carregam o mesmo nível de exigência de confrontos contra as principais forças do futebol brasileiro ou internacional.
Neymar continua falhando nos jogos grandes
O problema se agrava quando se observa o que acontece nos momentos decisivos. Pouco tempo atrás, Carlo Ancelotti esteve presente em Mirassol para observar de perto possíveis nomes para a seleção brasileira. A expectativa era clara: Neymar, sendo Neymar, seria o centro das atenções. No entanto, ele não entrou em campo. Seja qual for o motivo, o fato concreto é que perdeu uma oportunidade direta de mostrar serviço diante do treinador que definirá a lista final para a Copa do Mundo.
Esse tipo de ausência pesa. Em um momento em que seu retorno da seleção é considerado remoto, jogar em um grande palco como um jogo contra o Flamengo poderia dar a plataforma necessária em um jogo de alto nível.
No entanto, a situação se repete agora. Às vésperas de um confronto importante,Neymar está fora, suspenso após o cartão amarelo contra o Remo. Não se trata de uma lesão ou de uma questão física. É uma ausência causada por comportamento em campo, por um momento de descontrole que acabou tendo consequências diretas.
O peso desse jogo vai além dos três pontos. Trata-se de um duelo de alto nível, contra um adversário forte, em um cenário de grande visibilidade. Mais do que isso, acontece justamente no período final de observação antes da convocação definitiva de Ancelotti para a Copa. Em outras palavras, era o tipo de partida ideal para Neymar provar que ainda consegue ser determinante contra adversários de elite.
Ao ficar de fora, ele perde mais uma oportunidade. E, talvez mais importante, reforça uma narrativa que começa a se consolidar: a de um jogador que aparece bem quando o contexto é favorável, mas que, por diferentes razões, não consegue manter presença constante nos momentos mais exigentes.
Isso levanta uma questão inevitável: o que, exatamente, Ancelotti está buscando?
Existe algum argumento para levar Neymar para a Copa?
Se o critério for talento puro, Neymar dificilmente ficaria de fora. Mesmo aos 34 anos, sua capacidade técnica continua sendo diferenciada. Ele enxerga o jogo de forma única, cria jogadas, decide lances. Isso não desaparece.
Mas uma convocação para Copa do Mundo vai além do talento. Envolve consistência, disponibilidade, disciplina e, principalmente, impacto em jogos grandes. O futebol internacional não oferece o mesmo tipo de espaço que partidas contra adversários de menor expressão. A intensidade é maior, o tempo de decisão é menor, e o erro custa caro.
Nesse cenário, a irregularidade recente de Neymar se torna um fator relevante. Não se trata apenas de jogar bem de vez em quando, mas de estar presente quando mais importa. E, até aqui, ele tem acumulado lacunas justamente nesses momentos.
É impossível ignorar o histórico. Neymar já decidiu jogos grandes, já foi protagonista em cenários de pressão, já carregou a seleção em diferentes momentos. A dúvida é se esse jogador ainda existe na mesma intensidade, e, principalmente, com a mesma regularidade.
A ausência contra o Flamengo se soma ao episódio em Mirassol e cria um quadro preocupante. Não é apenas azar ou coincidência. É uma sequência de oportunidades perdidas em momentos importantes. Para um jogador que disputa vaga em um torneio do tamanho de uma Copa do Mundo, isso faz diferença.
No fim das contas, a decisão de Ancelotti será um equilíbrio entre passado e presente. O passado favorece Neymar. O presente, nem tanto. E o futebol, especialmente em nível de seleção, costuma ser implacável com esse tipo de dilema.
A pergunta que fica é simples, mas difícil de responder: o que pesa mais? O que Neymar já fez ou o que ele está fazendo agora?
Se a resposta estiver no presente, ele precisa mais do que boas atuações contra adversários menores. Precisa estar nos jogos grandes, decidir, liderar e mostrar que ainda é capaz de ser o diferencial em alto nível. Até agora, as evidências não são conclusivas. Em um cenário tão competitivo, talvez isso não seja suficiente para garantir seu lugar na Copa do Mundo.
(Foto: Raul Baretta/Santos)