A reta final de 2025 até ofereceu sinais de esperança, mas 2026 começa como o maior teste da carreira recente de Neymar. Aos 34 anos no ano da Copa do Mundo, o atacante entra em um território pouco familiar: o de não ser mais uma certeza, nem técnica nem fisicamente, para a Seleção Brasileira.
A recuperação da cirurgia no joelho pode devolver mobilidade e confiança progressivamente, mas o tempo, o histórico clínico e a concorrência colocam o camisa 10 em uma corrida contra o relógio para tentar convencer Carlo Ancelotti de que ainda pode ser útil em alto nível internacional.
O físico como um empecilho
O problema não é talento. Nunca foi. A questão central é confiabilidade, algo que Neymar perdeu nos últimos anos não por falta de vontade, mas por uma sequência cruel de lesões que interromperam qualquer tentativa de continuidade. Em 2025, seu retorno ao Santos foi marcado por exatamente isso: lampejos de genialidade intercalados com ausências prolongadas. Houve jogos em que Neymar foi decisivo, comandou o time, atraiu marcações e elevou o nível técnico da equipe. Em outros momentos, estava fora, em recuperação, ou atuando claramente abaixo do ideal físico.
O encerramento da temporada, no entanto, foi diferente. Neymar conseguiu finalmente emendar uma sequência mais longa de partidas, mostrou explosão em curtas distâncias, participou mais sem a bola e terminou o ano em melhores condições do que começou. Ainda assim, não foi suficiente para recolocá-lo nas convocações da Seleção.
Carlo Ancelotti, desde o início de seu trabalho, deixou claro que prioridade seria dada a jogadores em plena forma, com ritmo competitivo constante e capacidade de cumprir funções táticas com disciplina, algo inegociável em sua filosofia.
Esse ponto é crucial para entender o desafio de Neymar em 2026. Ancelotti não constrói equipes em torno de nomes, mas de funções. Mesmo os grandes craques precisam se encaixar em uma estrutura coletiva clara, com responsabilidades defensivas, ocupação de espaços e leitura de jogo sem a bola. Neymar, historicamente, sempre foi um jogador de liberdade máxima, alguém que resolve com improviso. Convencer o italiano passa menos por dribles ou gols isolados e mais por mostrar que pode ser consistente dentro de um sistema.
O início do Brasileirão mais cedo pode ser importante para Neymar
É por isso que o início do Brasileirão se torna tão determinante. Neymar precisará mostrar, desde as primeiras rodadas, regularidade física, algo que não teve em boa parte de 2025. Não basta jogar bem uma partida e sair na seguinte. O recado para a comissão técnica da Seleção será dado no silêncio dos relatórios: minutos jogados, intensidade, recuperação pós-jogo, participação defensiva, número de sprints, constância semanal. Tudo aquilo que historicamente jogou contra ele nos últimos anos agora será decisivo.
Além disso, o contexto da Seleção mudou. O Brasil já não vive mais uma dependência absoluta de Neymar. Há novos protagonistas surgindo, atacantes mais jovens, mais intensos fisicamente e moldados a um futebol europeu mais vertical e coletivo. Ancelotti, por sua vez, tende a valorizar jogadores capazes de cumprir múltiplas funções no ataque, alternando posições e recompondo sem a bola. Para Neymar, isso significa provar que pode ser mais do que um camisa 10 clássico: talvez um meia-atacante híbrido, talvez um falso ponta, talvez até um organizador mais recuado em determinados momentos.
O próprio Neymar parece consciente desse cenário. Internamente, o discurso é de realismo misturado com fé. Ele sabe que, hoje, uma vaga na Copa do Mundo de 2026 é improvável. Não há garantias, nem convocações automáticas. Mas também sabe que poucos jogadores no futebol mundial têm a capacidade de mudar a percepção em pouco tempo se estiverem saudáveis e em alto nível. A crença está aí, sustentada pela ideia de que, se o corpo responder, o futebol ainda está presente.
Há também um componente simbólico. Neymar carrega o peso de possivelmente disputar sua última Copa do Mundo. Para um jogador que sempre viveu sob os holofotes, terminar a carreira de Seleção fora do Mundial seria um golpe duro, não apenas esportivo, mas emocional. Isso explica por que, mesmo diante de um cenário adverso, ele insiste. O desafio agora é aceitar que o caminho não será construído com discursos ou histórico, mas com semanas bem jogadas, jogos completos e, sobretudo, disponibilidade.
O Santos, nesse processo, terá papel central. O clube precisará gerir Neymar com inteligência, equilibrando proteção e exigência. Cada ausência por lesão em 2026 reduz drasticamente suas chances. Cada sequência de cinco, seis jogos completos aumenta um pouco a esperança. O Brasileirão, com seu calendário intenso e físico, será um teste real para avaliar se Neymar ainda pode sustentar um nível competitivo compatível com uma Copa do Mundo.
No fim, o desafio de Neymar não é técnico, mas estrutural. É convencer Carlo Ancelotti de que ele pode confiar em seu corpo, em sua entrega e em sua adaptação tática. É mostrar que não será um problema a ser gerenciado, mas uma solução possível dentro de um elenco que busca equilíbrio e competitividade máxima.
A probabilidade joga contra ele, o histórico pesa, e o tempo não ajuda. Ainda assim, Neymar segue acreditando. E, para alguém que construiu a carreira inteira desafiando expectativas, talvez essa seja sua última grande aposta.
(Foto: Mauricio De Souza/AGIF)