Conflitos por posições, negociações contratuais complicadas, atritos entre jogadores e insatisfação generalizada são fatores que frequentemente criam clima de tensão nos vestiários da NFL. Toda offseason traz seus dramas, e a de 2026 não foge à regra. Enquanto os Estados Unidos se preparam para celebrar o 4 de julho e os 250 anos de independência, os fogos de artifício não serão os únicos espetáculos explosivos do verão americano.
O ambiente em algumas franquias está carregado e com potencial real para conflitos abertos. O caso de Micah Parsons com o Dallas Cowboys na temporada passada serve de exemplo: o impasse contratual se prolongou, gerou desgaste, e só se resolveu com uma troca, um desfecho dramático que ilustra bem como essas situações podem escalar ao longo dos meses de preparação.
Falta de entrosamento no grupo é um dos últimos problemas que qualquer comissão técnica quer enfrentar na abertura da temporada. Por isso, nas próximas semanas, algumas equipes poderão ser forçadas a tomar decisões difíceis: negociar trocas para jogadores descontentes, dispensar atletas problemáticos ou trabalhar para amenizar tensões internas antes que elas comprometam o desempenho em campo.
Aqui temos cinco equipes onde o clima interno merece atenção.
Minnesota Vikings e sua disputa de quarterbacks
Kyler Murray e J.J. McCarthy tem visões bem diferentes sobre a disputa pela titularidade no Minnesota Vikings. Quando questionados nesta primavera sobre a relação entre os dois, as respostas revelaram um clima mais tenso do que o esperado. Murray, que chegou ao time com contrato mínimo mas como favorito à vaga, afirmou ter assumido um papel de mentor e que McCarthy teria sido receptivo a essa dinâmica. Já McCarthy contou uma história diferente, sugerindo que os dois mal interagem.
“É como dois caras numa sala de aula”, disse McCarthy. “Ele senta de um lado, eu sento do outro, e cabe ao técnico nos ensinar e nos treinar.”
A titularidade ainda está em aberto, mas quem perder a disputa terá razões concretas para se sentir frustrado. Murray carrega sete anos de experiência como titular e, em seu auge, esteve entre os melhores quarterbacks da liga. McCarthy, por sua vez, foi selecionado na primeira rodada do draft de 2024 e pode argumentar que nunca teve uma chance real de mostrar seu potencial, dado o histórico de lesões que atrapalhou seu desenvolvimento.
New York Giants tem a política afetando
A polarização política dos Estados Unidos chegou ao vestiário do New York Giants em maio, gerando um atrito público entre dois dos principais nomes do time. O quarterback Jaxson Dart apareceu em um comício para apresentar o presidente Donald Trump, em apoio ao deputado republicano Mike Lawler. A reação do edge rusher Abdul Carter veio pelas redes sociais: “Achei que essa merda fosse IA, o que a gente tá fazendo, cara?”
Carter depois esclareceu que os dois conversaram e que a relação segue bem, mas o episódio já tinha ganhado repercussão e levantado uma questão incômoda: até que ponto diferenças políticas podem criar divisões dentro do vestiário, especialmente entre duas das maiores estrelas da franquia? Dart tomou a iniciativa de convocar uma reunião com o grupo para abordar o assunto diretamente, e os relatos indicam que a conversa foi produtiva e ajudou a baixar a temperatura.
Mesmo assim, resta a dúvida sobre se a situação foi realmente resolvida ou apenas varrida para baixo do tapete. O comportamento dos dois ao longo da temporada dirá mais do que qualquer declaração pública.
San Francisco 49ers e Brandon Aiyuk querendo ir para Washington
É algo extremamente raro ver um atleta torcer publicamente por outro time enquanto ainda está sob contrato com o seu. É exatamente isso que está acontecendo com Brandon Aiyuk e o San Francisco 49ers. A relação entre o wide receiver e a franquia se deteriorou a tal ponto que Aiyuk passou a demonstrar apoio ao Washington Commanders de forma quase diária nas redes sociais, aparentemente convicto de que logo estará ao lado de Jayden Daniels, seu ex-companheiro de faculdade (ambos foram colegas em Arizona State antes de Daniels se transferir para LSU e Aiyuk ir para a NFL), seja por meio de uma troca ou de uma dispensa.
O desgaste entre as partes chegou a um nível crítico. O gerente geral dos 49ers, John Lynch, declarou em janeiro que Aiyuk havia disputado seu último jogo pelo time. A organização foi além e cancelou toda a garantia financeira prevista para 2026 no contrato de quatro anos assinado por ele, avaliado em US$ 120 milhões. A decisão veio após Aiyuk ter supostamente deixado de frequentar as instalações do clube depois da grave lesão no joelho sofrida em julho de 2024.
A situação segue em espiral. Aiyuk tem pouco poder de negociação nesse cenário, o que parece estar intensificando suas reações públicas e alimentando ainda mais o ciclo de desgaste com a franquia.
Arizona Cardinals tem Jacoby Brissett querendo ser pago como titular
Jacoby Brissett se vê em uma situação incômoda: é o quarterback titular do Arizona Cardinals, mas recebe como reserva. Quando assinou seu contrato de dois anos por US$ 12,5 milhões em março de 2025, a lógica fazia sentido, afinal ele era a segunda opção, com Kyler Murray à frente na hierarquia do time. Depois que Murray foi para o Minnesota, Brissett herdou a titularidade, mas ficou preso ao mesmo contrato, o que o coloca com o 32o maior salário entre os quarterbacks da liga, uma posição bem abaixo do que a função exige.
Insatisfeito com essa disparidade, Brissett optou por pressionar a diretoria à sua maneira: boicotou todas as atividades voluntárias da equipe durante a primavera e só voltou ao campo quando o minicamp obrigatório do mês passado não lhe deu mais escolha. Na prática, ele conduziu uma greve de treinos, e seu objetivo é claro: conseguir uma melhora no valor garantido para 2026, que atualmente é de apenas US$ 1,5 milhão.
As disputas contratuais tem sido menos comuns nesta offseason do que nos anos anteriores, mas a situação de Brissett tem todos os ingredientes para se tornar uma novela de grandes proporções daqui até o início da temporada.
Cleveland Browns segue com problemas de quarterback
Talvez nenhuma outra disputa por titularidade na NFL seja tão carregada quanto a que acontece em Cleveland. O Browns precisará escolher entre Deshaun Watson e Shedeur Sanders para liderar o ataque em setembro, e dificilmente quem ficar no banco aceitará o resultado de bom grado.
Watson é um caso à parte. Ele carrega possivelmente o pior contrato do futebol americano, US$ 46 milhões garantidos nesta temporada, independentemente de jogar ou não, está afastado desde outubro de 2024 por uma ruptura no tendão de Aquiles, havia apresentado desempenho bem abaixo do esperado antes da lesão e ainda arrasta um histórico problemático fora de campo. Sanders, por sua vez, registrou o 49o melhor rating entre quarterbacks da liga em oito partidas como novato, uma marca que também está longe de inspirar confiança, e carrega suas próprias pressões e expectativas.
O que torna a situação ainda mais delicada é o contexto ao redor. O restante do elenco dos Browns é jovem e, de repente, parece genuinamente promissor. A franquia construiu momentum real nesta offseason, e desperdiçar essa energia com uma disputa de quarterback mal resolvida seria um erro que o time simplesmente não pode se dar ao luxo de cometer.
Foto: Brad Penner



