Todo ano na NFL, alguns jogadores defensivos chegam a um ponto chave na carreira. Pode ser o reserva que finalmente ganha a titularidade, o titular que dá um salto de qualidade rumo ao Pro Bowl ou All-Pro, ou o jovem que passa a responder de vez à pergunta mais importante da liga: ele tem nível para isso?
Os jogadores destacados aqui estão em sua segunda ou terceira temporada na NFL, ainda dentro do contrato de novato, mas já no momento em que cada atuação começa a definir se as próximas negociações vão começar com um “quanto?” ou um “você ainda tem futuro aqui?”. Estes são alguns dos principais nomes defensivos que merecem atenção nesta temporada.
Edge
Jalyx Hunt, Eagles
Dá para argumentar que Hunt já deu um salto de qualidade em sua segunda temporada, mas 2026 parece ter sido o ano que consolidou sua reputação na liga e no país. Ele encerrou 2025 na sexta posição entre os defensores de linha com maior taxa de pressão, de acordo com o NextGenStats, seus 17,3% ficaram ligeiramente acima dos números de Myles Garrett (ainda que com quase 150 jogadas a menos no pass rush) e do seu ex-companheiro no Eagles, Jaelan Phillips.
O ponto fraco ainda é o jogo terrestre: Hunt registrou apenas três bloqueios de corrida em toda a temporada, com uma taxa de 1,1% que o deixou empatado entre os piores da posição nesse quesito. Por outro lado, sua velocidade e agilidade permitem que ele consiga pressão sobre o quarterback de forma consistente, e isso, na NFL, tem um valor enorme. Não seria surpresa se ele chegasse a dois dígitos em sacks ao fim da temporada.
Se conseguir evoluir para pelo menos um nível mediano no combate ao jogo terrestre, Hunt já será um titular de alto nível para a Filadélfia.
Austin Booker, Bears
Booker é um caso em que os números não contam a história completa. Os seis sacks acumulados em duas temporadas podem parecer pouco para a posição, e seus índices de pressão e bloqueio ficam na média, mas quem acompanha a defesa dos Bears percebe que ele aparece repetidamente em momentos importantes, especialmente no combate ao jogo terrestre. A impressão visual fala mais alto do que qualquer estatística isolada.
Se houver um número que resume bem o que ele traz, é sua taxa de participação em tackles de 14,7%, que o colocou na 12ª posição entre os edge rushers qualificados na última temporada. Contra o jogo terrestre, ele falhou apenas um tackle no ano inteiro, um sinal claro de comprometimento e eficiência. Booker tem alcance, mãos potentes e flexibilidade suficiente para se desvencilhar e criar jogadas relevantes no rush de passe.
A principal área de melhoria ainda é o reconhecimento de jogadas, onde ele pode demorar um pouco mais do que o ideal. Mas dá para notar que o jogo está começando a ficar mais lento para ele mentalmente: seu repertório cresceu, e seu desempenho geral melhorou. Na temporada passada, lesões o limitaram a apenas dez jogos, o que frustrou torcedores que acompanham os Bears mais a fundo. Ainda assim, os 4,5 sacks que ele acumulou nos últimos seis jogos dos Bears, playoffs incluídos, sugerem que o melhor ainda está por vir. Sua trajetória segue em ascensão, e 2026 pode ser o ano em que ele finalmente entrega tudo o que promete.
Defensive tackle
Jonah Laulu, Raiders
Escolhido na sétima rodada do draft e dispensado ainda na primeira temporada pelos próprios Colts, Laulu trilhou um caminho improvável até se firmar como titular, e fez isso em meio ao caos que ficou sendo o Las Vegas Raiders. É uma história que merece reconhecimento.
Em campo, ele se apresenta como um pass rusher consistente, forte e dinâmico no combate ao jogo terrestre, com alguma versatilidade no alinhamento. Sua maior qualidade é a presença constante perto da bola: ele rastreia bem o adversário e se move com eficiência pelo campo quando precisa perseguir a jogada.
O contexto ao seu redor, embora ainda longe do ideal, deu um salto considerável. Jogar ao lado de Maxx Crosby já lhe garante boas oportunidades de interferir nas jogadas, e a tendência é que esse espaço só aumente. Laulu é o tipo de jogador que faz um pouco de tudo com competência a partir do interior da linha defensiva, e isso, por si só, já tem bastante valor na NFL moderna.
Linebacker
Cedric Gray, Titans
Temos apenas um linebacker no texto, Cedric Gray dos Titans ganha o posto. Isso não significa que a NFL careça de jovens linebackers promissores, mas Gray merece destaque especialmente porque os Titans raramente aparecem nos holofotes ultimamente.
Ele tem alcance real como defensor e vem evoluindo de forma consistente na leitura de jogadas, no desempenho entre os tackles e no enfrentamento de bloqueios. Os números do ano passado confirmam essa trajetória: Gray ficou em segundo lugar entre todos os linebackers off-ball na taxa de parada de corrida, a porcentagem de tackles que resultaram em jogada malsucedida para o ataque, atrás apenas de Jack Campbell, que recentemente renovou seu contrato. Também terminou em quarto lugar na taxa de “stuff”, que mede a proporção de tackles resultando em ganho zero ou perda de jardas.
Mesmo que seu desenvolvimento pessoal seja estagnado, algo que não acredito que vá acontecer, o ambiente ao seu redor melhorou bastante nesta offseason. Os Titans reforçaram significativamente a linha de frente para acompanhar Jeffery Simmons e ainda selecionaram no Draft Anthony Hill Jr. para ser seu parceiro na posição. Gray deve se beneficiar de uma defesa mais robusta: a imposição física da linha de frente dos Titans tende a liberar espaço e proteger justamente o tipo de linebacker veloz e agressivo que ele é.
Secundária
Travis Hunter, Jaguars
Boa parte da atenção dedicada a Hunter gira em torno do seu tempo de jogo no ataque, ou da falta dele. Houve lampejos do seu talento excepcional com a bola e da sua agilidade como receiver, mas também momentos em que a inexperiência ofensiva ficou bem evidente. Era quase cômico acompanhar quantas vezes ele olhava para a linha lateral pedindo orientação depois que Trevor Lawrence alterava algo na linha de scrimmage.
Mesmo com toda essa inconsistência no ataque, Hunter exibiu habilidades defensivas de alto nível que revelam todos os ingredientes de um cornerback que realmente faz diferença. Ele tem sensibilidade para jogar em espaço aberto, agilidade e velocidade para marcar wide receivers de perto, e aquela mesma habilidade com a bola que o destaca no ataque aparece na defesa quando ele contorce o corpo para tentar interceptar passes no ar.
Não se deixe enganar pelas inconsistências ofensivas nem se prenda ao papel que ele ocupou até aqui. O que Hunter mostrou na defesa, mesmo em uma temporada fragmentada, é genuinamente empolgante. Com um papel mais bem definido e mais tempo em campo, ele tem tudo para causar impacto desde cedo e com frequência em 2026, mesmo que seja exclusivamente na defesa.
Benjamin Morrison, Buccaneers
O último nome da lista é mais um jogador que não completou uma temporada inteira, e que, durante o tempo em que esteve em campo pelos Buccaneers, chegou a dividir espaço com outros jogadores. Mesmo assim, Morrison protagonizou participações extremamente promissoras enquanto lidava com lesões.
O talento sempre esteve lá. Ainda em Notre Dame, ele era considerado um prospecto de alto nível, mas as constantes preocupações com lesões acabaram prejudicando sua avaliação no draft. Um Morrison saudável tem tudo para se tornar um bom titular na NFL, seus lampejos foram brilhantes, e agora existe um caminho mais claro para mais tempo em campo com a saída de Jamel Dean para os Steelers.
Se ele conseguir disputar mais de 14 jogos nesta temporada, acredito que veremos um salto de qualidade real. A incógnita, claro, persiste: Morrison sofreu mais uma lesão durante os OTAs de pré-temporada. Mas por trás de todo esse histórico complicado, há um jogador de verdade esperando para se mostrar.
Foto: NFL