Futebol

A quem interessa o racismo? O preconceito contra Vinicius Júnior e a cultura esportiva e política de um país

(por Mattheus Prudente)Mais uma vez, Vinicius Júnior foi vítima de racismo em um jogo de La Liga, e, novamente, a Liga e a imprensa espanhola decidiram não tomar o seu lado nessas acusações. Pelo contrário, o difamam e o tentam colocar como culpado. É revoltante pensar na estrutura de um país que é tão racista como esse. Podemos trazer vários exemplos que aconteceram antes de Vini, como quando Mouctar Diakhaby, do Valencia, time que foi o pivô do último caso de racismo contra o brasileiro, foi chamado de “negro de m***” por um zagueiro do Cadiz. Visto que isso é uma situação recorrente tanto contra Vini quanto contra outros jogadores, nos levemos a refletir: a quem interessa o racismo e o que isso tem a ver com a cultura política e esportiva espanhola? Abaixo, alguns motivos. Javier Tebas e seu direcionamento político O presidente de La Liga tem sido um dos mais criticados pelas suas declarações acerca do que aconteceu com Vini, preferindo acusar o próprio jogador pelos casos de racismo sofridos por ele do que admitir uma estrutura racista dentro de um país. O motivo disso é simples: o seu direcionamento político. Ao ser apoiador do Vox, partido de extrema direita da Espanha, Javier está diretamente apoiando as políticas preconceituosas do partido, que é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo e a favor da chamada “soberania espanhola” (lembra alguma coisa?). Além disso, e talvez mais importante nesse caso, o partido adota políticas contra imigrantes. Essas políticas são tão fortes dentro do partido que eles apoiam a construção de um muro nas regiões espanholas que fazem fronteira com a África.  Isso tudo é apoiado pelo presidente da principal Liga de futebol do país e uma das maiores do mundo. Esse ódio aos imigrantes, principalmente os africanos, e o apoio a políticas “nacionalistas” (para não dizer outra coisa) explicaria o porquê de Vini não receber nenhum suporte de La Liga. Eles não querem. Javier não quer. A quem interessa o racismo nesse caso? A um presidente de Liga conservador que não quer imigrantes em seu país. O sensacionalismo da imprensa espanhola Não é segredo para ninguém que a imprensa espanhola é muito questionável e busca sempre ter fortes manchetes em seus jornais, não importa a que custo. Isso já levou a Vini sofrer racismo dentro de um programa de televisão do país, que disse que o brasileiro estava “brincando de macaco” ao criticar as danças em campo. A imprensa tenta colocar Vini como o “provocador” dos insultos racistas que sofre, e eles sabem que isso vai causar discussões por conta do brasileiro ser o principal jogador de um dos maiores times do país. Vini não é o primeiro brasileiro a sofrer com isso, já que, quando estava no Barcelona, Neymar também foi acusado de ser provocador pelo mesmo veículo que acusou Vini. A hipocrisia e a busca pelas manchetes fortes na imprensa espanhola é tanta que vimos o mesmo jornal, na cidade de Valencia, estampar uma capa contra o racismo quando Diakhaby sofreu injúrias raciais e, em outro momento, falar contra Carlo Ancelotti, que criticou a passividade de La Liga, e reforçar a imagem de Vini como provocador. A quem interessa o racismo nesse caso? A uma imprensa que busca manchetes, não ligando se vão praticar um racismo velado para isso. Os torcedores, reflexo de uma sociedade racista O que você faria para o seu time vencer? Muitos falariam que dariam tudo de si, mas e quando o seu “tudo” envolve cometer crimes de ódio e ser racista? Bom, para os torcedores espanhóis, isso não parece importar. Várias torcidas de times da Espanha fazem esse tipo de coisa para desestabilizar jogadores como Vini, Neymar, Daniel Alves e vários outros que já sofreram racismo no país. Vale lembrar que, antes de um clássico entre Real Madrid e Atlético de Madrid, torcedores do Atleti penduraram um boneco de Vini enforcado em uma passarela da cidade. Essa é uma forma de desestabilizar psicologicamente um adversário? Sendo racista e ameaçando matá-lo?  Isso é reflexo de uma sociedade que vê o racismo como algo “normal”, que pode ser cometido para chegar a um objetivo. Será que isso explica o desespero dos torcedores do Valencia, um time que está na luta contra o rebaixamento em La Liga, para desestabilizar Vini?  A Espanha já foi um país que se orgulhou de suas políticas contra o racismo, mas, ao mesmo tempo, existem casos de rejeição de pessoas negras em escolas (!!!) do país. Essas crianças estão aprendendo isso em algum lugar, e, provavelmente, convivem com o racismo todo dia, em suas próprias casas. A quem interessa o racismo nesse caso? Aos torcedores, que acham que vale tudo para fazer o seu time vencer. A conclusão que se pode tirar desse breve ensaio é que a Espanha é um país estruturalmente racista, e, para eles, o que acontece com Vini é nada mais do que diversão e oportunidade. Algo que deve ser levado na normalidade.  Resta a nós, que sabemos como o racismo afeta Vini, outros jogadores e cidadãos do mundo inteiro lutar para quebrar essas estruturas. Apoiem Vini, mas também não façam vista grossa ao presenciar racismo em qualquer instância. Estejamos presentes quando tivermos que ser, e lutemos para que se construa uma sociedade mais saudável.