A saída de LeBron James encerrou uma era no Los Angeles Lakers, mas também eliminou qualquer possibilidade de o Lakers continuar adiando uma transformação que já vinha acontecendo há algum tempo. Pela primeira vez desde que Luka Dončić chegou à franquia, o time entra em uma temporada sem precisar dividir simbolicamente o protagonismo com outro jogador que marcou uma geração inteira da NBA.
Agora, é oficialmente o Lakers de Luka. E a maneira como a franquia decidiu construir esse novo capítulo é tão importante quanto os nomes escolhidos para compor o elenco. Em vez de simplesmente procurar mais estrelas para colocar ao lado do esloveno, Rob Pelinka e JJ Redick parecem ter identificado outro problema: como transformar talento individual em uma equipe verdadeiramente conectada.
Essa foi a palavra que mais apareceu na entrevista de apresentação da temporada 2026-27. Pelinka falou sobre a jornada que o time terá pela frente. Redick recorreu a O Senhor dos Anéis para explicar a importância de jogadores e treinadores enxergarem uns aos outros como aliados. E, acima de todas essas metáforas, ficou uma ideia simples: os melhores times da NBA não são necessariamente aqueles que possuem mais talento isolado, mas aqueles que conseguem fazer seus jogadores funcionarem como um grupo.
É uma mudança importante para o Lakers. A franquia não está mais tentando prolongar a era LeBron. Está tentando descobrir como transformar a era Luka em algo próprio.
O fim de LeBron muda a natureza da responsabilidade
Antes de falar sobre o novo elenco, Pelinka fez questão de reconhecer o que terminou.
LeBron James passou oito temporadas em Los Angeles, conquistou um campeonato, levou a equipe às finais da Conferência Oeste e transformou o Lakers novamente em uma presença constante nos playoffs. A saída para o Philadelphia 76ers foi descrita por Pelinka como profissional e amigável, mas também representou o fechamento definitivo de um ciclo.
A partir de agora, não existe mais a possibilidade de dividir responsabilidades.
Luka Dončić é o centro do projeto. O Lakers já havia tomado essa decisão quando adquiriu o esloveno em uma troca com o Dallas Mavericks, em fevereiro de 2025. Mas existe uma diferença entre construir uma equipe ao redor de um jogador e assumir publicamente que aquele jogador é o responsável por liderar a próxima fase da franquia.
Aos 27 anos, Dončić entra justamente nessa etapa. E a resposta inicial do jogador foi interessante. Durante o verão, ele organizou um minicamp na Eslovênia, levando companheiros para treinos, partidas de golfe, passeios por Ljubljana e atividades de integração. A comissão técnica e membros da equipe de preparação física também participaram.
Não foi apenas uma viagem de pré-temporada. Foi uma tentativa de construir relações antes que elas fossem necessárias dentro da quadra.
Segundo Redick, Dončić demonstrou enorme entusiasmo e cuidado com a organização da atividade. No final, os jogadores chegaram a entregar ao astro cartas escritas à mão como agradecimento pela hospitalidade e pela liderança durante a viagem.
É justamente esse tipo de comportamento que o Lakers parece querer de sua principal estrela. Não apenas pontos, assistências e triple-doubles: liderança.
O Lakers percebeu que não poderia simplesmente substituir LeBron
A reconstrução do elenco também mostra que Los Angeles não tentou encontrar um novo LeBron. Pelinka apresentou três pilares para a montagem da equipe: manter Austin Reaves, contratar um pivô de franquia e adicionar jogadores mais jovens capazes de executar as características valorizadas por Redick.
O primeiro movimento manteve Reaves. O segundo trouxe Walker Kessler, ex-Utah Jazz, para ocupar o garrafão. O terceiro produziu uma série de contratos de múltiplos anos para jogadores como Quentin Grimes, Sandro Mamukelashvili e Collin Sexton.
O resultado é um elenco com idade média entre 26 e 27 anos, muito mais alinhado ao momento da carreira de Dončić do que seria uma equipe construída em torno de veteranos.
Essa diferença importa. Durante a era LeBron, a necessidade de competir imediatamente frequentemente empurrava o Lakers para movimentos de curto prazo. Agora, a franquia tenta preservar a mesma exigência competitiva sem abrir mão de continuidade.
É uma tentativa de equilibrar duas coisas que normalmente entram em conflito na NBA: ganhar agora e construir para depois.
Los Angeles não tem interesse em passar anos acumulando escolhas de Draft e esperando uma reconstrução tradicional. A expectativa continua sendo disputar os playoffs todos os anos.
Mas isso não significa que o elenco precise ser montado novamente a cada temporada. A ideia é construir uma base que permaneça junta.
Luka, Reaves e Kessler formam uma nova estrutura
A aposta mais interessante talvez esteja justamente na combinação entre os três principais nomes do novo elenco.
Luka Dončić será o criador central. Austin Reaves oferece outra opção de criação e arremesso no perímetro. Walker Kessler representa uma presença completamente diferente: tamanho, proteção de aro e capacidade de jogar acima do aro.
O objetivo é evitar que tudo dependa da capacidade de Dončić de produzir uma jogada individual.
Esse é um ponto fundamental. Luka é um dos jogadores mais talentosos da NBA com a bola nas mãos, mas uma equipe construída ao seu redor precisa fazer com que a excelência individual dele seja potencializada pelo ambiente, não utilizada como solução para todos os problemas.
Kessler pode abrir uma dimensão vertical que o Lakers precisa explorar. Reaves pode assumir parte da criação. Os demais jogadores podem ocupar espaços, cortar, arremessar e defender sem precisar esperar que Luka resolva cada posse.
Quanto mais opções existirem ao redor do esloveno, mais difícil será para as defesas simplesmente concentrar recursos nele.
E isso explica por que Redick fala tanto em encaixe. O treinador afirmou que esta é provavelmente a primeira vez, em seus três anos no comando, que sente que as peças realmente se encaixam.
Não significa que o Lakers tenha resolvido todos os seus problemas. Significa que, pela primeira vez, existe uma lógica clara por trás da montagem.
JJ Redick também está mudando
O processo não envolve apenas Luka. Redick também entra em uma fase diferente de seu trabalho.
Depois de duas temporadas consecutivas com pelo menos 50 vitórias, o treinador chega ao terceiro ano com uma responsabilidade maior: transformar um time que já mostrou capacidade de competir em uma equipe com identidade suficientemente forte para disputar o topo da Conferência Oeste.
E o discurso escolhido mostra uma evolução. Redick não falou apenas sobre sistemas ofensivos, defesa ou arremessos. Falou sobre relações.
A analogia com O Senhor dos Anéis pode parecer exagerada para uma entrevista de NBA, mas resume bem a filosofia que ele quer implementar. Jogadores precisam enxergar seus companheiros como aliados. Técnicos precisam funcionar como guias. Todos precisam entender que haverá momentos de dificuldade ao longo da temporada.
Porque haverá. Uma temporada de 82 jogos inevitavelmente produz lesões, derrotas, sequências ruins, conflitos e mudanças de rotação.
A diferença estará em como o grupo reage. É por isso que Redick considera a conexão uma característica dos melhores times.
Não como substituta do talento, mas como multiplicadora dele.
A era Luka começa com uma pergunta diferente
O maior desafio, portanto, não será simplesmente descobrir se Luka Dončić consegue carregar o Lakers.
Ele já provou inúmeras vezes que consegue produzir em nível de superestrela. A pergunta será outra: o que acontece quando Luka não precisa carregar tudo sozinho?
Esse é o verdadeiro experimento de 2026-27. O Lakers deixou de ter LeBron, mas também ganhou liberdade para construir uma equipe com outra identidade. Tem um elenco mais jovem, um pivô contratado para ser peça central, jogadores de perímetro com contratos longos e um treinador que parece cada vez mais preocupado em criar conexões do que simplesmente organizar jogadas.
E, no centro de tudo, está Luka. A franquia sabe que o esloveno será cobrado por títulos. O próprio Pelinka reconhece que a expectativa em Los Angeles continua sendo vencer, chegar aos playoffs e fazer uma campanha profunda.
Mas a maneira de chegar lá pode ser diferente. O novo Lakers não está tentando encontrar outro LeBron. Está tentando descobrir como fazer uma equipe de Luka Dončić funcionar em todos os níveis.
Se o projeto der certo, talvez a principal transformação não apareça imediatamente nas estatísticas individuais do astro.
Ela aparecerá na quantidade de vezes em que Luka encontrar um companheiro livre, confiar que ele estará no lugar certo e saber que a jogada continuará mesmo quando a bola sair de suas mãos.
Porque é exatamente essa a ideia que Redick e Pelinka estão tentando colocar no centro da nova era. Na NBA, talento pode colocar uma equipe no caminho. Conexão é o que pode fazer esse caminho durar.



