A decisão de Arne Slot de deixar Mohamed Salah no banco de reservas do Liverpool virou notícia no mundo inteiro, porém há um equívoco bem mais evidente cometido pelo treinador ao longo de boa parte da temporada: sua escalação inicial. Os Reds investiram pesado durante o verão europeu e chegaram a ameaçar tornar-se o primeiro clube a extrapolar a marca de 500 milhões de euros em gastos numa única janela, até que o negócio por Marc Guehi, do Crystal Palace, ruiu nos instantes finais.
As movimentações do Liverpool foram amplamente debatidas, sobretudo as contratações impressionantes de Alexander Isak e Florian Wirtz, ambas por cifras que quebraram recordes da Premier League, mas ainda não corresponderam às expectativas. Contudo, há outro reforço que não conseguiu causar impacto significativo e que tem sido pouquíssimo comentado pela imprensa: Milos Kerkez. O técnico Arne Slot, em conjunto com o diretor esportivo Richard Hughes, desembolsou 47 milhões de euros para tirá-lo do Bournemouth.
Posteriormente, ficou claro que Kerkez não chegaria apenas para suceder Andy Robertson, mas para assumir de imediato o posto do lateral escocês. Diferentemente de Wirtz e Isak, que foram integrados gradualmente ao time, Slot parece disposto a escalar Kerkez independentemente de sua forma. Embora houvesse certa lógica nisso, considerando que Robertson teve uma queda de rendimento na última temporada, os números mostram que, neste ano, o Liverpool tem um desempenho muito superior quando o ex-jogador do Hull City está em campo.
Dos 16 jogos em que Kerkez — uma opção mais ofensiva por característica — começou como titular na lateral esquerda, os Reds venceram apenas seis. Quando Robertson iniciou a partida, foram seis vitórias em nove confrontos. A demonstração mais recente de um time mais equilibrado defensivamente com o escocês aconteceu no Giuseppe Meazza, na última terça-feira, quando Slot conduziu a equipe a um triunfo por 1 a 0 sobre a Internazionale, aliviando um pouco da pressão sobre seu comando. Ao permitir apenas 0,5 xG, o Liverpool fez com que os italianos registrassem seu oitavo menor índice de gols esperados em seus últimos 196 duelos como mandante.
Para contextualizar, apenas o Arsenal superou tal marca desde o retorno do público aos estádios após a pandemia de COVID-19, segundo dados do FBRef. Os outros jogos em que Robertson foi titular e o Liverpool saiu vencedor? Contra Atlético de Madrid, Real Madrid e Aston Villa. Em outras palavras, o lateral escocês não só contribuiu para vitórias essenciais, como o fez diante de adversários de alto nível, e agora tenta ajudar o time numa arrancada rumo a uma vaga na próxima edição da UEFA Champions League.
O ex-zagueiro dos Reds Jamie Carragher, em uma crítica contundente a Salah, mencionou o fato de o Liverpool ter sofrido 10 gols em apenas três partidas, apontando a necessidade de uma postura mais cautelosa. E adivinhe quem esteve em campo na lateral esquerda em 70% desses gols sofridos. Dica: não foi Robertson. Embora que Salah monopolize a atenção — e continuará sendo assunto durante todo dezembro —, se Slot pretende realmente manter-se no cargo, uma das medidas mais eficazes seria barrar Kerkez, que não tem rendido bem, e devolver a titularidade ao experiente escocês.

Salah não explica o fracasso de Slot no Liverpool — mesmo após vitória sobre a Inter
O triunfo diante da Internazionale pela UEFA Champions League serviu para aliviar a pressão, mas não é suficiente para esconder a realidade: o Liverpool de Arne Slot enfrenta uma temporada extremamente irregular, e Salah não é o principal responsável por isso. Apesar das discussões envolvendo sua utilização, preparo físico e algumas escolhas pontuais do treinador, o desempenho instável dos Reds tem causas muito mais estruturais do que qualquer situação relacionada ao seu craque.
Salah continua sendo um dos atletas mais influentes do elenco, decisivo em jogos grandes e capaz de mudar o rumo de partidas sozinho. Seu rendimento permanece dentro do padrão de elite que o acompanha desde que chegou ao clube, e suas ações em campo seguem sendo determinantes para a competitividade da equipe. A vitória contra a Inter reforça essa visão: o egípcio mantém papel central na criação ofensiva, não um fator de desestabilização.
O que realmente fragiliza o Liverpool são as escolhas estratégicas de Slot, principalmente na organização defensiva e no uso das contratações milionárias. A equipe sofre com desajustes na última linha, lentidão nas transições e falhas recorrentes nos corredores laterais — setores diretamente afetados pelas decisões do treinador e que têm impacto visível na performance coletiva.
Além disso, os reforços não se integraram como planejado. Wirtz e Isak, embora talentosos, ainda tentam se adequar a um modelo que carece de harmonia e de uma identidade clara. Slot busca implantar um estilo de posse agressiva, pressão alta e amplitude constante, mas a execução tem sido prejudicada justamente nas áreas que sustentam essa proposta.
Nesse cenário, Salah surge mais como um prejudicado do que como responsável por qualquer queda técnica. A oscilação da equipe acontece independentemente de sua presença, e as estatísticas mostram que o Liverpool tem melhor aproveitamento com ele do que sem ele. Em 2025/26, o atacante segue sendo um dos poucos pilares que ainda entregam performance consistente.
Apesar do resultado positivo na Itália, o diagnóstico permanece inalterado: o problema do Liverpool está nas escolhas estruturais de Slot, na forma como a equipe é montada e na dificuldade em transformar um investimento gigantesco em desempenho confiável. A tentativa de vincular Salah aos problemas do treinador ignora que os erros mais graves estão longe do ataque — e muito mais próximos da área técnica.

Kerkez ou Robertson: quem tem mais chances de se firmar na lateral-esquerda do Liverpool?
Sob o comando de Arne Slot, a disputa pela lateral esquerda tornou-se um dos debates mais relevantes da temporada 2025/26. A chegada de Milos Kerkez por cerca de 40 milhões de euros, com o objetivo de substituir Andy Robertson no médio prazo, reabriu a discussão sobre qual dos dois deve ocupar o posto de titular num time ainda procurando estabilidade tática.
Robertson, aos 31 anos, representa liderança e continuidade dentro do elenco. Por anos peça-chave na equipe principal, ele escolheu permanecer mesmo após perder espaço. Além de suas qualidades técnicas, o escocês segue contribuindo na organização ofensiva e no suporte aos jogadores mais jovens — um papel que não deve ser subestimado em momentos de turbulência.
Kerkez, por sua vez, é o rosto da renovação pretendida pelo clube. Com mais velocidade, energia e presença ofensiva, o húngaro chamou a atenção de Slot por características que se encaixam no modelo de jogo que o técnico deseja implementar. Suas estatísticas da última temporada — sprints, cruzamentos e participação em jogadas de ataque — reforçam o potencial para se tornar titular no longo prazo.
No entanto, sua adaptação tem sido irregular. A mídia húngara chegou a levantar questionamentos sobre suas tomadas de decisão e erros em passes longos, pontos que se tornam mais evidentes num clube de exigência tão alta quanto o Liverpool. Essa oscilação abre espaço para que Robertson continue sendo a opção preferida em partidas de maior responsabilidade.
A escolha entre os dois expõe prioridades distintas: Kerkez oferece dinamismo e profundidade ofensiva, enquanto Robertson entrega equilíbrio, solidez defensiva e liderança. Num momento em que o Liverpool atravessa instabilidade, com resultados inconsistentes e discussões acaloradas envolvendo Salah e Slot, a segurança do veterano pode ter um peso decisivo.
Em síntese, o futuro próximo da lateral-esquerda do Liverpool está dividido entre a promessa de evolução e a força da tradição: Kerkez desponta como o projeto mais lógico para o longo prazo, mas Robertson ainda tem capacidade e influência suficientes para manter-se relevante enquanto o jovem lateral busca ajustar-se às demandas de Anfield.
(Foto: AFP/Getty Images)