Uma seca de 42 anos foi encerrada. No rinque das Olimpíadas de Inverno em Milão, os Estados Unidos superaram seu grande rival dos últimos tempos para, enfim, subir ao lugar mais alto do pódio no hóquei no gelo. Numa história de muitas camadas que vai além do gelo.
Para quem começou a acompanhar o hóquei no gelo a partir das últimas semanas com os jogos de inverno e se interessou mais pelo esporte, um breve resumo para explicar alguns pontos antes de aprofundar o texto:
- Os Estados Unidos não são o país do hóquei, como é o Brasil para o futebol e eles mesmos para o basquete. A seleção havia conquistado apenas dois ouros olímpicos, sendo o último nos jogos de inverno de 1982;
- A alcunha de país do hóquei no gelo é do Canadá, onde na principal liga do mundo (NHL) sua presença é massiva com quase um quarto (7) das 32 franquias ao norte da fronteira dos EUA;
- Seja em mundiais e/ou olimpíadas, o favoritismo sempre foi canadense nos jogos contra os estadunidenses. Porém, os títulos olímpicos cessaram desde que os jogadores da NHL não eram liberados para a disputa dos jogos desde a edição de Sochi.
Um panorama breve antes de falarmos dos capítulos que acirrou uma grande rivalidade, onde no fim aconteceu o segundo ‘milagre’ da história do hóquei dos Estados Unidos.
Os talentos canadenses
A seleção de hóquei masculino do Canadá sempre foi o supra-sumo do esporte com o ‘boom’ da NHL e a evolução do jogo. Era bastante comum escolher e até montar duas, três equipes com a safra de grandes nomes que o país revelou e ainda revela ao mundo. Para 2026, a opção foi pela mescla de nomes consagrados com quem está escrevendo sua história no esporte.
Connor McDavid (Oilers): melhor da atualidade e o grande prodígio desde o maior de todos, Wayne Gretzky (e do próximo que será citado em breve)
Nathan MacKinnon (Avalanche): figurinha carimbada há anos entre os melhores do mundo
Sidney Crosby (Penguins): próximo da aposentadoria, mas um gigante na NHL e um dos grandes talentos já produzidos
Cale Makar (Avalanche): defensor, mas com talento fora da curva no ataque e o melhor da sua posição na atualidade
Macklin Celebrini (Sharks): em sua segunda temporada como profissional mostrando que é acima da média
Nomes desse nível engrandece a seleção do Canadá, onde outros nomes ficaram de fora por lesão ou por opção da comissão técnica antes dos jogos. O peso de ter esses nomes a disposição e buscar o ouro para o seu país fazia dessa edição olímpica algo especial.
A evolução dos Estados Unidos no hóquei no gelo
Como dito, os EUA não são o grande país do hóquei mesmo com a principal liga do mundo sendo disputada em grande parte no seu território e com as suas franquias ganhando todas as edições nas últimas 32 temporadas (2004-05 não houve temporada por greve). Seu grande momento, como seleção, aconteceu nos jogos de inverno de 1980 em Nova York com a vitória diante da União Soviética no que ficou marcado como “O milagre do gelo”.
Após esse feito, levou algum tempo até a seleção principal voltar ao grande palco, mais precisamente 40 anos. Com uma seleção formada por nomes como Patrick Kane, Joe Pavelski e Jonathan Quick chegou a final em Vancouver, mas perdeu para os donos da casa.
Com o passar dos anos, o investimento na formação de jovens jogadores foi crescendo e os resultados nas categorias inferiores foram surgindo. E isso fez com que os talentos se equivalessem. Nomes como os irmãos Hughes (Jack, Luke e Quinn) e Tkachuk (Brady e Matthew), Auston Matthews e o grande nome do momento, o goleiro Connor Hellebuyck.
Em agosto de 2024, outro grande nome dessa geração, Johnny Gaudreau, e seu irmão, Matthew perderam a vida após ser atropelado por um motorista bêbado enquanto andavam de bicicleta, um dia antes do casamento da irmã. Um choque em toda a comunidade do hóquei e gerando comoção ao redor do mundo.
Four Nations e as tensões além do gelo
Para a temporada 2024-25, a NHL mudou o formato do jogo das estrelas para um mini-torneio de seleções com participações de Canadá, Estados Unidos, Suécia e Finlândia. Esse campeonato, que foi um sucesso para os fãs de hóquei, aconteceu em fevereiro do ano passado onde a tensão dos tarifaços impostos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atingiu o país vizinho.
Essa situação se refletiu no gelo, pois nos duelos entre os dois países o hino americano foi vaiado nas partidas disputadas na primeira fase, em Montreal. Naquela ocasião, os visitantes venceram por 3-1. E devido a terem as melhores campanhas, eles se reencontraram para a decisão, dessa vez em Boston. Em outro jogo pegado, e decidido na prorrogação, o Canadá levou a melhor por 3-2. O que já seria uma prévia do que aconteceria um ano depois.
A olimpíada
Nos jogos de Milão, o favoritismo estava dividido entre três seleções: Canadá, EUA e Finlândia. Com algumas seleções correndo por fora, a tendência era que o ouro estaria estampado no peito de uma dessas seleções no masculino. Para o feminino, o duelo era entre americanas e canadenses.
Começando por elas, a história entre os países também é forte no feminino. Desde a primeira edição, em 1998, apenas uma vez a final não foi disputada entre eles (Suécia, 2006). Com seis ouros para o Canadá e apenas dois para os EUA, a sétima decisão entre as mulheres também foi dramática.
Diferente dos 5-0 na fase de grupos para as americanas, a final foi decidida apenas na prorrogação. O Canadá abriu o placar com Kristin O’Neill no segundo período. Faltando três minutos para o final do jogo, Hilary Knight empatou e forçou o tempo extra. Com o gol de Megan Keller, os EUA venceram por 2-1 e garantiram o seu terceiro ouro no hóquei no gelo feminino confirmando o seu favoritismo.

No masculino, ambos passaram sem dificuldade na fase de grupos. Nas quartas, também passaram sufoco. Enquanto os canadenses foram para a final após virar um 2-0 contra a Finlândia, os americanos não tomaram conhecimento da Eslováquia e venceram por 6-2. O palco estava montado para a decisão.
No ato final, a grande diferença dos países apareceu: o goleiro. Após abrir 1-0, os Estados Unidos não conseguiram atacar com o mesmo volume antes do gol, e o Canadá cresceu no jogo e foi parando na muralha do Winnipeg Jets. Hellebuyck não deixava passar nada, mas uma hora ele cedeu o gol para Makar numa bela finalização.
Com o domínio no confronto direto em toda a história olímpica (apenas quatro derrotas em vinte jogos), os canadenses tiveram a grande chance de virar o jogo no tempo normal e sacramentar o ouro com MacKinnon. Mas o center de Colorado errou o chute com Helleybuck batido no lance.
Na prorrogação, duelos de três contra três no gelo, o mesmo MacKinnon perdeu o puck e no contra-ataque, Jack Hughes (que havia sofrido uma pancada na boca e perdeu alguns dentes), finalizou no contrapé de Jordan Binnington para garantir o ouro aos EUA. A vitória não só foi celebrada no gelo como também houveram homenagens a Gaudreau, com sua camisa 13 sendo levantada pelos jogadores no gelo após o término da partida em um momento tocante.
E pela primeira vez, os Estados Unidos venceram o ouro no hóquei no gelo tanto no masculino quanto no feminino.
Viva Gaudreau! Viva os grandes momentos do esporte! Viva o hóquei no gelo!
