A chuva castigou os torcedores e jogadores presentes no Maracanã. Foto: Thiago Ribeiro/AGIF — Reprodução.
Futebol Libertadores

Palmeiras x Flamengo: o duelo de narrativas antes da final da Libertadores

Palmeiras e Flamengo se enfrentam na final da Copa Libertadores da América 2025 neste sábado (29), às 18h (horário de Brasília), no Estádio Monumental de Lima, no Peru. O vencedor se tornará o primeiro brasileiro a conquistar o tetra do principal torneio do continente.

Apesar da expectativa sobre o desempenho das equipes dentro de campo, o que se desenha antes de a bola rolar é muito mais do que uma final esportiva: trata-se de um embate de narrativas, política de bastidores, poder de influência midiática e ressentimentos acumulados, com acusações mútuas, disputas por visibilidade e suspeitas que atravessam o campo.

Arbitragem

A Conmebol designou Darío Herrera como árbitro para a final desta Libertadores. Mesmo sem nenhuma polêmica recente envolvendo o argentino com Palmeiras e Flamengo, o juiz entrará mais pressionado do que deveria. Nas últimas semanas, o discurso sobre erros cometidos a favor e contra as equipes ganhou mais peso.

O técnico palmeirense Abel Ferreira é um dos principais responsáveis por isso. Nas últimas duas rodadas do Brasileirão, o comandante português insinuou que o Verdão passou a ser prejudicado pela arbitragem. Os erros, no entendimento do treinador, aconteceram depois do Alviverde ser claramente favorecido num clássico contra o São Paulo.

Na ocasião, o Palmeiras era dominado pelo rival e perdia por 2 a 0 quando o juiz Ramón Abattti Abel deixou de marcar um pênalti para os são-paulinos e ainda livrou Andreas Pereira de uma expulsão – o volante deu uma entrada na canela de Marcos Antônio. Para Abel Ferreira, os erros ganharam mais destaques do que deveriam e pressionaram os árbitros dos outros jogos do Alviverde.

O Flamengo, por sua vez, não ficou calado nesta guerra de narrativas. Questionado sobre as reclamações do lado palmeirense, o treinador Filipe Luís, do Rubro-Negro, chegou a ser direto: “Se tem uma equipe que não pode falar de arbitragem, é o Palmeiras”, declarou. Na época, diretores flamenguistas também lembraram de outras falhas da arbitragem a favor dos paulistas no decorrer do Brasileirão.

Fato é que, independente das polêmicas, o Flamengo chega mais confortável para a final da Libertadores. Restando duas rodadas para o término da competição nacional, os cariocas abriram 5 pontos de vantagem e precisam de apenas mais 2 pontos para levar a taça.

Já o Palmeiras até pode reclamar da arbitragem – na visão do autor deste texto, sem razão. Mas isso não muda o fato de que a equipe somou apenas dois pontos dos últimos 15 disputados, ficando longe da taça por um motivo bem claro: a falta de competência.

Palmeiras x Flamengo nos direitos de TV

Paralelamente a isso, há uma disputa intensa fora de campo, envolvendo direitos de televisão, fatias de audiência e disputas de poder entre as diretorias dos clubes. O embate começou como uma divergência sobre como dividir as receitas de mídia da temporada 2025–2029, negociadas em bloco por um grupo de clubes, a Libra, e evoluiu para uma disputa jurídica que abalou o futebol nacional.

O ponto de ruptura foi a decisão do Flamengo de recorrer à Justiça para questionar o método de cálculo da parcela da audiência — o que resultou na liberação judicial de aproximadamente R$ 77,1 milhões que deveriam ser destinados aos clubes do bloco, bloqueando os repasses aos demais membros.

Essa medida gerou revolta nos outros clubes, entre eles o Palmeiras, e desencadeou uma guerra de notas oficiais, acusações públicas e ameaças de processos judiciais.

A presidente do Palmeiras, Leila Pereira, encarnou uma voz dura nesse embate — e, em certo momento, usou o termo Flaverso de forma irônica, para se referir ao universo midiático e de influência que orbitaria em torno do Flamengo caso o clube conseguisse monopólio de audiência.

A provocação não foi apenas retórica: ela expressa um sentimento de adversidade institucional, uma tentativa clara de disputar espaço de visibilidade e poder, além de deixar explícita a insatisfação com a postura do rival. É a política do futebol batendo de frente com o esporte.

Final que vale muito

Dentro desse tabuleiro, a final da Libertadores ganha contornos de ponto de inflexão. Não se trata apenas de levantar a taça continental: trata-se de afirmar — no campo de batalha midiático, econômico e simbólico — quem manda no futebol brasileiro.

Para o Palmeiras, conquistar o quarto título seria uma afirmação não apenas esportiva, mas institucional: uma resposta a gestões que resistem à centralização de poder pelo Flamengo e à hegemonia histórica de visibilidade. Para o Flamengo, o triunfo seria uma maneira de legitimar sua estratégia, garantir protagonismo midiático e abafar a narrativa de “injustiças”.

No final, quem erguer o troféu no Monumental de Lima não levará só a taça da Libertadores. Levará a palavra final de quem manda no futebol brasileiro atual — dentro e fora dos campos. E, talvez mais importante, quem vencer dará forma à narrativa que definirá como esse jogo será lembrado por décadas.

Foto: Thiago Ribeiro/AGIF — Reprodução.