A simples presença de Neymar em uma Copa do Mundo sempre provoca um debate inevitável: é possível deixar o maior talento brasileiro do século no banco? A pergunta parece complexa, mas, olhando para o momento da seleção brasileira, a resposta é mais simples do que o peso do nome do camisa 10 sugere.
Se a discussão fosse apenas técnica, Neymar seria titular absoluto. O problema é que a Copa do Mundo exige intensidade, capacidade física e compromisso tático durante 90 minutos. E é justamente nesse cenário que Lucas Paquetá aparece como a escolha mais lógica para Carlo Ancelotti.
A dúvida existe pelo tamanho de Neymar. A solução, porém, passa pelo funcionamento coletivo do Brasil.
O jogo contra o Haiti mostrou o valor tático de Paquetá
Na vitória por 3 a 0 sobre o Haiti, Paquetá não foi o grande astro. Os holofotes ficaram com Matheus Cunha e Vinícius Júnior. Mas, observando o jogo além dos gols, o meia foi um dos principais responsáveis pelo equilíbrio da equipe. Ele participou da pressão pós-perda, ajudou na recomposição e esteve envolvido diretamente em dois gols brasileiros. Uma recuperação de bola sua originou o segundo gol, enquanto o lançamento para Vinícius resultou no terceiro.
Mais do que números, Paquetá foi importante naquilo que Ancelotti mais valoriza: ocupação de espaços, intensidade e trabalho sem bola. O próprio jogador destacou que a equipe esteve mais concentrada taticamente diante dos haitianos e ressaltou o entrosamento com Bruno Guimarães, um fator importante na adaptação ao sistema do treinador italiano. Paquetá não precisa ser o craque da seleção. Precisa fazer a engrenagem funcionar. E isso ele vem fazendo.
Além disso, o futebol atual exige que os meias sejam quase híbridos. Eles precisam criar, marcar, pressionar e percorrer quilômetros durante a partida. Nesse aspecto, Paquetá oferece algo difícil de substituir. Sua movimentação permite que Vinícius Júnior jogue mais próximo do gol, que Bruno Guimarães tenha liberdade para acelerar a saída de bola e que Casemiro seja menos exposto defensivamente. É um jogador que trabalha para os outros brilharem.
Neymar, por sua vez, continua sendo mais criativo e tecnicamente superior. Nenhum meia brasileiro tem sua visão de jogo, sua capacidade de drible ou seu repertório de passes. Mas o futebol não é decidido apenas pela qualidade individual. É preciso sustentar o ritmo do jogo, 3 é justamente aí que aparece o maior problema.
A questão física de Neymar pesa mais do que a técnica
Neymar chegou à Copa ainda se recuperando de uma lesão muscular na panturrilha sofrida semanas antes do torneio. Inicialmente, sequer tinha condições de atuar e voltou aos treinamentos apenas durante a competição. A própria comissão técnica admitia que sua condição física ainda precisava evoluir.
Ancelotti deixou claro desde a convocação que Neymar não possui privilégios dentro do elenco e pode jogar um minuto, cinco minutos ou uma partida inteira, dependendo das circunstâncias. Isso revela uma mudança importante na forma como o Brasil trata o camisa 10. O jogador deixou de ser o centro absoluto do projeto e passou a ser uma peça a ser administrada. Não porque tenha perdido qualidade, mas porque seu corpo já não permite a mesma carga de anos atrás.
No entanto, a Copa do Mundo costuma premiar jogadores capazes de decidir em momentos específicos. E talvez essa seja a versão mais valiosa do camisa 10. Entrando no segundo tempo, contra adversários cansados, Neymar continua sendo capaz de mudar uma partida com um passe ou um drible. Sua capacidade técnica permanece intacta. O que mudou foi a possibilidade de manter essa excelência durante 90 minutos em alta intensidade.
Nesse contexto, a presença de Paquetá como titular faz ainda mais sentido. Enquanto o meia do Flamengo oferece volume, pressão e trabalho coletivo durante uma hora de jogo, Neymar pode entrar em campo quando os espaços aparecem e quando a partida exige genialidade em vez de intensidade.
Não é uma escolha entre o melhor jogador e o pior
O debate costuma ser simplificado como uma escolha entre talento e operário. Mas essa visão é injusta com ambos. Neymar continua sendo o jogador mais talentoso do elenco brasileiro. Paquetá continua sendo um jogador menos brilhante individualmente. Só que a pergunta que Ancelotti precisa responder não é “quem joga mais?”. A pergunta é “qual formação faz o Brasil funcionar melhor?”.
Hoje, a resposta parece evidente. Paquetá oferece o que o sistema pede. Neymar oferece aquilo que pode decidir partidas específicas. Não é uma questão de hierarquia técnica. É uma questão de contexto. E, em uma Copa do Mundo, contexto costuma valer tanto quanto talento.
(Foto: Getty Images)