A paradinha durante a corrida para cobrar um pênalti se tornou uma imagem comum no futebol. O jogador diminui a velocidade, espera o movimento do goleiro e tenta finalizar no lado contrário. Na teoria, a técnica oferece uma vantagem ao cobrador. Na Copa do Mundo de 2026, os números mostram uma realidade diferente.
O erro de Kylian Mbappé contra Marrocos colocou o assunto novamente em discussão. O francês teve seu pênalti defendido por Yassine Bounou nas quartas de final depois de utilizar uma corrida com mudanças de ritmo. A França venceu por 2 a 0, com o próprio atacante marcando depois, mas a cobrança perdida se juntou a uma lista cada vez maior de erros semelhantes.
Ao longo do torneio, os pênaltis cobrados com paradinha tiveram aproveitamento inferior aos executados com uma corrida mais contínua. O cenário levanta uma pergunta importante: os goleiros aprenderam a enfrentar a técnica?
Cobranças com paradinha têm aproveitamento de apenas 57%

A técnica de diminuir ou interromper o ritmo da corrida não é uma novidade.
Pelé, Hugo Sánchez e John Aldridge estão entre os jogadores que utilizaram esse recurso em outras épocas. A ideia sempre foi criar uma disputa mental com o goleiro.
Pelas regras da FIFA, o cobrador pode parar ou fazer uma finta durante a corrida. O que não pode acontecer é a simulação imediatamente antes do chute, depois que o movimento final da cobrança já começou.
O objetivo é simples.
O jogador tenta esperar que o goleiro escolha um lado. Quando isso acontece, basta finalizar na direção contrária. O problema aparece quando o adversário não se movimenta antecipadamente.
Foi justamente esse tipo de situação que começou a se repetir na Copa de 2026.
Dos 26 pênaltis cobrados com paradinha no torneio, incluindo as disputas eliminatórias, apenas 15 terminaram em gol. Onze foram desperdiçados.
O aproveitamento é de 57%.
Entre as cobranças sem paradinha, o resultado é melhor. Foram 35 tentativas e 24 gols, aproveitamento de 68%.
A diferença é de 11 pontos percentuais.
Os números não significam que a técnica deixou de funcionar. Marko Arnautovic, Raúl Jiménez, Neymar, Mbappé, Cristiano Ronaldo, Yoane Wissa e Kai Havertz conseguiram marcar utilizando mudanças de ritmo na corrida.
A lista de erros, no entanto, também possui grandes nomes.
Bruno Guimarães, Jorgen Strand Larsen, Lionel Messi, Harry Kane e agora Mbappé desperdiçaram cobranças depois de utilizarem a técnica.
O caso de Kane chama atenção porque o inglês teve a oportunidade de repetir seu pênalti contra a Croácia. Na segunda tentativa, abandonou a paradinha e marcou.
A discussão não está limitada a uma única forma de cobrar. Esta Copa apresenta dificuldades para os cobradores em geral.
Sem considerar as disputas por pênaltis, 30% das cobranças foram desperdiçadas. É o segundo maior percentual de erros em uma Copa do Mundo desde o início dos registros, em 1966.
Quando as disputas também entram na conta, o número fica ainda mais impressionante.
O percentual de erros sobe para 35%, o maior de qualquer edição da Copa desde 1966.
Os goleiros ajudam a explicar a mudança.
Atualmente, eles são maiores, mais atléticos e possuem acesso a uma quantidade enorme de informações sobre os cobradores. Antes de uma partida, podem estudar o lado preferido de cada jogador, a maneira como ele posiciona o corpo e até como costuma finalizar em diferentes situações.
A paradinha nasceu justamente como uma tentativa de responder a essa evolução.
Em vez de escolher um canto antecipadamente, o jogador tenta obrigar o goleiro a tomar a primeira decisão. O problema é que os goleiros também se adaptaram e passaram a esperar mais.
Quando isso acontece, a vantagem pode desaparecer.
O cobrador diminui a velocidade, perde força na aproximação e precisa tomar uma decisão em poucos segundos. Se o goleiro permanece de pé, a finalização pode acabar fraca ou previsível.
Mbappé mostra como rotina, espera e análise de dados mudaram os pênaltis

O erro de Mbappé contra Marrocos reuniu vários elementos que ajudam a explicar por que cobrar um pênalti se tornou uma disputa cada vez mais complexa.
O francês possui um excelente histórico.
Pela seleção, marcou 14 dos 16 pênaltis que cobrou. Isso representa um aproveitamento de 87,5%.
Nos clubes, os números são um pouco menores. Mbappé marcou 50 vezes em 62 tentativas, aproveitamento de aproximadamente 80,6%.
Contra Marrocos, no entanto, ele enfrentou um especialista.
Bounou sofreu gol em apenas dois dos nove pênaltis que enfrentou em Copas do Mundo, considerando também as disputas eliminatórias. Nas outras sete cobranças, fez quatro defesas e viu três jogadores mandarem a bola para fora.
Isso significa que apenas 22,2% dos pênaltis enfrentados pelo goleiro marroquino em Copas terminaram em gol.
Além da qualidade de Bounou, Mbappé precisou lidar com uma espera de três minutos e 12 segundos entre a marcação da penalidade e a cobrança.
O VAR analisou o lance e interrompeu a rotina do francês.
Esse detalhe é importante porque muitos cobradores constroem uma sequência de movimentos antes do chute. A forma de posicionar a bola, a quantidade de passos para trás, a respiração e até o tempo necessário antes de iniciar a corrida fazem parte da preparação.
Mbappé precisou repetir esse processo enquanto aguardava a decisão.
Quando finalmente recebeu autorização, bateu rapidamente. A cobrança saiu fraca e Bounou defendeu.
O caso mostra como o pênalti moderno vai muito além de simplesmente escolher um canto.
De um lado, os cobradores possuem informações sobre os goleiros. Do outro, os goleiros estudam cada detalhe dos atacantes. A análise de dados transformou uma situação que já era psicológica em uma disputa ainda mais preparada.
A longa espera também pode favorecer quem está defendendo.
O cobrador começa a pensar mais sobre sua decisão. Pode mudar de ideia, duvidar do canto escolhido ou abandonar o plano inicial. O goleiro, por outro lado, ganha tempo para observar e aumentar a pressão.
Os números da Copa de 2026 sugerem que essa disputa está favorecendo cada vez mais os goleiros.
O aproveitamento de 57% nas cobranças com paradinha é baixo para uma técnica criada justamente para aumentar a vantagem do atacante. Os 68% de acerto sem a mudança de ritmo também estão longe de representar uma garantia, mas mostram um caminho mais eficiente neste torneio.
Isso não significa que todos os jogadores devam abandonar a paradinha.
Cristiano Ronaldo, Neymar e outros cobradores continuam mostrando que ela pode funcionar quando bem executada. O ponto principal é que a técnica deixou de surpreender.
Os goleiros conhecem o método, possuem dados sobre quem o utiliza e estão mais preparados para esperar até o último momento.
A Copa de 2026 apresenta a maior taxa de erros em pênaltis desde 1966 quando as disputas são incluídas. Em um torneio decidido por pequenos detalhes, o dado pode fazer jogadores e treinadores repensarem a preparação para as cobranças.
Mbappé conseguiu se recuperar e marcou depois na vitória francesa por 2 a 0. Se a França conquistar o título, seu erro provavelmente será apenas um detalhe esquecido.
A discussão sobre as paradinhas, no entanto, deve continuar. Os números mostram que, nesta Copa, tentar enganar o goleiro durante a corrida tem sido menos eficiente do que simplesmente correr e bater.
(Foto de capa: Hector Vivas – FIFA/FIFA via Getty Images)


