Groß desafia a idade e assume o protagonismo no Brighton
O futebol costuma cobrar dos jogadores uma conta que nem sempre faz sentido: quanto mais a idade avança, menor seria a capacidade de acompanhar o ritmo da elite. Pascal Groß está mostrando justamente o contrário. Aos 35 anos, o meio-campista alemão não apenas continua competitivo na Premier League, como se tornou uma das principais peças do Brighton neste início de temporada.
A equipe de Fabian Hürzeler ocupa a terceira colocação do campeonato e chega embalada por três vitórias consecutivas, com dez gols marcados e nenhum sofrido. Entre os resultados está a vitória por 3 a 0 sobre o Arsenal, atual campeão, em uma sequência que reforçou as ambições do Brighton.
Groß teve participação decisiva nesse momento. Depois de distribuir duas assistências na goleada por 5 a 0 sobre o Coventry, pela Copa da Liga Inglesa, voltou a contribuir na vitória sobre o Arsenal e serviu Maxim De Cuyper no triunfo por 2 a 0 diante do Sunderland.
A última assistência também teve valor histórico: aos 35 anos e 117 dias, Groß tornou-se o jogador mais velho a dar assistências em três partidas consecutivas da Premier League desde Ryan Giggs, em fevereiro de 2012.
O feito chama atenção pela longevidade, mas o que realmente importa é o futebol apresentado. Groß não está sobrevivendo à intensidade do campeonato. Está ajudando a determinar como sua equipe joga.
O retorno ao Brighton recuperou um meio-campista decisivo
A segunda passagem de Groß pelo Brighton reforça uma característica importante de sua carreira: a capacidade de encontrar o contexto ideal para continuar sendo relevante.
O alemão chegou ao clube em 2017 e permaneceu até 2024, quando se transferiu para o Borussia Dortmund. Em 261 partidas pelos Seagulls, marcou 32 gols e distribuiu 52 assistências. Retornou em janeiro de 2026 e voltou a encontrar espaço em uma equipe que valoriza sua leitura de jogo e sua qualidade na distribuição.
Desde a volta, soma cinco gols e sete assistências em 30 partidas. Na temporada atual, porém, sua influência cresceu ainda mais: são oito participações diretas em gols — quatro gols e quatro assistências — em apenas nove jogos, de acordo com os números apresentados pela Opta Analyst.
Essa produção não parece um acaso. Groß conhece o clube, entende as exigências da Premier League e oferece algo que não depende apenas de velocidade: a capacidade de reconhecer o momento certo para acelerar uma jogada, encontrar um companheiro entre as linhas ou manter a posse quando o time precisa recuperar o controle.
É uma qualidade especialmente valiosa para um Brighton que procura combinar mobilidade e agressividade sem perder organização.
Os números confirmam que Groß é um dos principais criadores da liga
Os dados de criação ajudam a dimensionar o protagonismo do alemão. No recorte apresentado pela Opta Analyst, Groß havia criado 18 oportunidades de gol na Premier League, o maior número da competição. Seis delas foram classificadas como grandes chances, indicador em que aparecia atrás apenas de Morgan Gibbs-White, do Nottingham Forest, com sete.
O detalhe mais relevante está na origem dessas oportunidades. Mesmo sendo responsável por cobranças de bola parada, Groß havia criado 13 chances com a bola rolando. Nesse indicador, somente Gibbs-White, com 15, apresentava número superior.
Isso revela um meio-campista capaz de produzir em diferentes contextos. Ele pode encontrar um companheiro em uma cobrança ensaiada, mas também consegue identificar espaços durante o jogo e acelerar o ataque com um passe que elimina adversários.
O histórico reforça essa regularidade. Em cada uma das sete temporadas anteriores à transferência para o Dortmund, Groß criou pelo menos 52 oportunidades na Premier League pelo Brighton. Solly March foi o único outro jogador do clube a alcançar uma marca semelhante em uma única edição, com 67 chances em 2022/23.
Não se trata, portanto, de uma explosão repentina. O início atual recupera uma característica que já fazia parte do jogo do alemão: criar oportunidades com consistência.
O diferencial está nos passes que desmontam a defesa
Um dos dados mais interessantes da análise aparece nos passes que quebram linhas, aqueles que atravessam setores da organização adversária e encontram companheiros em posições mais avançadas.
Groß havia realizado 62 passes desse tipo na Premier League, número que o colocava na 41ª posição do ranking. Isoladamente, esse indicador não o colocaria entre os principais especialistas da competição.
O impacto aparece quando se observa o que acontece depois desses passes.
Treze deles foram seguidos por uma finalização do Brighton nos dez segundos seguintes. Apenas Bruno Fernandes, com 19, e Kiernan Dewsbury-Hall, com 14, apresentavam números superiores. Além disso, Groß dividia a liderança em passes que resultaram em gol dentro desse mesmo intervalo, com três.
A diferença está na capacidade de encontrar o passe certo no momento em que a defesa ainda não conseguiu se reorganizar. Não basta fazer a bola avançar: é preciso criar uma vantagem que possa ser aproveitada imediatamente.
Groß consegue produzir esse efeito. Sua contribuição não está apenas na quantidade de passes progressivos, mas na capacidade de transformar alguns deles em ataques realmente perigosos.
A experiência não impediu Groß de liderar a distância percorrida
A qualidade técnica é apenas parte da explicação para o bom momento do alemão. A disponibilidade física também chama atenção.
No levantamento da Opta Analyst, Groß havia percorrido 72,5 quilômetros na Premier League, a maior distância acumulada entre os jogadores naquele recorte. Ele também disputou todos os minutos das partidas do Brighton até então.
A estatística exige algum cuidado: correr mais do que os demais não significa necessariamente jogar melhor ou trabalhar com maior intensidade. A distância percorrida depende da função tática, dos movimentos exigidos pelo sistema e do comportamento da equipe em cada partida.
Ainda assim, a combinação entre volume de jogo, regularidade e produção ofensiva é significativa para um atleta de 35 anos. Groß não está sendo preservado constantemente nem limitado a participações pontuais. Continua disponível e influencia diferentes fases do jogo.
Hürzeler destacou justamente essa combinação ao comparar o meio-campista a um bom vinho, que melhora com o tempo. O treinador também chamou atenção para uma contribuição menos visível nas estatísticas: a capacidade de criar vínculos entre jogadores de diferentes nacionalidades e gerações.
Essa influência ajuda a explicar por que Groß é importante para além das assistências. Em um elenco diverso, experiência também significa facilitar a comunicação, transmitir referências e ajudar o grupo a funcionar de maneira mais coesa.
Groß representa o equilíbrio que faz o Brighton crescer
O Brighton tem motivos para acreditar que pode sustentar o bom início de temporada. A terceira colocação na Premier League, a sequência defensiva sem sofrer gols e a classificação na Copa da Liga indicam uma equipe competitiva em diferentes contextos.
A campanha europeia também oferece uma oportunidade para ampliar esse protagonismo, com o clube iniciando sua trajetória na Conference League. O calendário, porém, exigirá regularidade e capacidade de administrar o desgaste.
Groß pode ser fundamental nesse processo porque oferece algo difícil de substituir: controle sem lentidão, criatividade sem depender exclusivamente de jogadas individuais e experiência sem perder disponibilidade física.
Seu impacto não deve ser medido apenas pelos gols ou pelas assistências. Os números de criação, os passes que aceleram ataques e a capacidade de permanecer em campo ajudam a explicar como ele conecta o meio-campo ao setor ofensivo.
Aos 35 anos, Groß não precisa provar que pode jogar como um atleta de 20. Seu valor está justamente em oferecer algo diferente: entender o jogo antes de muitos adversários e transformar essa leitura em vantagem para o Brighton.
A equipe ainda precisa confirmar sua força ao longo da temporada, mas já encontrou em seu meio-campista uma referência técnica e coletiva. Groß desafia a ideia de que a idade determina o limite de um jogador e mostra que, quando inteligência, técnica e condição física se encontram, a experiência pode continuar sendo uma vantagem competitiva.
O Brighton está entre os primeiros colocados porque funciona como equipe. Groß é uma das razões pelas quais esse funcionamento tem produzido resultados tão expressivos.
Foto: Getty Images


