Erik Ten Hag, Bayer Leverkusen, Lucas Vazquez
Futebol Bundesliga

O casamento relâmpago de Ten Hag com o Bayer Leverkusen

Durou só dois meses a passagem de Erik ten Hag pelo Bayer Leverkusen. Na segunda-feira, às dez da manhã, o diretor esportivo Simon Rolfes e o CEO Fernando Carro chamaram o treinador ao BayArena para comunicar, de forma direta, sua demissão imediata. Segundo a imprensa alemã, o técnico holandês ficou surpreso e magoado. Mas, dentro do clube, os sinais de que algo não ia bem já estavam se acumulando havia semanas.

A fala de Rolfes depois do anúncio foi clara: “Tínhamos a sensação de que isto ia numa direção errada e, antes de chegar ao destino errado, preferimos agir agora”. A frase explica o que se passava no Leverkusen: uma equipe sem identidade, perdida em conceitos básicos e sem uma rota clara dentro de campo. “Era fundamental que existisse uma certa folha de rota, e isso sentimos falta”, completou o dirigente, assumindo publicamente que a escolha do sucessor de Xabi Alonso no banco renano foi um erro.

Erik Ten Hag, um vestiário sem rumo e um clube sem confiança

Quando Xabi Alonso deixou o Leverkusen no auge, o clube apostou em Ten Hag para dar continuidade ao projeto vencedor. Só que, na prática, nada funcionou. Em poucos jogos, ficou evidente que o time não absorvia as ideias do holandês. E, mais grave, que o próprio ambiente interno estava se deteriorando. Jogadores inseguros, resultados mornos e um clima de desconfiança geral.

O episódio que estourou a paciência da diretoria foi o caso Lucas Vázquez. Segundo o jornal Bild, o ex-Real Madrid chegou como reforço estrela sem que Ten Hag tivesse sido avisado. No dia 26 de agosto, com contrato assinado e exames médicos realizados, o técnico conversou pela primeira vez com o seu novo jogador. Para dentro do clube, isso soou como ponto sem retorno: se nem em decisões estratégicas o treinador era incluído, era porque a direção já tinha perdido a confiança nele.

Seis dias depois, a demissão foi oficializada. Sem fórmulas de cortesia, sem discurso de agradecimento. O comunicado seco do Leverkusen confirmava que a convivência nunca funcionou. E, no futebol de alto nível, quando não há sintonia entre campo e bastidores, o desfecho costuma ser rápido.

Um prejuízo pesado e uma lição para o mercado

O rompimento também deixou um buraco financeiro. Ten Hag tinha contrato até 2027 e, como resultado da demissão precoce, vai receber cerca de cinco milhões de euros de indenização, além dos salários já pagos pelos dois meses de trabalho. Ao todo, algo próximo de seis milhões de euros por 60 dias no cargo — uma média de 100 mil euros por dia. Para um clube que havia se consolidado como exemplo de gestão eficiente na Bundesliga, é um custo desproporcional para um “casamento” que nunca chegou a existir de verdade.

Esse episódio expõe até que ponto o Leverkusen priorizou cortar o mal pela raiz antes que um projeto condenado decolasse de vez. Em vez de insistir em um modelo sem confiança, preferiu absorver o prejuízo e recomeçar. É um choque de realidade que mostra como, no futebol moderno, decisões rápidas podem custar caro, mas demorar pode custar ainda mais.

Do lado de Ten Hag, fica um arranhão na reputação. Depois de um período de altos e baixos no Manchester United, ele buscava no Leverkusen uma oportunidade de reerguer a carreira num clube estruturado, com elenco competitivo e recente histórico campeão. Mas a passagem-relâmpago, marcada por problemas de comunicação e resultados sem brilho, coloca um ponto de interrogação sobre seu estilo de gestão fora da Premier League.

E agora, Leverkusen?

Para o Leverkusen, o desafio é imediato: encontrar um treinador capaz de devolver rumo ao time sem perder a identidade construída por Xabi Alonso. Entre os nomes que surgem como possíveis sucessores, Marco Rose, ex-RB Leipzig, é um dos mais citados. O alemão já conhece a Bundesliga, tem boa reputação no desenvolvimento de jovens e poderia ser uma escolha mais “segura” para um elenco que ficou órfão de referência tática.

O episódio também serve de alerta para clubes e técnicos sobre a importância de alinhar projetos desde o início. Contratar um treinador de renome não basta se ele não se sente parte das decisões esportivas. No caso de Ten Hag, a contratação de um reforço sem seu aval — especialmente um jogador com o peso e o salário de Lucas Vázquez — foi um símbolo de um relacionamento rachado.

No fundo, a passagem de Ten Hag pelo Bayer Leverkusen é um lembrete de que, no futebol atual, paciência tem prazo de validade cada vez mais curto. Mesmo num clube conhecido por planejamento, dois meses foram suficientes para perceber que a escolha não encaixava. O prejuízo financeiro dói, mas, do ponto de vista esportivo, pode ter evitado uma temporada inteira perdida. Agora, o Leverkusen precisa reconstruir não só a comissão técnica, mas também a confiança interna para seguir competitivo.