A perda de espaço de Gonzalo Plata no Flamengo desde a chegada de Leonardo Jardim não é um simples acaso, tampouco pode ser explicada apenas por momento técnico. A razão principal está na mudança de modelo de jogo.
O equatoriano era extremamente útil dentro da estrutura construída por Filipe Luís, mas encontra dificuldades em se encaixar na ideia mais vertical e agressiva implementada pelo treinador português nas primeiras partidas comandando o clube carioca.
A diferença de conceito coletivo ajuda a entender por que o atacante deixou de ser peça frequente e passou a disputar poucos minutos em um cenário muito mais competitivo, sendo uma das últimas opções ofensivas do elenco por Leonardo Jardim.
Sob o comando de Filipe Luís, Plata era valorizado pela polivalência, intensidade sem bola e capacidade de cumprir funções diferentes no sistema ofensivo. O próprio treinador chegou a afirmar que o equatoriano poderia atuar em todas as posições do ataque e que se sentia confortável jogando por dentro, entrelinhas, como meia-ponta, além de poder atuar aberto ou até como falso nove.
Essa versatilidade foi determinante para que o atacante ganhasse espaço. Em diversos momentos, Filipe utilizou Plata fora da posição original, inclusive como referência móvel, justamente porque seu modelo dependia de pressão alta, mobilidade e troca constante de posições no setor ofensivo.
Além disso, o treinador anterior do Flamengo valorizava jogadores capazes de iniciar a marcação na saída de bola adversária, algo que o equatoriano fazia com intensidade e disciplina. Entretanto, com Leonardo Jardim, o contexto mudou.
Flamengo mais vertical reduz espaço de Plata
As primeiras partidas do Flamengo sob o comando do técnico português mostram um time menos associativo e mais direto. Jardim não é um treinador que prioriza posse longa ou circulação paciente. Sua ideia tradicional passa por acelerar a jogada, buscar passes verticais e atacar com mais rapidez, reduzindo o número de toques antes da finalização.
Esse tipo de abordagem altera completamente o perfil de jogador necessário para o ataque. Em vez de pontas que participam da construção por dentro ou atacantes que flutuam entre linhas, o modelo passa a privilegiar jogadores que atacam profundidade, vencem duelos físicos e conseguem finalizar rapidamente as jogadas.
Nesse cenário, Plata perde vantagem competitiva. O próprio Jardim já indicou que não vê o equatoriano como centroavante e que prefere utilizá-lo apenas como jogador de corredor, ressaltando que ele pode ajudar na pressão e na compactação, mas não como referência ofensiva.
Essa declaração é reveladora, porque mostra uma diferença estrutural em relação ao uso anterior. Com Filipe Luís, a polivalência era um ativo. Com Jardim, a especialização parece ser mais importante. Além disso, o treinador português tem evitado improvisações.

Durante o período anterior, Plata chegou a atuar como falso 9 em algumas partidas, algo que ajudava a manter a intensidade da pressão alta. Agora, a comissão prefere utilizar atacantes de ofício, o que naturalmente reduz o espaço para o equatoriano.
Outro fator relevante é o aumento da concorrência. O elenco ofensivo do Flamengo se tornou mais profundo, com mais opções de pontas e atacantes de características diferentes, o que faz com que jogadores que dependem de contexto específico tenham mais dificuldade para se firmar quando o modelo muda.
O problema não é desempenho individual, e sim encaixe coletivo. É importante destacar que a queda de minutos não significa necessariamente baixa de rendimento. Plata continua sendo um jogador útil, rápido e intenso, mas o futebol moderno depende cada vez mais de encaixe coletivo.
Quando o sistema muda, alguns atletas naturalmente perdem espaço, mesmo mantendo nível técnico semelhante. Entretanto, a falta de paciência e a insatisfação pública, como alguns setoristas do Flamengo relataram, não ajudam em nada, tornando a vida do jogador ainda mais difícil.
Com Filipe Luís, o Flamengo precisava de atacantes que pressionassem alto, flutuassem por dentro e ajudassem na construção. Com Leonardo Jardim, o time parece buscar mais verticalidade, profundidade e objetividade, o que favorece jogadores com características diferentes.
Por isso, o caso de Plata ilustra bem como a troca de treinador pode alterar completamente a hierarquia do elenco. Não se trata apenas de preferência pessoal, mas de compatibilidade com a ideia de jogo pré-determinada pelo novo comandante. E, desta forma, o equatoriano precisa entender e não fazer birra.
Se o Flamengo mantiver essa proposta mais direta, é provável que o equatoriano continue sendo opção de rotação, entrando em jogos específicos ou em contextos que exijam mais mobilidade e recomposição. Caso contrário, a tendência é que seu protagonismo siga menor do que foi no período anterior.
No futebol de alto nível, o talento individual é importante, mas o sistema sempre fala mais alto. E, neste momento, a ideia de jogo de Leonardo Jardim não parece ter sido feita para Gonzalo Plata. E, sendo assim, é melhor ele procurar um novo lugar para demonstrar seu futebol, afinal, trata-se de um jogador de seleção nacional.
(Imagem de capa: Getty Images Sport)