Alex "Poatan" Pereira UFC
Lutas UFC

Poatan não quer Herb Dean arbitrando suas lutas, mas um lutador pode ativamente barrar um árbitro?

Alex “Poatan” Pereira quer evitar que Herb Dean volte a comandar uma de suas lutas no UFC depois da derrota controversa para Ciryl Gane no UFC Freedom 250, mas a insatisfação do brasileiro não significa que ele tenha poder para escolher quem será responsável pela arbitragem de seus próximos combates. A discussão envolve uma questão importante para o MMA profissional: até que ponto um lutador pode contestar a escolha de um árbitro e quais são os limites de sua influência sobre uma decisão que cabe, em última instância, às autoridades responsáveis pelo evento?

A revolta de Poatan surgiu após o confronto com Gane, quando o brasileiro acusou Dean de não intervir diante de golpes ilegais na parte posterior da cabeça antes de interromper a luta. Na avaliação do ex-campeão de duas categorias, a atuação do árbitro comprometeu o andamento do combate e justificou sua intenção de não voltar a trabalhar com ele. O episódio colocou em evidência não apenas a condução daquela luta, mas também a responsabilidade dos árbitros em situações nas quais a segurança dos atletas e a aplicação das regras estão em jogo.

Apesar da repercussão, Poatan não pode simplesmente vetar um profissional por decisão própria. Dependendo da comissão atlética responsável pelo evento, um lutador pode contestar formalmente uma designação e apresentar argumentos para solicitar a substituição do árbitro. Isso, porém, não garante que o pedido será aceito, já que a decisão final depende das regras aplicáveis e da avaliação da autoridade competente.

Poatan pode contestar a escolha de Herb Dean?

A insatisfação de um lutador com a arbitragem não é suficiente, por si só, para determinar quem comandará seu próximo combate. Embora Poatan possa manifestar publicamente sua oposição a Herb Dean e solicitar que outro profissional seja designado, existe uma diferença fundamental entre apresentar uma objeção e ter o poder de impor uma mudança.

O procedimento depende da jurisdição responsável pela realização do evento. Em Nevada, por exemplo, a seção 467.219 do Código Administrativo estadual estabelece regras para a seleção de árbitros em determinadas situações e prevê mecanismos relacionados à contestação de designações. A Comissão Atlética de Nevada possui autoridade sobre a escolha dos profissionais responsáveis por lutas principais de campeonato e outros eventos especiais abrangidos pela regulamentação.

A norma também contempla a possibilidade de um licenciado pela comissão contestar uma designação e apresentar justificativas para solicitar a substituição do árbitro, desde que respeite o procedimento estabelecido. Isso significa que existe uma via formal para questionar uma escolha, mas não um direito automático de determinar quem ocupará o lugar do profissional contestado.

No caso de Poatan, portanto, uma eventual tentativa de impedir a participação de Dean dependeria das regras da comissão responsável por sua próxima luta e dos fundamentos apresentados. A natureza da reclamação, as circunstâncias do combate anterior e os procedimentos administrativos aplicáveis poderiam ser considerados, mas não é possível garantir antecipadamente que o pedido resultaria em uma mudança.

Essa diferença é importante porque impede que a discussão seja reduzida à vontade de um atleta ou à influência de seu nome dentro do UFC. Mesmo um campeão de grande projeção precisa recorrer aos mecanismos previstos pelas autoridades competentes, enquanto o árbitro também está sujeito às regras e aos procedimentos que regulam sua atuação profissional.

Outros lutadores já contestaram árbitros no UFC

A possibilidade de questionar uma designação não é inédita no MMA. Em 2016, Jon Jones se opôs à escolha de John McCarthy para arbitrar sua luta contra Daniel Cormier no UFC 200, mas as autoridades de Nevada rejeitaram a objeção. O episódio demonstrou que a manifestação contrária de um atleta não obriga a comissão a alterar sua decisão, mesmo quando a reclamação envolve uma disputa de grande repercussão.

Daniel Cormier também teria demonstrado preocupação com Herb Dean antes da revanche contra Jones no UFC 197, naquele mesmo ano. O caso reforça que questionamentos sobre a escolha de árbitros podem surgir antes mesmo de um combate acontecer, especialmente quando os envolvidos acreditam que determinadas decisões anteriores justificam uma avaliação mais cuidadosa da designação.

Outro episódio relevante envolveu Marc Goddard, que decidiu voluntariamente se retirar da função de árbitro na revanche entre Israel Adesanya e Poatan. A decisão ocorreu após a controvérsia envolvendo a interrupção do primeiro confronto entre os dois lutadores. Nesse caso, porém, a mudança partiu do próprio profissional, e não de uma contestação comprovadamente bem-sucedida que tivesse obrigado a autoridade responsável a substituí-lo.

Esses precedentes mostram que existem diferentes caminhos para uma mudança na arbitragem, mas também evidenciam que cada situação precisa ser analisada individualmente. Um árbitro pode decidir não participar de determinado combate, uma comissão pode aceitar ou rejeitar uma objeção formal, e uma promoção pode manifestar sua preferência dentro dos limites de sua atuação. Nenhuma dessas possibilidades significa que o lutador tenha controle absoluto sobre a escolha.

A discussão também pode envolver questões jurídicas. O advogado especializado em esportes de combate Erik Magraken já analisou a possibilidade de contestar decisões regulatórias relacionadas a árbitros por meio de mecanismos legais. Entretanto, a existência de instrumentos para questionar uma decisão não significa que um atleta consiga obrigar a comissão a realizar uma substituição. A viabilidade de qualquer medida depende das normas aplicáveis e das circunstâncias específicas do caso.

Quem realmente escolhe os árbitros das lutas do UFC?

Embora o UFC organize os eventos, negocie os confrontos e estabeleça o calendário da competição, a autoridade sobre a arbitragem geralmente pertence à comissão atlética ou ao órgão regulador responsável pela jurisdição em que a luta acontece. Essa separação é essencial para compreender por que a insatisfação de Poatan não resulta automaticamente no afastamento de Herb Dean.

Quando uma comissão exerce essa função regulatória, cabe a ela aplicar os procedimentos pertinentes à seleção dos árbitros. Em Nevada, a legislação atribui à comissão estadual a responsabilidade pelas designações em determinadas lutas principais e eventos especiais, além de prever condições para que uma objeção seja apresentada. O objetivo é manter a escolha dentro de um procedimento institucional, em vez de deixá-la exclusivamente nas mãos dos atletas ou da organização promotora.

O próprio Dana White já reconheceu publicamente essa divisão de responsabilidades ao ser questionado sobre uma possível queda de rendimento de Herb Dean. Na ocasião, o presidente do UFC afirmou não saber responder à questão e ressaltou que a decisão não cabia a ele, mas à comissão responsável.

A declaração evidencia uma diferença entre organizar uma luta e controlar todos os aspectos de sua realização. O UFC tem influência significativa sobre o planejamento esportivo e comercial de seus eventos, mas não pode ser tratado automaticamente como a autoridade final sobre a arbitragem em todas as jurisdições. O alcance de sua atuação depende das regras locais e das atribuições de cada órgão regulador.

Para Poatan, essa estrutura significa que uma reclamação pública pode aumentar a visibilidade do problema, mas não substitui o procedimento formal necessário para questionar uma designação. Caso queira evitar Dean em uma próxima luta, o brasileiro precisaria considerar os mecanismos disponíveis na jurisdição correspondente e apresentar sua objeção pelos canais apropriados.

Também é necessário distinguir uma crítica à atuação de um árbitro de uma conclusão definitiva sobre sua responsabilidade. Poatan pode considerar que os golpes ilegais não foram tratados adequadamente e questionar a interrupção do combate, mas a avaliação formal do episódio e a eventual adoção de medidas regulatórias não dependem exclusivamente de sua interpretação.

A polêmica pode mudar a relação entre Poatan e o UFC?

O caso tem repercussões que ultrapassam a escolha de um árbitro. Quando um lutador expressa publicamente que não deseja voltar a trabalhar com determinado profissional, a discussão passa a envolver confiança, segurança e a percepção de imparcialidade dentro do esporte. Para um atleta do nível de Poatan, que construiu uma trajetória de destaque no UFC, a maneira como uma controvérsia é administrada pode influenciar sua relação com a organização e com as autoridades responsáveis pelas lutas.

A confiança na arbitragem é parte importante da legitimidade de qualquer combate. Os lutadores precisam acreditar que as regras serão aplicadas de maneira consistente e que situações potencialmente perigosas serão tratadas de acordo com os protocolos estabelecidos. Quando surge uma reclamação envolvendo golpes ilegais e uma interrupção contestada, é natural que a atuação do árbitro passe a ser discutida, especialmente se o resultado tiver consequências importantes para a carreira dos envolvidos.

Ao mesmo tempo, permitir que cada atleta escolha quem poderá arbitrar suas lutas criaria dificuldades para o funcionamento das competições. Preferências pessoais, rivalidades e divergências sobre decisões anteriores poderiam transformar as designações em uma negociação permanente. Por isso, os mecanismos de contestação precisam oferecer espaço para reclamações fundamentadas sem retirar das autoridades reguladoras a responsabilidade pela decisão final.

A solução mais consistente é garantir que eventuais objeções sejam examinadas por meio de procedimentos claros, com critérios aplicáveis a todos os envolvidos. Se houver fundamentos para uma mudança, a comissão responsável poderá avaliar a solicitação conforme suas atribuições. Se não houver justificativa suficiente, o pedido poderá ser rejeitado, mesmo que o lutador mantenha sua insatisfação.

No caso específico de Poatan, não há como afirmar que Herb Dean será afastado de um eventual combate futuro entre os dois. O brasileiro pode manifestar sua preferência, contestar formalmente uma designação quando houver um procedimento aplicável e buscar uma avaliação das circunstâncias que motivaram sua reclamação. O que não pode fazer é presumir que sua oposição, por si só, obrigará a comissão a escolher outro árbitro.

Poatan pode pedir a troca, mas não tem a palavra final

A controvérsia com Herb Dean coloca Poatan diante de uma diferença fundamental entre ter o direito de reclamar e possuir autoridade para determinar o resultado de uma reclamação. O brasileiro pode criticar a arbitragem, explicar por que não deseja voltar a trabalhar com o profissional e recorrer aos mecanismos disponíveis para contestar uma designação. No entanto, a possibilidade de obter uma substituição dependerá das regras da jurisdição responsável pelo evento e da decisão das autoridades competentes.

Os casos envolvendo Jon Jones, Daniel Cormier e Marc Goddard mostram que as designações podem ser questionadas ou alteradas, mas por caminhos diferentes e sem uma garantia de sucesso para o atleta que manifesta a objeção. A atuação da comissão reguladora continua sendo determinante, enquanto o UFC precisa respeitar a divisão de responsabilidades estabelecida para cada evento.

A declaração de Dana White também ajuda a esclarecer os limites da influência da organização. Embora o UFC tenha papel central na construção dos confrontos, a escolha dos árbitros não depende necessariamente de uma decisão exclusiva de seus dirigentes. Em jurisdições nas quais a comissão atlética controla as designações, é esse órgão que possui a palavra final dentro de suas atribuições.

Para Poatan, o caminho para não voltar a ter Herb Dean como árbitro passa, portanto, por uma contestação formal, quando prevista, e não por um veto unilateral. A reclamação do brasileiro pode ser levada em consideração, mas sua vontade não determina automaticamente o desfecho.

A questão central não é se Poatan tem o direito de demonstrar insatisfação, mas quem possui competência para transformar essa insatisfação em uma mudança concreta. No UFC, essa resposta depende da regulamentação aplicável, e não apenas da preferência de um lutador ou da influência que ele exerce dentro da organização.