O Cruzeiro não contratou Paulinho apenas pelo currículo que ele construiu dentro de campo. É claro que a trajetória como ídolo do Corinthians, jogador de Barcelona e Tottenham e titular da Seleção Brasileira durante duas Copas do Mundo ajuda a abrir portas. Mas, se o passado como atleta fosse suficiente, outros clubes teriam conseguido tirá-lo do Mirassol antes. Paulinho recusou propostas de Corinthians, Santos, Sport e equipes do exterior antes de aceitar o projeto da Raposa.
O que fez a diferença foi justamente aquilo que aconteceu depois que ele pendurou as chuteiras. Em quase dois anos no Mirassol, Paulinho construiu uma segunda carreira praticamente do zero. Começou como coordenador técnico, aproximou-se do treinador e dos jogadores, chegou a exercer a função de auxiliar em momentos específicos e, posteriormente, assumiu o cargo de executivo de futebol. Nesse processo, participou de uma das histórias mais interessantes do futebol brasileiro recente: a transformação do Mirassol em um clube capaz de terminar o Brasileirão de 2025 na quarta colocação e alcançar as oitavas de final da Libertadores de 2026.
Agora, o Cruzeiro pretende aproveitar essa experiência em um ambiente completamente diferente. A Raposa buscava um profissional que pudesse funcionar como elo entre elenco, comissão técnica e diretoria, mas que também tivesse participação no planejamento do futebol para 2027. A chegada de Paulinho não terá custo de transferência ou multa para o clube mineiro, após uma saída amigável do Mirassol.
A aposta, portanto, é menos em um ex-jogador famoso assumindo um cargo administrativo e mais em alguém que já descobriu, na prática, como transformar experiência de vestiário em ferramenta de gestão.
Paulinho começou a construir o dirigente antes de deixar de ser jogador
A mudança de carreira de Paulinho não aconteceu de maneira improvisada. Ainda como jogador, em 2022, quando sofreu uma grave lesão no Corinthians, ele começou a fazer cursos voltados para a gestão esportiva. A decisão mostra que a aposentadoria não significou o início de uma nova vida profissional, mas a continuidade de um projeto que já vinha sendo pensado enquanto ainda estava dentro de campo. Isso ajuda a entender por que sua passagem pelo Mirassol foi tão diferente de uma simples contratação de um ex-atleta para ocupar um cargo institucional.
Quando chegou ao clube, em dezembro de 2024, Paulinho assumiu inicialmente como coordenador técnico. A função o colocava muito próximo do treinador Rafael Guanaes e do elenco, praticamente como uma extensão da comissão técnica. Só que a experiência também mostrou ao próprio Paulinho que precisava se afastar do campo para conseguir enxergar o clube por inteiro.
Esse foi um aprendizado importante. Enquanto estava à beira do gramado, sua tendência natural era continuar pensando como jogador. A adrenalina dos jogos, a proximidade com os atletas e a possibilidade de interferir diretamente nos treinamentos despertavam uma dúvida sobre qual caminho seguir.
O próprio Paulinho admitiu que chegou a ficar dividido depois de atuar como auxiliar técnico contra Palmeiras e Corinthians durante o Paulistão de 2025. A experiência foi positiva, mas também serviu para confirmar que seu objetivo estava fora das quatro linhas. Ele queria fazer gestão. E, para isso, precisava deixar de olhar apenas para o campo.
A promoção no Mirassol mostrou que havia algo além do nome
Em junho de 2025, Paulinho foi promovido a executivo de futebol. A mudança ampliou consideravelmente sua responsabilidade. Ele passou a trabalhar não apenas com o futebol profissional, mas também com a base e o futebol feminino, além de estreitar a relação com Juninho Antunes, uma das principais figuras da estrutura do Mirassol.
Foi nesse momento que o ex-jogador começou a mostrar o tipo de dirigente que poderia se tornar. Paulinho não se encaixava na figura tradicional do executivo que aparece apenas para negociar contratos, participar de reuniões e anunciar contratações. Seu trabalho tinha uma dimensão muito mais próxima das pessoas.
Ele participava das preleções, acompanhava os treinamentos, conversava individualmente com os jogadores e permanecia atento também às atividades dos atletas que não estavam relacionados. Ao mesmo tempo, participava do planejamento semanal, discutia logística, viagens e rotina com a comissão técnica e mantinha contato com áreas como fisiologia e nutrição.
Essa presença constante é provavelmente uma das características que mais interessaram ao Cruzeiro. O futebol profissional é cada vez menos dividido em departamentos completamente independentes. Uma decisão da fisiologia pode influenciar o treinamento. Uma questão logística pode afetar a recuperação de um jogador. Uma insatisfação no elenco pode interferir no ambiente de trabalho. Uma contratação mal explicada pode gerar problemas antes mesmo de o atleta entrar em campo.
Paulinho aprendeu a circular por todos esses ambientes. Mais do que saber negociar um jogador, passou a entender o que acontece entre uma contratação e a utilização desse atleta.
O poder de convencimento virou uma das principais ferramentas
A experiência como jogador também oferece a Paulinho uma vantagem específica: ele conhece o outro lado da negociação. Um executivo tradicional pode apresentar salário, duração de contrato e projeto esportivo. Paulinho consegue acrescentar uma camada diferente porque passou duas décadas vivendo exatamente o processo que agora precisa convencer outros atletas a viver.
No Mirassol, sua função nas negociações não era definir valores. Ele apresentava o projeto do clube, conversava com os jogadores e tentava mostrar por que aquele ambiente poderia ser interessante para suas carreiras. Foi assim em contratações como a de Reinaldo e também em negociações mais difíceis, como a de Chico da Costa, que exigiu mais de 40 dias de tratativas.
Essa capacidade pode ser particularmente importante no Cruzeiro. Um clube como a Raposa precisa convencer jogadores de diferentes perfis a escolher Belo Horizonte em um mercado no qual existem projetos esportivos e financeiros muito distintos. O poder de convencimento deixa de ser apenas uma habilidade de negociação e passa a ser parte da construção de um elenco.
Paulinho parece entender isso. Para ele, contratar um atleta não significa simplesmente ligar, apresentar uma proposta e esperar uma resposta. É preciso explicar onde o jogador está chegando, quais são os objetivos, quais serão as dificuldades e qual será seu papel.
Isso transforma uma negociação financeira em uma negociação esportiva. E talvez seja exatamente essa visão que o Cruzeiro esteja buscando.
Existe, porém, um ponto que não pode ser ignorado: Paulinho está saindo de um ambiente em que sua metodologia funcionou para assumir um clube com pressão e expectativas muito maiores.
No Mirassol, havia espaço para construir. O clube vivia uma transformação histórica, e Paulinho chegou justamente quando a equipe se preparava para disputar pela primeira vez a Série A. O contexto permitia que processos fossem desenvolvidos enquanto o time crescia.
No Cruzeiro, a lógica é diferente. A Raposa possui uma torcida gigantesca, cobrança diária, necessidade de resultados e uma estrutura muito mais complexa. Um problema que no Mirassol poderia ser administrado internamente rapidamente pode ganhar proporções muito maiores em Belo Horizonte.
Essa diferença será fundamental para avaliar o trabalho de Paulinho. Ele precisará descobrir se sua proximidade com o elenco continuará sendo uma vantagem em um ambiente no qual dirigentes são constantemente pressionados por resultados. Também terá de aprender a equilibrar a relação pessoal com jogadores e a necessidade de tomar decisões que eventualmente contrariem esses mesmos atletas.
É justamente nesse ponto que sua experiência como jogador pode ser tanto uma força quanto um desafio. Conhecer o vestiário é importante. Mas administrar um vestiário exige saber quando ouvir, quando aconselhar e, principalmente, quando tomar decisões impopulares.
O Cruzeiro está contratando um dirigente para pensar além do elenco
A escolha de Paulinho também precisa ser observada dentro da estrutura que o Cruzeiro está tentando montar. O clube vinha buscando um profissional para preencher uma função que estava sem uma referência clara desde a saída de Edu Dracena, ainda em 2024. A ideia interna era justamente encontrar um ex-jogador com experiência na função e capacidade para estabelecer uma ponte entre as diferentes áreas do futebol.
Paulinho se encaixa perfeitamente nesse perfil. Mas o trabalho não deverá se limitar ao vestiário. A chegada também acontece pensando no planejamento da temporada de 2027, o que coloca o novo dirigente diante de uma responsabilidade estratégica desde o início.
Isso significa que Paulinho terá de participar da montagem de elenco, avaliar necessidades, entender o mercado e ajudar a definir quais jogadores podem representar o próximo passo do projeto.
É uma mudança importante em relação ao que fazia no Mirassol. Lá, ele ajudava a construir um clube que estava chegando a um novo patamar. No Cruzeiro, terá de ajudar a sustentar um clube que já possui expectativas de protagonismo.
O desafio, portanto, será provar que sua metodologia não depende do contexto.
A aposta do Cruzeiro é em um Paulinho diferente daquele que os torcedores conheciam
Durante 20 anos, Paulinho construiu sua reputação correndo dentro de campo. Foi volante, chegou à Seleção, disputou duas Copas do Mundo, conquistou títulos importantes e marcou 180 gols na carreira profissional, números que ajudaram a transformá-lo em um dos meio-campistas brasileiros mais relevantes de sua geração.
Agora, sua capacidade de ocupar espaços será testada de outra maneira. Paulinho terá de conectar pessoas, departamentos e interesses. Terá de perceber problemas antes que eles apareçam, convencer jogadores a abraçar projetos, participar da montagem de elenco e, ao mesmo tempo, manter uma relação saudável com quem estará dentro do vestiário.
É quase uma extensão daquilo que fazia como volante. Se dentro de campo sua função era ocupar espaços, dar equilíbrio ao time e conectar defesa e ataque, fora dele a lógica não é tão diferente. O novo dirigente do Cruzeiro terá justamente a missão de conectar as diferentes partes do futebol.
Talvez seja essa a melhor explicação para a escolha da Raposa. O Cruzeiro não está contratando apenas o Paulinho que ganhou a Libertadores e o Mundial pelo Corinthians, jogou no Barcelona e vestiu a camisa da Seleção. Está contratando o Paulinho que passou quase dois anos aprendendo a fazer futebol acontecer de outro lugar.
O currículo de jogador abriu a porta. O trabalho no Mirassol foi o que convenceu o Cruzeiro a atravessá-la.
Agora começa a parte mais difícil. No Mirassol, Paulinho ajudou a construir uma história improvável e deixou o clube pela porta da frente, depois de um período de resultados expressivos. No Cruzeiro, terá de provar que consegue reproduzir sua capacidade de gestão em um ambiente muito maior e mais pressionado.
A contratação faz sentido porque existe um processo por trás dela. Paulinho não saiu diretamente do gramado para uma cadeira de diretor. Estudou, começou como coordenador, experimentou a comissão técnica, percebeu que precisava olhar o futebol de fora, assumiu como executivo e, ao longo do caminho, construiu uma maneira própria de trabalhar.
(Foto: Pedro Zacchi/Ag. Paulistão)



