Filipe Luís Flamengo
Futebol Brasileirão Libertadores

Por que o Flamengo não consegue repetir o desempenho da temporada passada?

O Flamengo vive um momento que desafia qualquer lógica recente. Depois de uma temporada 2025 marcada por solidez defensiva, títulos e estabilidade de elenco, o time inicia 2026 acumulando atuações frágeis e resultados que exigem explicações constantes.

A derrota para o Lanús na Recopa Sul-Americana expôs novamente um conjunto de problemas que já haviam aparecido na Supercopa contra o Corinthians. Mais do que um tropeço isolado, o revés reforça a sensação de que o Flamengo ainda não “entrou” na temporada, mesmo com quase três meses de calendário cumpridos.

Flamengo mostra pouca intensidade e criação

O cenário é esquisito. A base do elenco campeão foi mantida, a comissão técnica teve tempo de trabalho e o grupo passou por período de pré-temporada considerado adequado. Ainda assim, o desempenho coletivo parece em rotação baixa, como se houvesse margem para ajustes graduais. O problema é que o calendário sul-americano não permite esse luxo. Competições de tiro curto, como a Recopa, exigem intensidade imediata. A derrota na ida, em um estádio lotado e hostil, ampliou a pressão e deixou evidente que o time não conseguiu impor superioridade em nenhum momento da partida.

A análise do jogo contra o Lanús revela falhas estruturais. O Flamengo criou pouco, somando apenas duas oportunidades claras e somente um chute no alvo, e sofreu com volume ofensivo adversário. A equipe recuou excessivamente, defendendo dentro da própria área, algo incomum para um time que, em 2025, se notabilizou por controlar território e sufocar o oponente no campo de ataque. A dificuldade não se limita a um setor específico: ela se espalha da defesa ao ataque, contaminando o rendimento coletivo.

O próprio técnico Filipe Luís reconheceu o impacto psicológico da fase. Segundo ele, a confiança é construída ao longo do jogo quando o plano tático funciona. Quando isso não acontece, os erros se acumulam, as decisões pioram e o time sente o golpe de forma coletiva. A declaração aponta para um componente mental relevante: a equipe parece ansiosa, insegura e pouco convicta das próprias ideias.

Os problemas defensivos

A queda de rendimento defensivo é talvez o dado mais alarmante. Em 2025, o Flamengo foi o time que mais vezes passou ileso na Série A, encerrando 54% das partidas sem sofrer gols, 40 jogos em 74 com a equipe principal. Em 2026, o time sofreu gol em oito dos nove compromissos disputados até aqui, desempenho que o coloca como o pior da elite nacional nesse quesito. A transformação é drástica. O que era sinônimo de consistência virou vulnerabilidade constante.

Individualmente, os sinais de instabilidade também são claros. O goleiro Rossi demonstrou afobação em lances aparentemente simples, transmitindo insegurança à linha defensiva. Os zagueiros, antes firmes, têm cometido falhas de posicionamento e mostrado dificuldade na recomposição. A lentidão na transição defensiva amplia os espaços e expõe o sistema como um todo. Não se trata apenas de erros técnicos, mas de sincronia coletiva comprometida.

No meio-campo, a falta de encaixe também preocupa. Pulgar oscila entre bons e maus momentos, Paquetá ainda busca entrosamento ideal, e Arrascaeta aparenta limitações físicas que reduzem sua capacidade de desequilíbrio. O setor, que deveria ser o cérebro da equipe, não consegue controlar ritmo nem oferecer proteção consistente à defesa. Sem domínio territorial, o Flamengo passa mais tempo reagindo do que propondo.

A questão física é parte central da discussão. Filipe Luís justificou alterações na escalação como estratégia para um jogo mais pegado. Porém, o desempenho sugere que o condicionamento ainda não atingiu o nível necessário. A equipe demonstra dificuldade para sustentar pressão alta e para recompor com velocidade. Em um calendário apertado, o desgaste é inevitável — mas a sensação é de que o Flamengo ainda não alcançou o pico competitivo.

Os problemas do início da temporada continuam

Há, portanto, um somatório de fatores: ajustes táticos em andamento, confiança abalada, desempenho físico aquém do ideal e queda brusca na eficiência defensiva. O resultado é um time que não reconhece a própria identidade recente. Em 2025, o Flamengo combinava solidez atrás e criatividade na frente. Em 2026, sofre para defender e não encontra soluções ofensivas consistentes.

O desafio para Filipe Luís é duplo. Primeiro, recuperar a organização defensiva que sustentou a campanha anterior. Segundo, reconstruir a confiança coletiva para que o plano de jogo volte a funcionar de maneira fluida. A base existe, o elenco é qualificado e o histórico recente oferece referência positiva. Mas o futebol é implacável com quem demora a reagir.

A Recopa ainda não está decidida, mas o alerta está aceso. Mais do que buscar justificativas, o Flamengo precisa apresentar respostas em campo. Em um clube acostumado a protagonismo e títulos, a margem para atuações apagadas é mínima. O momento exige ação rápida, ajustes precisos e, sobretudo, recuperação da identidade competitiva que transformou 2025 em temporada vitoriosa.

(Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)