Amanda Nunes x Kayla Harrison UFC
Lutas UFC

Por que o UFC desistiu de formar estrelas dentro do MMA feminino?

O UFC não precisa abandonar suas divisões femininas, mas encontrar novas maneiras de devolver a elas o protagonismo que já tiveram. Em um momento de menor interesse comercial e poucas lutadoras capazes de mobilizar grandes audiências, a organização parece cada vez menos disposta a investir no espaço que o MMA feminino conquistou ao longo das últimas décadas. A disputa entre Virna Jandiroba e Tatiana Suarez, duas das principais atletas do peso-palha, exemplifica esse cenário: mesmo com potencial para definir uma futura desafiante ao cinturão, o confronto não recebeu o tratamento de uma grande atração. O problema vai além de uma luta ou de um evento específico e envolve a dificuldade de construir novas estrelas capazes de aproximar o público das categorias femininas.

A situação representa uma mudança significativa em relação ao período em que Ronda Rousey se tornou um dos maiores nomes do UFC. A ex-campeã foi um fenômeno de popularidade, ajudou a consolidar a presença das mulheres na organização e demonstrou que uma lutadora poderia ultrapassar os limites tradicionais do público do MMA. Hoje, mesmo com atletas de alto nível técnico e campeãs relevantes, falta uma figura com capacidade semelhante de atrair atenção para além dos fãs mais dedicados ao esporte.

Isso não significa que o MMA feminino tenha perdido qualidade ou que suas divisões não mereçam espaço no calendário. Pelo contrário, a quantidade de atletas competitivas e a evolução técnica das categorias mostram que existe uma base esportiva importante. O desafio está em transformar esse nível de competição em interesse popular, algo que depende tanto do trabalho das próprias lutadoras quanto da estratégia de promoção do UFC.

O contraste entre o passado de Ronda Rousey e o cenário atual

Durante uma parte importante da expansão do UFC, Ronda Rousey foi uma das principais responsáveis por apresentar o MMA feminino a um público que talvez não acompanhasse o esporte regularmente. Sua sequência de vitórias, a facilidade com que finalizava adversárias e a personalidade forte criaram uma combinação que ultrapassou a dimensão esportiva. Antes de perder o cinturão para Holly Holm, Rousey havia construído uma trajetória dominante, com apenas uma luta que ultrapassou o primeiro round.

Sua popularidade não surgiu exclusivamente dos resultados. Rousey tinha uma personalidade marcante, não evitava confrontos verbais e demonstrava publicamente a rivalidade com suas adversárias. Sua postura provocava reações intensas, tanto de admiradores quanto de críticos, mas garantia que suas lutas fossem acompanhadas por pessoas interessadas em descobrir o que aconteceria com ela. O público não precisava necessariamente gostar da campeã para querer assistir aos seus combates.

Gina Carano também teve papel importante nesse processo. Antes mesmo da consolidação das divisões femininas no UFC, a lutadora já havia atraído atenção de veículos de comunicação e de pessoas que não acompanhavam o MMA. Embora não tenha alcançado o mesmo patamar esportivo ou comercial de Rousey, conseguiu transformar sua exposição no esporte em uma carreira de entretenimento mais ampla, chegando a Hollywood.

As duas trajetórias demonstraram que o MMA feminino tinha potencial para alcançar audiências maiores do que aquelas tradicionalmente associadas ao esporte. No entanto, seria um erro esperar que outra Ronda Rousey apareça imediatamente. Atletas com capacidade de gerar esse nível de atenção são raras, independentemente de gênero ou modalidade. O UFC precisa reconhecer que não encontrará uma substituta perfeita, mas pode trabalhar para desenvolver diferentes personalidades e histórias capazes de renovar o interesse pelas categorias femininas.

O cenário atual conta com nomes importantes, como Kayla Harrison e Amanda Nunes, que estão entre as principais referências esportivas do MMA feminino. Ainda assim, o reconhecimento técnico não se converte automaticamente em popularidade. Ser uma das melhores lutadoras do mundo é fundamental para construir uma carreira, mas não garante que o público ocasional tenha motivos suficientes para acompanhar cada apresentação.

O problema não está apenas na qualidade das lutas

A dificuldade de promover o MMA feminino aparece na distribuição de espaço dentro do próprio calendário do UFC. Nos últimos três anos, apenas um evento numerado teve uma luta feminina como atração principal: o UFC 332, protagonizado por Natália Silva e Wang Cong. A situação é um indicativo de que a organização não enxerga atualmente muitas oportunidades comerciais para colocar suas divisões femininas no centro de grandes eventos.

O tratamento dado ao confronto entre Virna Jandiroba e Tatiana Suarez reforça essa percepção. As duas possuem credenciais para disputar uma posição importante no peso-palha, mas a luta não recebeu o destaque esperado para um confronto com implicações na corrida pelo cinturão. Quando atletas desse nível não conseguem ocupar espaços de maior visibilidade, o problema deixa de ser exclusivamente individual e passa a envolver a maneira como a organização apresenta suas competições.

É compreensível que o UFC considere o interesse do público ao definir a ordem das lutas e a promoção de cada evento. A organização depende de audiência, venda de ingressos, assinaturas e acordos comerciais. Se uma disputa não desperta o mesmo interesse que outras atrações, existe uma justificativa empresarial para oferecer menos destaque a ela. O problema é quando essa lógica se transforma em um ciclo difícil de romper: as lutas femininas recebem menos promoção porque atraem menos atenção, mas continuam tendo poucas oportunidades de conquistar novos espectadores justamente porque recebem menos promoção.

O UFC precisa encontrar um equilíbrio entre a demanda existente e a construção de interesse futuro. Nem toda luta feminina precisa ser transformada em atração principal, assim como nem todo confronto masculino recebe esse tratamento. Entretanto, limitar a exposição das categorias femininas pode dificultar o surgimento de novas estrelas e reduzir ainda mais o espaço comercial dessas divisões.

Também é importante separar a qualidade esportiva da capacidade de entretenimento. Uma luta pode ser tecnicamente excelente e ainda assim não despertar grande interesse fora do público especializado. Da mesma forma, uma rivalidade pode gerar audiência mesmo quando o nível técnico não é excepcional. O desafio da promoção é aproximar essas duas dimensões, apresentando atletas que tenham histórias, personalidades e estilos capazes de despertar curiosidade antes mesmo de entrarem no octógono.

Personalidade e autenticidade podem ser tão importantes quanto os resultados

A trajetória de Rousey dá uma lição importante sobre a construção de estrelas: vencer é essencial, mas não é suficiente. A campeã se tornou um fenômeno porque conseguiu transformar cada luta em um acontecimento. Sua confiança, suas declarações e a maneira como encarava as adversárias criavam uma narrativa que envolvia o público. Até quem torcia contra ela tinha motivos para acompanhar seus combates.

Esse tipo de personalidade não precisa ser reproduzido artificialmente. O UFC não deveria exigir que todas as lutadoras adotem uma postura provocadora ou criem rivalidades que não existem. A autenticidade é justamente o que pode tornar uma atleta interessante, seja por meio de um comportamento mais agressivo, de uma história de superação, de um estilo de luta particular ou de uma maneira diferente de se comunicar com os fãs.

Chael Sonnen e Colby Covington demonstraram, em diferentes momentos, como a construção de uma personagem pode ampliar a visibilidade de um lutador. Mais recentemente, Josh Hokit também conseguiu manter seu nome em evidência por meio de declarações provocativas e de uma personalidade que divide opiniões. Mesmo quem não gosta desse tipo de comportamento pode acompanhar uma luta na expectativa de ver o personagem ser derrotado.

Esse princípio pode funcionar no MMA feminino, mas precisa respeitar as características individuais de cada atleta. Algumas lutadoras podem encontrar espaço por meio de rivalidades esportivas, outras por uma comunicação espontânea e outras ainda pela capacidade de apresentar um estilo de combate particularmente atrativo. Não existe uma fórmula única para construir uma estrela, e tentar encaixar todas as atletas em um mesmo modelo pode produzir o efeito contrário.

A aparência e o apelo comercial também podem fazer parte de uma estratégia de promoção, desde que a própria lutadora tenha interesse em explorar essa dimensão. Gina Carano e Ronda Rousey demonstraram que a imagem pública pode ampliar o alcance de uma atleta, mas o aspecto visual não deve substituir o mérito esportivo ou se tornar uma exigência para que mulheres recebam atenção. O UFC precisa oferecer oportunidades para diferentes perfis, sem reduzir o valor de suas competidoras à capacidade de atrair determinados públicos.

O UFC precisa investir na construção de novas referências

O maior risco para as divisões femininas não é a ausência de uma nova Ronda Rousey, mas a falta de um projeto capaz de desenvolver várias estrelas em vez de depender de um fenômeno isolado. O sucesso de uma categoria não pode ficar condicionado ao surgimento de uma atleta extraordinária que resolva, sozinha, todos os problemas comerciais.

A organização pode começar valorizando melhor as histórias e rivalidades que já existem. Virna Jandiroba e Tatiana Suarez, por exemplo, representam um confronto esportivamente relevante, com implicações diretas na disputa pelo cinturão. Uma promoção mais consistente poderia apresentar ao público as características das duas, explicar o que está em jogo e mostrar por que o resultado importa para o futuro da divisão. Não é necessário transformar a luta em um espetáculo artificial, mas oferecer contexto para que espectadores ocasionais entendam sua importância.

O mesmo vale para atletas como Kayla Harrison e Amanda Nunes. O reconhecimento esportivo das duas precisa ser acompanhado por uma apresentação capaz de destacar suas trajetórias, seus estilos e o significado de seus confrontos. O UFC tem uma estrutura de divulgação que pode ajudar a transformar essas histórias em atrações mais acessíveis, mas precisa demonstrar disposição para utilizar essa capacidade também nas divisões femininas.

Outro ponto importante é a criação de oportunidades para lutadoras em ascensão. Se o objetivo é encontrar novas referências, a organização precisa permitir que talentos emergentes construam uma sequência de apresentações relevantes, enfrentem adversárias de nível crescente e desenvolvam uma identidade perante o público. A exposição não deve ser reservada apenas às campeãs ou às atletas que já possuem reconhecimento internacional.

Abandonar as divisões femininas seria uma decisão equivocada também do ponto de vista comercial. Mesmo que o interesse atual seja inferior ao de outras categorias, existe um público que acompanha essas atletas, e outras organizações poderiam aproveitar a oportunidade para contratar competidoras de alto nível. O UFC perderia parte de seu patrimônio esportivo e ainda enfrentaria um desgaste de imagem significativo por uma decisão que representaria um retrocesso para a modalidade.

A história também mostra que o interesse popular pelo MMA feminino pode crescer rapidamente quando surge uma personalidade capaz de conectar o esporte a uma audiência mais ampla. Não existe garantia de que outra Rousey ou Carano aparecerá, mas a possibilidade é suficiente para justificar a preservação de uma estrutura que já produziu grandes momentos e continua reunindo atletas de alto nível.

O MMA feminino atravessa um período de menor protagonismo, e ignorar esse problema não ajudará a resolvê-lo. O UFC precisa reconhecer que suas divisões não podem depender apenas da qualidade técnica dos combates para conquistar espaço. É necessário construir narrativas, promover rivalidades legítimas, valorizar personalidades e oferecer às atletas condições para desenvolverem suas próprias marcas.

No fim, a questão não é encontrar uma nova Ronda Rousey a qualquer custo, mas permitir que diferentes lutadoras encontrem maneiras próprias de conquistar o público. O talento esportivo continua existindo. O que falta é transformar esse talento em histórias que as pessoas queiram acompanhar, dentro e fora do octógono. Abandonar as divisões seria abrir mão desse potencial antes mesmo de tentar recuperá-lo.