Futebol Copa do Mundo

Análise: Portugal sobrevive à Croácia em jogo histórico, mas deixa alertas enormes

Portugal está nas oitavas de final da Copa do Mundo, Cristiano Ronaldo segue vivo em sua provável última dança no torneio e Luka Modric se despede dos Mundiais com a grandeza de quem saiu de cena sem jamais parecer pequeno. Mas, por mais que o placar de 2 a 1 coloque os portugueses no caminho da Espanha, a partida contra a Croácia deixou uma sensação muito mais complexa do que a simples euforia de uma classificação.

Foi um dos grandes jogos da história recente das Copas, com drama, gols anulados por detalhes mínimos, virada, atuação gigantesca de goleiro, despedida de uma lenda e uma Croácia que, durante boa parte do segundo tempo, pareceu mais próxima da vaga do que Portugal.

O início português até sugeriu uma equipe disposta a controlar a noite. Portugal teve a bola, ocupou o campo de ataque e tentou empurrar a Croácia para trás, principalmente com amplitude pelos lados. Nuno Mendes, em dobradinha com Rafael Leão, era a válvula mais natural de desequilíbrio pela esquerda, enquanto Pedro Neto oferecia profundidade do outro lado. O problema é que esse domínio territorial demorou a virar agressividade real. Portugal rodava a bola, mas quase sempre sem encontrar o passe que desmontasse a estrutura croata por dentro.

E aí aparece um problema que já não pode mais ser tratado como detalhe: Portugal cria pouco para Cristiano Ronaldo. O camisa 7 ainda tem estrela, presença, imposição emocional e capacidade de decidir momentos que poucos jogadores na história decidiram. Só que, dentro da dinâmica coletiva, parece cada vez mais difícil encaixá-lo. Ronaldo é muito estático como referência, pede jogo em zonas onde Portugal nem sempre consegue servi-lo e, quando a equipe precisa acelerar por dentro, sua presença no comando de ataque por vezes deixa a circulação mais previsível. Não é uma questão de apagar sua grandeza, mas de entender o impacto tático que ela provoca hoje.

A Croácia, por sua vez, começou a crescer justamente quando percebeu que Portugal tinha a bola, mas não tinha tantos caminhos. O time croata foi se soltando, encaixando melhor as transições e encontrando espaço para atacar com meio-campistas e laterais. No segundo tempo, essa diferença ficou gritante. Portugal caiu fisicamente como em outros jogos nesse mundial, perdeu intensidade na pressão pós-perda e viu a Croácia acelerar com muitos jogadores. Foi nesse cenário que os croatas abriram o placar e transformaram Diogo Costa no melhor jogador em campo. Se Portugal continuou vivo, foi muito mais pelas mãos do seu goleiro do que pela solidez da sua defesa.

Diogo Costa fez defesas difíceis, sustentou emocionalmente uma equipe que parecia à beira do colapso e evitou que a Croácia abrisse uma vantagem que talvez fosse definitiva. Portugal sofreu contra a velocidade nas costas dos laterais e no encaixe das transições e ficou por centímetros, revisões e detalhes de uma eliminação precoce. Para uma seleção que agora terá pela frente a Espanha, isso é um alerta gigantesco. Porque os espanhóis também aceleram e tem jogadores capazes de atacar espaços, mas, ao contrário da Croácia, tem uma seleção que tende a ser mais equilibrada defensivamente e letal quando encontra o último passe.

A estrela salvou Portugal, mas o funcionamento preocupa

Cristiano Ronaldo salva Portugal
Cristiano Ronaldo salva Portugal (Imagem: Divulgação FIFA)

Quando o jogo parecia escapar, Portugal precisou daquilo que não se treina: estrela. Cristiano Ronaldo apareceu no momento de maior pressão, assumiu o peso da noite e recolocou a seleção portuguesa dentro da partida. Mesmo sem uma grande atuação coletiva e não estando plenamente integrado ao funcionamento ofensivo, ele continua sendo um personagem que muda o clima de um jogo. A presença dele ainda assusta, pesa e mexe com adversários, companheiros e torcida. Em Copa do Mundo, isso importa.

Depois, veio Gonçalo Ramos. Predestinado, oportunista e muito mais adaptável a certos contextos do jogo atual de Portugal, ele decidiu pelo alto uma partida em que a bola aérea croata virou sentença. O gol da virada foi daqueles que explicam mata-mata: nem sempre vence quem joga melhor por mais tempo, mas quem sobrevive aos piores momentos e encontra uma forma de machucar o adversário quando a chance aparece. Portugal encontrou. A Croácia, que havia feito tanto para merecer mais, pagou caro por uma fragilidade específica.

A equipe croata teve muitos méritos. Kovacic foi um verdadeiro maestro, assumindo um papel que tantas vezes pertenceu a Modric em jornadas históricas. Conduziu, acelerou, protegeu a bola e deu clareza a uma equipe que soube interpretar os espaços deixados por Portugal. Sucic também mostrou personalidade, Perisic foi sólido e competitivo, e a Croácia, como conjunto, teve maturidade para não se intimidar com o peso do rival. Faltou, porém, defender melhor a própria área. Em jogos desse tamanho, uma bola aérea mal atacada pode destruir 90 minutos de superioridade em vários aspectos.

E a despedida de Luka Modric aumenta ainda mais a carga emocional da partida. Ele não sai das Copas com a imagem de um jogador vencido, mas de um símbolo que resistiu até o fim. A Croácia não foi atropelada, tampouco dominada e nem coadjuvante. Pelo contrário: fez Portugal sofrer, obrigou Diogo Costa a trabalhar, teve gols anulados por detalhes e esteve muito perto de transformar a noite portuguesa em tragédia. Modric se despede dos Mundiais representando exatamente aquilo que construiu por mais de uma década: competitividade, inteligência, técnica e uma capacidade absurda de fazer sua seleção acreditar.

Para Portugal, a classificação tem gosto de alívio, mas não pode esconder os problemas. A criação pelo meio praticamente inexiste. Uma seleção que parecia ter um dos meio-campos mais criativos do mundo está dependente demais das ações de Nuno Mendes e Rafael Leão pela esquerda, ou de Pedro Neto pela direita. Falta jogo entrelinhas, aproximação central e alguém que consiga conectar posse e agressão. Contra a Croácia, a bola passou muito pelos lados e pouco por zonas realmente perigosas de criação.

A vitória mantém Portugal vivo, mas também expõe uma contradição: o elenco é fortíssimo, a seleção tem nomes de elite em quase todos os setores, mas o time ainda não parece tão forte quanto a soma de suas peças. Contra a Espanha, isso pode ser fatal. Se repetir a queda física do segundo tempo, permitir transições com tanta facilidade e depender novamente de milagres de Diogo Costa, será fatal. A estrela de Cristiano Ronaldo e o faro de Gonçalo Ramos salvaram uma noite histórica. Mas, para continuar sonhando com o título inédito, Portugal precisará muito mais do que sobreviver.

(Imagem de capa: Dan Mullen / Getty Images via AFP)