Poucos treinadores chegaram à Copa do Mundo de 2026 com tantas dúvidas ao seu redor quanto Graham Potter. Há menos de um ano, o inglês acumulava duas passagens frustrantes na Premier League e via sua reputação ser questionada após fracassos no Chelsea e no West Ham. Hoje, porém, o cenário é completamente diferente.
A vitória por 5 a 1 sobre a Tunísia não representou apenas três pontos para a Suécia na estreia do Mundial. O resultado também simbolizou uma espécie de redenção para Potter, que encontrou no futebol sueco a oportunidade de reconstruir sua carreira e mostrar que continua sendo um treinador capaz de liderar equipes em grandes competições.
A atuação sueca chamou atenção não apenas pelo placar, mas pela forma como a equipe dominou a partida. O desempenho reforçou a sensação de que a Suécia pode ser uma das seleções mais perigosas desta Copa do Mundo e colocou novamente os holofotes sobre um técnico que parecia ter perdido espaço entre os principais nomes do futebol europeu.
A volta ao país que transformou sua carreira
Para entender o momento atual de Potter, é preciso voltar alguns anos no tempo.
Muito antes de comandar clubes da Premier League, o treinador construiu sua reputação na Suécia. Foi no Ostersunds que ele iniciou sua trajetória como técnico e realizou um dos trabalhos mais impressionantes do futebol europeu recente.
Potter assumiu o clube quando ele ainda estava na quarta divisão sueca. Em poucos anos, levou a equipe à elite nacional, conquistou a Copa da Suécia e alcançou competições continentais pela primeira vez na história da instituição.
Essa ligação explica por que o treinador frequentemente fala sobre sua identificação com o país.
Durante a preparação para a Copa do Mundo, Potter afirmou que se sente parcialmente sueco. Dois de seus filhos nasceram no país e grande parte de sua formação profissional aconteceu ali.
Após as experiências frustrantes na Inglaterra, assumir a seleção sueca representou um retorno às origens.
Os números mostram que o desafio não era simples. Quando Potter assumiu a equipe em outubro, a Suécia já havia comprometido sua campanha nas Eliminatórias. A seleção terminou a fase classificatória sem vitórias em seis partidas e atrás de Suíça, Kosovo e Eslovênia.
A vaga para a Copa só foi possível graças ao ranking da Liga das Nações da UEFA, que garantiu aos suecos uma oportunidade na repescagem.
A equipe aproveitou a chance, eliminando Ucrânia e Polônia para confirmar sua presença no Mundial.
Um ataque capaz de intimidar qualquer adversário

Se a Suécia sonha com uma campanha histórica, boa parte da esperança está concentrada em seu setor ofensivo.
A dupla formada por Alexander Isak e Viktor Gyokeres chega à Copa em excelente momento.
Isak, atacante do Liverpool avaliado em cerca de 125 milhões de libras, voltou recentemente à melhor condição física. Já Gyokeres vive uma das melhores fases da carreira após se consolidar como um dos atacantes mais produtivos da Europa.
Contra a Tunísia, a sintonia entre os dois ficou evidente.
Ambos participaram diretamente dos gols um do outro, demonstrando um entrosamento que pode ser decisivo nos jogos mais difíceis do torneio.
Além da qualidade técnica, a dupla oferece características complementares. Isak combina velocidade e capacidade de finalização, enquanto Gyokeres agrega força física, movimentação constante e presença dentro da área.
Para uma seleção que ficou fora da Copa do Mundo de 2022, o surgimento de uma parceria ofensiva desse nível representa um salto importante de qualidade.
Os números que explicam a evolução da Suécia
A goleada sobre a Tunísia também ajuda a dimensionar a transformação promovida por Potter.
Os cinco gols marcados na estreia superaram toda a produção ofensiva da Suécia durante a fase de grupos das Eliminatórias. Na campanha classificatória, a seleção havia balançado as redes apenas quatro vezes.
O crescimento ofensivo demonstra uma equipe mais confiante, agressiva e organizada.
Outro aspecto importante é que a Suécia chega ao torneio com um elenco relativamente inexperiente em Copas do Mundo.
Entre os jogadores de linha, apenas Victor Lindelof possui experiência anterior no torneio. O goleiro Kristoffer Nordfeldt esteve no Mundial de 2018, mas sequer entrou em campo.
Isso significa que Potter precisa exercer um papel ainda mais relevante na gestão emocional do grupo.
Até agora, a resposta tem sido positiva.
O desafio contra a Holanda e o sonho de uma campanha histórica
Apesar do excelente início, a Suécia sabe que os maiores testes ainda estão por vir.
A Tunísia entrou na competição ocupando apenas a 56ª posição do ranking mundial e apresentava um nível técnico inferior ao de outras seleções do grupo.
O próximo compromisso contra a Holanda deve oferecer um retrato mais fiel do potencial sueco.
A equipe holandesa aparece entre as candidatas a uma campanha longa na Copa e possui jogadores acostumados a atuar nos principais clubes da Europa.
Ainda assim, a confiança sueca aumentou significativamente após a estreia.
Potter tem insistido que o foco da equipe está nas próprias atuações e não nas previsões feitas por analistas ou torcedores.
A postura faz sentido. Em uma Copa do Mundo ampliada, uma boa largada costuma ser determinante para a classificação.
A Suécia já deu um passo importante nessa direção.
Além disso, o histórico oferece motivos para sonhar. A melhor campanha sueca aconteceu em 1958, quando o país foi vice-campeão perdendo apenas para o lendário Brasil de Pelé. Em 1994, nos Estados Unidos, os suecos voltaram a surpreender e terminaram na terceira colocação.
Agora, sob o comando de outro treinador inglês, a seleção tenta escrever mais um capítulo marcante de sua história.
Ainda é cedo para apontar a Suécia como candidata ao título, mas a estreia mostrou algo importante: Graham Potter encontrou uma nova oportunidade para reconstruir sua carreira, e a Suécia parece ter encontrado o treinador ideal para liderar seu retorno ao protagonismo internacional.
(Foto de capa: AFP.)