A temporada 2025/26 da Premier League mal começou, mas já transmite a sensação de que o futebol inglês está revisitando práticas do passado, em relação aos últimos anos. Mesmo após apenas três rodadas disputadas, algumas mudanças de comportamento dentro de campo sugerem que a liga caminha em direção a tendências menos recentes, antes da pausa da competição para a Data Fifa de setembro. O curioso é que muito do que agora surge como novidade já foi visto antes.
O futebol, como fenômeno tático, costuma andar em ciclos. Elementos que pareciam ultrapassados reaparecem, remodelados para a realidade atual. O início da temporada 2025/26 sugere um retorno a estilos mais próximos do início da era moderna da Premier League, inaugurada em 1992/93, quando o Manchester United conquistou o primeiro título daquela edição. Não se trata de uma volta exata aos anos 1990, mas de elementos táticos que soam um tanto antiquados, como a prática de forçar laterais logo na saída de bola.
Esse recurso, que pode parecer incoerente à primeira vista, já foi utilizado por equipes de destaque. Nas rodadas iniciais de 2025/26, clubes da Premier League como Crystal Palace, Newcastle e Arsenal adotaram essa estratégia de forma proposital. A lógica é clara: provocar o adversário desde os primeiros segundos, obrigando-o a sair jogando sob pressão alta e testando sua organização logo no começo da partida. Além disso, entregar a posse em uma zona mais recuada do campo rival ajuda a escapar do sufoco causado pela concentração de jogadores na defesa adversária.
Outra variação dessa tendência é vista na Premier League que, em vez de ceder o lateral, preferem lançar a bola diretamente para seus atacantes logo no pontapé inicial. Até mesmo o Manchester City de Pep Guardiola, conhecido pela valorização extrema da posse, tem recorrido a essa alternativa. Agora, com Donnarumma no gol, a equipe inicia alguns jogos com um recuo simples para o goleiro, seguido de um lançamento longo. Assim, entre novas regras e ajustes táticos, o futebol se reinventa. O que parecia ultrapassado retorna remodelado, criando um jogo mais direto, físico e imprevisível.

Caminho de volta ao “old school”: quatro tendências da Premier League 2025/26
Com apenas três rodadas antes da pausa da Data Fifa de setembro, a Premier League já revela quatro tendências curiosas, que afastam a competição do domínio absoluto da posse de bola e da paciência construtiva.
1. O ressurgimento dos arremessos longos como arma ofensiva
Logo na primeira rodada da Premier League, mais da metade dos clubes da liga, 11 de 20, recorreram aos “long throws”, laterais cobrados a mais de 20 metros em direção à área rival. Esse expediente, quase esquecido nos últimos anos, hoje aparece com frequência: a média da temporada já alcança 3,03 arremessos longos por jogo, quase o dobro do melhor índice da década passada (1,67 em 2018/19). Na edição 2024/25, esse tipo de jogada resultou em 14 gols e um total de 15,9 xG, números que mostram sua relevância ofensiva.
2. Goleiros mais propensos a lançamentos longos
Depois de anos em queda, de 79,3% em 2014/15 para 46,6% em 2023/24, a frequência de passes longos dos goleiros (32m ou mais) voltou a subir, chegando a 51,9% nesta temporada da Premier League. Isso representa um claro retorno ao uso estratégico da bola aérea já na saída de jogo.
3. Saída de bola com chute proposital para fora
Talvez a tendência mais inusitada até aqui: chutes intencionais para fora em regiões avançadas do campo, cedendo laterais ao adversário e criando armadilhas de pressão. Em apenas três rodadas da Premier League, três casos já foram registrados, mais do que em toda a soma dos últimos cinco anos (apenas um em 1.900 jogos).
4. Ênfase renovada nas bolas paradas e disputas diretas
Paralelamente, nota-se maior valorização de jogadas de bola parada e lances de contato físico. Isso se explica pela pressão intensa exercida pelos adversários, que dificulta trocas curtas de passes. Em vez de insistir no toque, muitos times apostam em eficiência bruta.
Análise Geral
Essas tendências resgatam um estilo menos refinado, mas altamente funcional. A Premier League, cada vez mais intensa e física, parece encontrar no passado respostas para os desafios do presente. Após anos de domínio da posse, o jogo direto reaparece como uma alternativa capaz de surpreender e gerar desequilíbrio.

Big Six: como os gigantes da Premier League se adaptam ao “retrocesso produtivo”
Os seis maiores clubes do futebol inglês (Manchester City, Arsenal, Liverpool, Chelsea, Manchester United e Tottenham) respondem de formas diferentes a essa virada tática nesta atual edição da Premier League:
Manchester City – adaptação sob Donnarumma
Mesmo sob Pep Guardiola, o City ajusta seu jogo. Donnarumma, menos habilidoso com os pés que Ederson, aumenta o número de lançamentos longos. Haaland e Marmoush viraram alvos frequentes.
Arsenal – posse equilibrada com verticalidade
O técnico Mikel Arteta mantém a identidade de controle, mas adiciona alternativas diretas no Arsenal. Ben White assumiu os long throws ofensivos, enquanto Raya e Gabriel Magalhães variam mais lançamentos em busca de Saka e Gyökeres.
Liverpool – jogo direto sob Arne Slot
O novo treinador combina pressão alta com ações verticais. Laterais longos e passes diretos são utilizados para acelerar a transição ofensiva. Salah e Ekitike se destacam nesse modelo mais físico.
Chelsea – bola parada como diferencial
Apesar do discurso de paciência de Enzo Maresca, o Chelsea abraçou os long throws. A força física de Palmer e João Pedro no ataque favorece o aproveitamento de segundas bolas.
Manchester United – pragmatismo de Rúben Amorim
A necessidade de resultados levou Rúben Amorim a adotar o caminho mais direto. Os goleiros alternam lançamentos longos para atacantes como Matheus Cunha e Šeško. O time também já utilizou a jogada “bizarra” do chute proposital para fora no campo ofensivo.
Tottenham – referência em arremessos longos
Com Thomas Frank no comando do Spurs, especialista no recurso desde os tempos de Brentford, o Spurs transformou laterais em arma recorrente. Udogie e Porro são protagonistas dessas jogadas.
Um futebol mais direto, mas não menos estratégico
O que se vê na Premier League 2025/26 não é o abandono da posse de bola, mas a convivência de estilos. Métodos de outras épocas retornam adaptados ao ritmo atual, criando uma liga ainda mais imprevisível. No fim, trata-se de eficiência: transformar jogadas simples em instrumentos de vitória. Mais uma vez, o campeonato mais rico do mundo dita tendência e talvez inspire outros torneios a resgatar o valor do “old school”.
(Foto: Getty Images)