A rodada 18 da Premier League foi daquelas que ajudam a explicar por que o campeonato inglês continua sendo o mais imprevisível (e talvez até, divertido) do mundo. Teve jovem chamando a responsabilidade em clube gigante, reforço mostrando por que foi contratado e, claro, um talento criativo que pode muito bem estar mudando o rumo da briga pelo título. Sim, estamos falando de Rayan Cherki, mas não só dele.
Entre assistências decisivas, arrancadas em velocidade máxima e atuações defensivas que passam despercebidas para quem só olha gols, a rodada da Premier League deixou alguns recados importantes para o resto da temporada.
Premier League e seus principais destaques (ou pontos interessantes)
Rayan Cherki e o novo rosto da disputa pelo título
Durante boa parte do primeiro turno da Premier League, o Manchester City parecia um time estranho aos próprios padrões, assim como andava acontecendo na última temporada. Irregular, pouco criativo e distante do topo da tabela, se apresentando como uma peça diferente das que costumam roubar os holofotess. Mas desde novembro, algo mudou, e esse “algo” tem nome e sobrenome: Rayan Cherki.
Foi só a partir do início de novembro que Pep Guardiola passou a confiar de vez no francês, deixando-o em campo por mais de 60 minutos com regularidade. Coincidência ou não, desde então o City engrenou. Cherki foi titular em oito dos últimos nove jogos da Premier League, e o time venceu todos, menos um. A esperança pelo título, que parecia quase perdida, voltou com força.
Os números explicam o impacto. Cherki já soma sete assistências na Premier League desde novembro, mais do que qualquer outro jogador no período. E aqui está o detalhe mais impressionante: todas vieram em jogadas de bola rolando, então em outras palavras, ele criou essas brechas. Nada de escanteio, falta ensaiada ou bola parada “mastigada”. É criatividade pura.
Enquanto nomes como Bruno Fernandes e Harry Wilson também aparecem no ranking de assistências da Premier League, eles aparecem como cobradores oficiais de bolas paradas. Cherki não. Ele cria no caos do jogo, entre linhas, com passes verticais e enfiadas que desmontam defesas, mostrando um pouco mais do famoso “futebol arte”, que muitos adoram.
Contra o Nottingham Forest, além de marcar o gol da vitória, deu assistência para o primeiro gol com uma jogada típica: bola recebida por dentro, passe rápido e cirúrgico. Desde novembro, ninguém na Premier League deu mais passes em profundidade do que ele. Guardiola finalmente achou o encaixe, e o City agradece.
Foden + Cherki: a combinação que mudou o City
Outro ponto-chave dessa virada é a parceria entre Phil Foden e Rayan Cherki. Curiosamente, o primeiro jogo em que Guardiola escalou os dois juntos desde o início foi justamente contra o Bournemouth, quando o City ainda estava em oitavo lugar na Premier League.
Desde então? Sete vitórias em oito jogos. Antes, o plano parecia depender exclusivamente de Erling Haaland atropelando defesas, e fazendo gols até se apresentar enjoado (algo que nunca acontecerá). Agora, o City tem ideias, variação e controle. Cherki não só ajudou a melhorar o time, ele deu uma nova identidade.
Jeremie Frimpong e a velocidade que o Liverpool precisava
Se criatividade foi o assunto em Manchester, em Anfield o tema foi velocidade. O Liverpool encontrou dificuldades no início contra o Wolves, mas tudo mudou quando Arne Slot começou a empurrar Jeremie Frimpong cada vez mais para frente, simplesmente sua primeira ideia ao colocá-lo na Premier League, pena que demorou para entrar em prática.
O lateral-direito, que na prática virou ponta, foi fundamental para desmontar a linha baixa dos visitantes. Slot explicou depois: contra times que se fecham muito, o Liverpool não tem usado bolas paradas como principal arma. Então, a alternativa é acelerar o jogo, e Frimpong faz isso como poucos, fica até difícil em certas ocasiões, de considerá-lo um lateral, tem muito mais cara de ponta…
Na jogada do gol, ele simplesmente passou por dois marcadores na corrida e cruzou para Ryan Gravenberch marcar. Simples assim. Rápido, direto e mortal. Não à toa, Slot destacou publicamente a importância da velocidade no futebol moderno.
Contratado do Bayer Leverkusen, Frimpong teve sua adaptação atrasada por lesões e essa foi apenas sua segunda partida como titular na Premier League. Mas, se estiver saudável, tudo indica que pode virar peça importante no quebra-cabeça de Slot.
Ayden Heaven e o surgimento de um nome no Manchester United
Nem só de atacantes vivem os destaques da rodada. No Boxing Day, o Manchester United venceu o Newcastle em um jogo de pura resistência defensiva, e um nome roubou a cena na Premier League: o promissor Ayden Heaven.
O jovem defensor foi eleito o melhor em campo por Gary Neville após uma atuação impecável. Foram oito cortes, um bloqueio crucial e muita maturidade para alguém tão novo. O United sofreu, se fechou e segurou o resultado na Premier League, muito por causa dele, num momento em que os Diabos Vermelhos não contavam com muitos nomes para o setor em questão.
Ruben Amorim não poupou elogios. Disse que Heaven melhora durante o jogo, não sente o peso da partida e treina tão bem quanto joga. Resultado: já são cinco partidas seguidas como titular.
Vale lembrar que, em fevereiro, quando foi apresentado ao torcedor após chegar do Arsenal, poucos imaginavam que ele teria papel relevante tão cedo, tinha tudo para ser polido por mais um tempo. Hoje, parece até estar à frente de Leny Yoro na hierarquia. O caminho não será linear, erros virão, mas a reputação de Ayden Heaven cresce a cada rodada, seja na Premier League, ou numa copa nacional.
Foto: Getty Images