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Premier League mostra nova tendência tática: menos passes, mais objetividade e o retorno das bolas longas

Se nas últimas temporadas a Premier League se consolidou como um laboratório da saída de bola curta, da pressão alta e das intermináveis trocas de passes, os primeiros jogos de 2025-26 indicam que estamos diante de uma mudança de paradigma. Os números e o comportamento em campo apontam para uma liga mais direta, pragmática e cada vez menos obcecada por reproduzir o estilo de posse sufocante que marcou a era Pep Guardiola.

Um exemplo simbólico foi o empate por 1 a 1 entre Manchester City e Arsenal na última rodada da Premier League. Os Citizens, conhecidos por sua paciência e pela busca incessante de espaços através de passes curtos, adotaram um estilo mais pragmático, acelerando jogadas e buscando a área adversária com mais objetividade. Do outro lado, o Arsenal também deixou claro que não é um “novo Barcelona 2010”. O resultado foi uma partida que refletiu a nova cara da liga: menos trocas de bola estéticas, mais verticalidade e um olhar pragmático para o resultado.

Menos passes, mesma precisão

Os dados confirmam essa tendência. A média de passes por jogo caiu para 849,1 — o menor número desde 2010-11. Para efeito de comparação, em 2020-21, auge da era da posse, a média foi de 945,2 passes por jogo. Isso não significa, porém, que os times estejam arriscando mais ou entregando a bola com frequência: a precisão segue alta, em 82,6%, terceira melhor marca desde que o dado passou a ser registrado. Em outras palavras, os passes diminuíram, mas não a qualidade.

O que vemos são sequências mais curtas e diretas. Manchester City, por exemplo, caiu de 5,12 passes por sequência na temporada passada para 3,97 agora, além de aumentar sua velocidade de progressão de 1,43m/s para 1,61m/s. Equipes como Liverpool, Newcastle e Arsenal também aceleraram sua forma de atacar. Já Nottingham Forest foi na direção contrária: de uma das equipes mais diretas da liga, agora figura entre as mais pacientes, reflexo da transição de Nuno Espírito Santo para Ange Postecoglou.

Outro dado que reforça a guinada tática da Premier League é o crescimento das bolas longas. Já são, em média, 99,7 lançamentos por jogo, número próximo ao que se via em meados da década passada e acima da temporada 2024-25. Isso impacta diretamente em outras estatísticas: menos saídas curtas de goleiro, mais disputa pela segunda bola e maior uso de jogadas que buscam acelerar a posse.

Mais impressionante ainda é a explosão dos laterais longos. Em 2025-26, a média é de 3,44 laterais arremessados diretamente na área por jogo — mais que o dobro do recorde anterior na liga. O Brentford, especialista nesse tipo de recurso, já acumula 23 tentativas e quatro gols saíram de laterais até aqui, número que representa um salto grande em relação às temporadas anteriores da Premier League. O jogo aéreo, que parecia condenado ao esquecimento, voltou a ser uma arma relevante.

Menos pressão alta, mais precaução

A pressão na saída de bola também perdeu força. Na temporada passada, a Premier League registrava 14,6 recuperações no terço final por jogo; neste início de 2025-26, o número caiu para 11,5 — o menor em dez anos. Não significa que as equipes desistiram da pressão, mas que muitas vezes não encontram a oportunidade de executá-lo, já que os adversários optam pelo passe longo direto da defesa.

Clubes como Liverpool e Manchester City, antes referências nesse quesito, viram sua média de recuperações altas despencar. Liverpool, por exemplo, caiu de 8,1 para apenas 4,4 por jogo, terceira pior marca da liga. Isso mostra como as estratégias estão se moldando umas às outras: o crescimento dos lançamentos responde ao perigo da pressão, e a queda das recuperações no ataque confirma essa adaptação.

Além disso, se a bola está circulando menos pelo chão, ela está decidindo mais nas bolas paradas. Das 124 redes balançadas até agora na temporada da Premier League, 31 foram em escanteios, faltas ou laterais — 25% do total. É a maior proporção em dez anos, acima até do recorde de 2016-17. Além disso, os escanteios curtos praticamente desapareceram: apenas 13,5% das cobranças seguiram esse padrão, bem abaixo dos quase 18% das últimas três temporadas.

O resultado é prático: mais gols vindos de cantos e laterais, o que reforça o pragmatismo que marca este novo ciclo. O “detalhe” voltou a ser decisivo, e técnicos que apostam em jogadas ensaiadas colhem frutos imediatos.

Um novo ciclo da Premier League

Ainda é cedo para decretar que a Premier League entrou definitivamente em uma era mais direta e menos pautada pela posse. Foram apenas 50 jogos em um campeonato de 380. Mas os números, aliados à observação em campo, apontam para uma guinada clara. O jogo posicional obsessivo cede espaço a uma liga mais híbrida, na qual cada vez mais equipes se sentem confortáveis em abrir mão da bola para ganhar em objetividade.

Se essa tendência se mantiver, a temporada 2025-26 pode ser lembrada como o início de um novo ciclo tático na Inglaterra: menos paciência, mais verticalidade, o retorno das bolas longas e uma revalorização das bolas paradas. A Premier League, mais uma vez, se reinventa — e talvez esteja ditando o próximo padrão do futebol mundial.

(Foto: AFP)