A Premier League costuma ser tratada como o campeonato nacional mais difícil do mundo. Mas a temporada 2025/26 conseguiu elevar ainda mais essa sensação de equilíbrio.
Enquanto algumas pessoas criticaram uma suposta queda de qualidade técnica da liga, muitos enxergaram exatamente o contrário: uma competição tão equilibrada que praticamente qualquer equipe conseguiu mudar completamente seu destino ao longo do campeonato.
O Arsenal encerrou um jejum de 22 anos sem conquistar a Premier League. O Tottenham voltou a lutar contra o rebaixamento. Clubes promovidos conseguiram competir de verdade. Sunderland garantiu vaga europeia. Bournemouth alcançou a melhor campanha de sua história. E jogadores improváveis surgiram como protagonistas.
Talvez nenhuma edição recente da Premier League tenha apresentado tantas mudanças de cenário ao mesmo tempo.
O “meio embolado” transformou a tabela em uma guerra constante

O equilíbrio da temporada aparece logo na classificação final.
Entre o sexto e o décimo sexto colocado existiram apenas 13 pontos de diferença.
O Bournemouth terminou em sexto com 57 pontos. O Nottingham Forest, em décimo sexto, somou 44.
Esse número igualou o menor intervalo já registrado entre essas posições na história da Premier League, repetindo o que havia acontecido em 1998/99.
Na prática, isso significou uma liga onde praticamente ninguém conseguiu viver uma temporada tranquila.
Durante vários momentos, equipes brigavam simultaneamente contra o risco de rebaixamento e por vagas europeias.
Everton, Newcastle e Fulham, por exemplo, ainda sonhavam com competições continentais perto do fim da temporada. Pouco depois, terminaram apenas em 13º, 12º e 11º.
Essa instabilidade acabou criando uma temporada extremamente imprevisível.
Poucas sequências negativas eram suficientes para derrubar clubes várias posições. Da mesma forma, algumas vitórias consecutivas recolocavam equipes novamente na disputa por objetivos maiores.
O Tottenham virou símbolo da imprevisibilidade da liga

Talvez nenhum clube represente melhor o caos competitivo da temporada do que o Tottenham.
Muita gente acreditava que a campanha ruim de 2024/25 havia sido consequência direta da prioridade dada à Liga Europa, competição conquistada pelos Spurs naquela temporada.
Mas em 2025/26 os problemas continuaram.
O Tottenham terminou novamente em 17º lugar e desta vez correu risco real de rebaixamento até a rodada final.
O dado chama ainda mais atenção quando analisado fora de campo.
Segundo a Deloitte Football Money League divulgada em janeiro, o Tottenham aparecia como o nono clube com maior receita do futebol mundial.
Mesmo assim, o clube passou mais uma temporada lutando contra a parte inferior da tabela.
Isso ajuda a mostrar como a diferença financeira nem sempre foi suficiente para garantir estabilidade na Premier League deste ano.
Sunderland e Bournemouth quebraram padrões históricos

Se o Tottenham decepcionou, Sunderland e Bournemouth simbolizaram o lado mais surpreendente da temporada.
O Sunderland havia conquistado o acesso pela Championship através dos playoffs após terminar 24 pontos atrás dos líderes da segunda divisão inglesa.
Seu acesso aconteceu com gols nos acréscimos tanto nas semifinais quanto na decisão.
Além disso, a equipe subiu com apenas 76 pontos, uma das menores pontuações recentes entre clubes promovidos.
Por isso, muitos apontavam o Sunderland como favorito ao rebaixamento.
Mas o clube surpreendeu completamente.
Sob comando de Régis Le Bris, a equipe construiu uma campanha extremamente sólida defensivamente. Apenas Brighton, Manchester City e Arsenal sofreram menos gols que os 48 do Sunderland.
O resultado foi histórico.
A equipe terminou em sétimo lugar e garantiu vaga europeia pela primeira vez desde os anos 1970.
Mesmo o modelo de pontos esperados da Opta indicando que o Sunderland deveria ter brigado contra o rebaixamento, o time terminou com 54 pontos, marca superada anteriormente por apenas seis equipes promovidas em temporadas de 38 rodadas.
O Bournemouth também escreveu um capítulo histórico.
A equipe terminou em sexto lugar, alcançando a melhor campanha de sua história na elite inglesa e garantindo classificação continental inédita.
O trabalho de Andoni Iraola acabou transformando o clube em uma das histórias mais impressionantes da temporada.
Igor Thiago virou um dos símbolos da temporada

Entre tantos protagonistas improváveis, poucos tiveram trajetória tão marcante quanto Igor Thiago.
O atacante do Brentford praticamente perdeu toda a temporada 2024/25 por lesão. Quando retornou, recebeu uma missão complicada: substituir Bryan Mbeumo e Yoane Wissa após as saídas da dupla.
A resposta foi imediata.
Igor Thiago terminou a Premier League com 22 gols, estabelecendo um novo recorde do Brentford em uma única edição da competição.
Mesmo considerando que oito gols foram marcados em cobranças de pênalti, seus números continuam impressionantes. Retirando os gols da marca da cal, ainda seriam 14 gols em sua primeira temporada completa como protagonista.
O desempenho lhe garantiu as primeiras convocações para a seleção brasileira e também uma vaga na Copa do Mundo.
Existe ainda outro dado importante.
Na história da Premier League em temporadas de 38 rodadas, apenas três jogadores haviam marcado 22 gols ou mais por equipes que terminaram em nono lugar ou abaixo da tabela.
E apenas um desses casos havia acontecido nos últimos 15 anos.
O número ajuda a explicar o tamanho da temporada do brasileiro.
Mas talvez também ajude a resumir toda a Premier League de 2025/26.
Foi um campeonato onde equipes consideradas pequenas desafiaram favoritos, clubes promovidos deixaram de apenas sobreviver e novos protagonistas surgiram o tempo inteiro.
Em um ano marcado pelo equilíbrio, a principal força da Premier League talvez tenha sido justamente sua imprevisibilidade.
(Foto de capa: Getty Images)

