O Ultimate voltou a Montreal após mais de 10 anos em grande estilo. O evento numerado, UFC 315, terá duas disputas de cinturão, sendo uma delas bem simbólica, a luta pelo título dos meio-médios, categoria a qual reinou o maior lutador canadense da história, Georges St-Pierre, que nasceu no estado de Quebec.
Da última vez que o maior evento de MMA do mundo ocorreu em Montreal, em 2013, GSP foi o dono da luta principal diante de Nick Diaz, vencendo todos os rounds para terminar o combate com o triunfo por decisão unânime. Desta vez, não teremos nenhum canadense disputando cinturão, mas o campeão dos meio-médios, Belal Muhammad, também é um exímio lutador de chão, assim como St-Pierre, embora ambos tenham estilos bem diferentes.
O UFC 315 terá lutas interessantes, muito pela imprevisibilidade do que pode acontecer nos combates. Os atuais campeões que defenderão seus títulos no evento, Belal Muhammad e Valentina Shevchenko, entrarão no octógono como favoritos, mas ambos terão pela frente oponentes com totais condições de sair do cage com a cinta.
Confira as análises das principais lutas e um parâmetro sobre o evento, que premiará os fãs de Quebec, no Bell Centre, com tudo o que o UFC tem de melhor, grandes lutadores, uma organização espetacular e a possibilidade de perfomances épicas.
Maddalena pode ser o bem querer do UFC

Belal Muhammad é competente, sofre pouco nas lutas e possui um fator a seu favor que todos os grandes lutadores têm: ele consegue levar o adversário a fazer o jogo que for mais favorável a ele. Apesar de tudo isso, Belal é o campeão mais impopular do Ultimate e alguns fatores explicam isso.
Mesmo nascido em Chicago, Belal Muhammad representa a Palestina no Ultimate, um mercado praticamente inexistente para o UFC e ainda rival da cultura dos Estados Unidos. Além disso, o estilo de jogo de amarrar os combates na luta agarrada, pontuar mais do que nocautear e não promover bem seus duelos, são fatores ruins para os negócios do Ultimate.
Em contrapartida, Jack Della Maddalena também não é um exímio vendedor de combates, não é americano e tampouco está entre os lutadores mais populares do mundo, mas seus combates são bem mais emocionantes, ele nocauteia seus oponentes e já tem quatro prêmios de performance da noite, além de estar na Austrália, um dos principais mercados do UFC.
O desenvolvimento do combate deve ser de ambos procurando a melhor distância logo de cara, mas com Belal impondo um ritmo de pressão o tempo todo, procurando brechas para impor seu jogo físico de luta agarrada. A tendência é que Muhammad pontue minando o adversário para levar o duelo para uma decisão favorável e incontestável.
Enquanto isso, do outro lado, Della Maddalena deve estar com a defesa de quedas afiada e precisará poupar energia para buscar uma difícil brecha no jogo de Belal para atacar visando o nocaute. O australiano não é nada bobo de chão, já que tem a faixa preta de jiu-jítsu, mas contra o campeão, ele terá de confiar na mão, se quiser fazer a alegria do UFC e dos fãs de lutadores mais dinâmicos que o “Remember the Name”.
Será que chegou o momento da França ter um título linear?
A França já produziu grandes lutadores. No plantel atual são cinco atletas ranqueados, tendo Nassourdine Imavov, Ciryl Gane e Manon Fiorot perto do cinturão. A lutadora, inclusive, é a esperança francesa de conquista o tão sonhado título linear neste sábado, diante de uma das maiores lutadoras da história, Valentina Shevchenko.

Manon Fiorot está numa sequência de 12 vitórias desde 2019, sendo sete delas pelo UFC. A francesa coleciona triunfos diante de grandes nomes como Erin Blanchfield, Rose Namajunas e Mayra Bueno Silva, entre outras, mas o principal é que Fiorot tem um ritmo de luta insano, é excelente em pé e defende quedas como talvez nenhuma outra lutadora da categoria, o que traz uma dificuldade que nem mesmo a experiente campeã já tenha enfrentado.
Falar das qualidades de Valentina Shevchenko é “chover no molhado”, mas o mais importante é que ela saiu mexida da trilogia contra Alexa Grasso, pois até pouco tempo “Bullet” era considerada imbatível no peso mosca e isso pode ter dado uma acomodação perigosa para a campeã, que perdeu o cinturão para a mexicana e teve que batalhar muito para recuperar.
Motivada, Valentina Shevchenko, por ser mais completa e experiente, leva vantagem. O duelo pode se tornar um tiroteio em pé e tem boas chances de ser luta da noite, mas somente trocar com Manon Fiorot pode tornar o combate imprevisível. Se a lutadora do Quirguistão quiser garantir seu cinturão com mais tranquilidade, o chão deve ser a salvação. Cansar Fiorot nos primeiros assaltos pode ser o segredo para Valentina sair do octógono bem sucedida.
Perto do final da carreira, José Aldo não quer ser porteiro
José Aldo havia se aposentado para lutar boxe, entretanto, o campeão do povo voltou para o Ultimate para salvar o UFC 301, que precisava de mais um nome de peso além de Alexandre Pantoja. Aldo aceitou o retorno e venceu Jonathan Martínez por pontos.
Após o combate, José Aldo falou, inclusive para a Playmaker Brasil, que não sabia se lutaria novamente. Mas, não só lutou, como está no combate depois disso, já que perdeu numa polêmica decisão dividida para Mario Bautista no UFC 307.
Escalado para mais um evento numero, desta vez em Montreal, José Aldo parece estar no card para dar visibilidade a um dos principais nomes do MMA canadense na atualidade, Aiemann Zahabi, nativo de Quebec, que vem de cinco vitórias seguidas na organização, sendo a última contra outro experiente brasileiro, Pedro Munhoz.
Zahabi é faixa preta de jiu-jítsu, mas a exemplo de José Aldo, se sente mais confortável na luta em pé. Apesar disso, trocar em pé com Aldo não é uma tarefa das melhores, então ser mais ativo, batendo e saindo, deve ser a chave para o canadense.
Do outro lado, após o problema em bater o peso galo, que fez a luta passar para a categoria dos penas, é necessário saber como José Aldo está fisicamente, como foi a recuperação dele. Se estiver bem de saúde, o brasileiro é bem favorito e tem condições de nocautear o queridinho da casa, entretanto, se não estiver no seu melhor, o campeão do povo pode ter a vida bem dificultada pelo ritmo do oponente.

Ex-campeã terá brasileira como grande desafio
Mesmo sem muitos nomes bombásticos, o UFC 315 tem boas chances de ser divertido, isso porque existem atletas que promovem belos shows dentro do octógono. Uma das lutas que pode trazer grande impacto é a que envolve a ex-campeã Alexa Grasso e a excelente brasileira Natalia Silva.
Alexa Grasso vem de uma trilogia espetacular contra Valentina Shevchenko e, logo de cara, enfrenta uma das principais lutadoras em pé do mundo. Natalia Silva é uma striker com um estilo de luta muito bonito de assistir e possui uma defesa de queda das melhores da categoria, fatores que poderão ser preponderantes para a vitória dela.
Grasso é o maior desafio da carreira de Natalia, mas a brasileira também será uma casca de ferida para a mexicana. O combate será um clássico duelo de estilos, onde Alexa Grasso tentará de tudo para levar ao chão, enquanto Natalia Silva trabalhará em pé para pontuar. Quem impor seu estilo de jogo por mais tempo sairá vitoriosa.
O card é um passeio pelo mundo
O evento canadense contará com lutadores de impressionantes 14 países e o Brasil, depois do Canadá, é o país com mais representantes, tendo cinco nomes no card. Além de José Aldo e Natalia Silva, também nos representarão a experiente Jéssica Andrade, Bruno “Blindado”Silva e Daniel Santos.
Os brasileiros terão desafios diferentes. Jéssica Andrade terá de frear a apoiada Jamine Jasudavicious se ainda tiver aspirações no Ultimate. Entretanto, a canadense especialista em luta de chão tem um ritmo de combate que precisa ser domado pela “Bate-Estaca”, que é mais experiente, bate mais pesado, mas precisa estar motivada.

Já Bruno Silva vai enfrentar o experiente Marc-Andre Barriault, que bate pesado e gosta da pancadaria. Com ambos tendo poder de nocaute, esse duelo promete ser um dos mais insanos do evento, não tendo previsão alguma de completar os 15 minutos.
Já Daniel Santos, da Chute Boxe, tem poder de nocaute e deve ir para a pancadaria, mas o coreano JeongYeong Lee é mais completo e exigirá do brasileiro bastante concentração e aproveitamento das oportunidades, buscando o nocaute desde a primeira brecha.
O UFC 315 também terá Benoit Saint-Denis tentando se recuperar de duas derrotas diante de um canadense desconhecido, Kyle Prepolec, que parece ser o adversário perfeito para uma recuperação.
Mike Malott, principal nome para o futuro do MMA canadense , deve fazer a festa do público diante de Charles Radtke, o único representante dos Estados Unidos no evento, por incrível que pareça. O Canadá também terá um represente bem frequente que lutará logo no início, Brad Katona, que deve fazer um combate equilibradíssimo diante de Bekzat Almakhan do Cazaquistão.
Além disso, os experientes Modestas Bukauskas e Ion Cutelaba farão o excêntrico duelo entre Lituânia e Moldavia. E a luta mais curiosa do evento entre o jovem invicto Navajo Stirling, da Nova Zelândia, e o potente croata Ivan Erslan, que testará bem o hype de Stirling.