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Copa do Mundo

Príncipe William transforma paixão pelo futebol em conexão rara entre a realeza e os torcedores

Nas primeiras horas da manhã de uma segunda feira, enquanto milhões de ingleses acompanhavam a seleção nacional na Copa do Mundo, o príncipe William vivia a mesma tensão. Em sua residência familiar na propriedade de Windsor, o futuro rei ficou acordado para assistir à vitória da Inglaterra sobre o México, em uma partida marcada por atraso no início, pela atmosfera intensa do Estádio Azteca e por um final dramático, no qual a equipe inglesa precisou defender a vantagem mesmo com apenas dez jogadores.

A cena ajuda a explicar uma característica incomum entre os principais membros da família real britânica. William não acompanha o futebol apenas por obrigação institucional. Ele é patrono da Associação de Futebol da Inglaterra, a FA, mas também é um torcedor apaixonado, daqueles que sofrem, comemoram gols de forma descontrolada e organizam sua agenda para assistir aos jogos.

Durante a Copa do Mundo, o príncipe acompanhou todas as partidas da Inglaterra e manteve contato direto com jogadores e integrantes da comissão técnica. A relação é tão próxima que vários atletas possuem seu número de telefone pessoal. Caso a seleção inglesa chegue à final, marcada para 19 de julho, em Nova Jersey, William deverá viajar aos Estados Unidos como representante oficial da FA.

Mas sua ligação com o esporte vai muito além da seleção. É na paixão pelo Aston Villa que aparece o lado mais espontâneo do futuro rei e uma conexão com a população que poucos esportes tradicionais da família real seriam capazes de produzir.

Um príncipe que comemora gols como qualquer torcedor

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Foto: Getty Images

A relação de William com o Aston Villa começou na adolescência. Segundo o próprio príncipe, a escolha não teve influência do pai. Quando participou do podcast New Heights, ele foi questionado se o rei havia incentivado sua paixão pelo clube. A resposta foi direta: “De jeito nenhum. Meu pai odeia futebol”.

Foi um amigo da família quem o convenceu a apoiar o Aston Villa. A escolha, que poderia parecer pouco importante na adolescência, acabou se transformando em uma parte significativa da imagem pública do futuro rei.

William não escolheu um dos gigantes mais populares do país, como Manchester United, Liverpool, Arsenal ou Chelsea. Para Gregg Evans, jornalista do The Athletic e coautor de um livro sobre a reconstrução do Aston Villa, isso ajudou a tornar o príncipe mais próximo do torcedor comum. Em vez de simplesmente adotar uma marca global acostumada a conquistar grandes títulos, William passou a dividir as frustrações e alegrias de um clube com uma história rica, mas que também viveu longos períodos longe das maiores conquistas.

Essa ligação ficou evidente na final da Liga Europa. William viajou a Istambul acompanhado de amigos próximos, muitos deles de infância, como Ben Dawes, Thomas van Straubenzee e Edward van Cutsem. Todos compartilham sua paixão pelo Villa e frequentam partidas do clube há anos.

A vitória por 3 a 0 sobre o Freiburg encerrou uma espera de 44 anos por um título europeu. O último havia sido a Copa dos Campeões da Europa de 1982, curiosamente o mesmo ano do nascimento do príncipe William.

As câmeras mostraram o futuro rei comemorando os gols com gritos, pulos e abraços. No vocabulário dos torcedores ingleses, eram cenas de “limbs”, expressão usada para descrever aquelas comemorações em que todos perdem momentaneamente o controle e se abraçam de maneira espontânea.

De ouvinte de podcast a presença no vestiário do Aston Villa

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Foto: New Heights/Youtube

A proximidade de William com o universo do torcedor também aparece em detalhes menos visíveis.

Durante a final europeia, os apresentadores Mat Kendrick e Dan Rolinson, responsáveis pelo podcast Claret and Blue, estavam sentados a poucas fileiras do príncipe. O programa é inteiramente dedicado ao Aston Villa, e eles descobriram que William era um ouvinte frequente.

O futuro rei chegou a dizer que gostava da “boa dose de bobagens” do podcast e demonstrou interesse em participar de um episódio no futuro.

Para os torcedores, esse tipo de situação reforça a percepção de que sua paixão não é uma estratégia de imagem. William não aparece apenas em finais, cerimônias ou partidas da seleção. Ele acompanha conteúdos produzidos por torcedores e conhece o cotidiano do clube.

O capitão John McGinn também destacou essa relação depois do título europeu. Segundo ele, William esteve no vestiário antes da partida e não perderia uma final daquela dimensão porque é realmente um grande torcedor do Villa. Depois da conquista, o príncipe retornou ao vestiário para participar das comemorações.

A escolha do Aston Villa ainda oferece aos torcedores uma curiosa vantagem nas provocações comuns do futebol. Como observou Mat Kendrick, poucos clubes podem dizer que têm entre seus torcedores famosos o futuro rei da Inglaterra e o ator Tom Hanks.

A possibilidade de William se tornar rei cria até uma pergunta incomum. Ele continuará demonstrando sua paixão pelo Aston Villa com a mesma intensidade quando assumir o trono?

Para os torcedores, a esperança é que sim. Afinal, ter um rei declaradamente torcedor do Villa seria um motivo único para se gabar.

Futebol rompe uma tradição esportiva da família real

Foto: Getty Images

A paixão de William pelo futebol se destaca ainda mais quando comparada às preferências esportivas tradicionais da família real.

Para a rainha Elizabeth II, o grande esporte era a corrida de cavalos. Ela foi proprietária e criadora de animais e acompanhava as competições com enorme entusiasmo. Em 2013, tornou se a primeira monarca reinante em 207 anos a ser proprietária de um cavalo vencedor da Gold Cup, em Royal Ascot.

Naquela ocasião, sua comemoração chamou atenção porque mostrou um lado raramente visto de uma rainha conhecida pelo comportamento público controlado. As reações durante as corridas revelavam algo parecido com o que acontece hoje com William nas arquibancadas de futebol.

A princesa de Gales, por sua vez, tem uma ligação mais forte com o tênis. Como patrona do All England Lawn Tennis Club, é presença frequente em Wimbledon e participa da entrega dos troféus aos campeões.

O polo também possui uma relação histórica com a realeza. O atual rei gostava do esporte quando era mais jovem, enquanto William e Harry o praticaram regularmente. O próprio príncipe de Gales ainda participa de partidas beneficentes que arrecadam recursos para instituições apoiadas por ele.

A diferença é o alcance popular.

Corridas de cavalos, tênis e polo fazem parte da tradição esportiva britânica, mas nenhum deles possui a capacidade do futebol de reunir milhões de pessoas de diferentes classes sociais em torno da mesma experiência.

E é exatamente nesse ponto que a paixão de William ganha importância.

O futebol aproxima o futuro rei do país que um dia governará

A Inglaterra possui uma das ligas mais populares e valiosas do planeta. Durante a atual Copa do Mundo, uma única partida da seleção conseguiu manter mais de nove milhões de pessoas acordadas durante a madrugada.

William estava entre elas.

Essa imagem tem um valor simbólico importante. Enquanto milhões de ingleses sofriam diante da televisão, o futuro rei vivia a mesma experiência. Ele enfrentava a tensão dos minutos finais, comemorava a vitória e acompanhava a competição como um torcedor.

Essa conexão ganha ainda mais importância em um período no qual a percepção pública sobre a família real tem enfrentado questionamentos. William ocupa uma posição extremamente distante da vida da maioria da população, mas o futebol cria um raro espaço de identificação.

Ele sabe o que é acompanhar um clube durante anos. Conhece a frustração das derrotas, a espera por títulos e a explosão de alegria quando uma conquista finalmente chega.

Segundo Mat Kendrick, dificilmente um William de 13 ou 14 anos escolheu o Aston Villa pensando em usar essa decisão décadas depois para parecer um “homem do povo”. É justamente essa naturalidade que dá força à relação.

Sua paixão parece ter surgido antes de qualquer cálculo sobre a imagem de um futuro rei.

Agora, a Copa do Mundo oferece uma possibilidade ainda maior. A Inglaterra busca conquistar o torneio pela primeira vez em 60 anos. Caso chegue à decisão em Nova Jersey, William poderá estar presente acumulando três papéis diferentes.

Será o futuro rei do país, o patrono da Associação de Futebol e, acima de tudo, um torcedor apaixonado.

A família real britânica sempre teve uma forte relação com o esporte. Elizabeth II tinha as corridas de cavalos. A princesa de Gales tem o tênis. O polo atravessou diferentes gerações.

Mas nenhum membro importante da realeza havia vivido o futebol desta maneira.

William não apenas assiste. Ele sofre, comemora, acompanha podcasts, conversa com jogadores e entra no vestiário depois dos títulos. Em um esporte que faz parte da identidade da Inglaterra, essa paixão cria uma ligação que nenhum protocolo real seria capaz de fabricar.

E se um dia o príncipe William se tornar rei mantendo a mesma paixão, os torcedores do Aston Villa poderão dizer algo que nenhum outro clube inglês jamais conseguiu: o rei também é um deles.

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Kaique