Futebol Brasileirão

O declínio dos cartolas: A queda de Andrés Sanchez e Julio Casares e os limites do modelo associativo no futebol

A era dos cartolas que se acham maiores que as instituições no futebol paulista não acabou com um pedido de desculpas à torcida, e muito menos com uma punição além do muro dos clubes, mas dividida entre o desdém de um e o silêncio absoluto de outro. O cinismo ensurdecedor de Andrés Sanchez no Corinthians e o silêncio acovardado de Julio Casares no São Paulo são faces da mesma moeda, após levarem seus respectivos clubes à glória e enfim serem descobertos como sanguessugas.

Na noite da última segunda-feira (25), o Parque São Jorge foi palco de um episódio que até pouco tempo era considerado um mito no ambiente do Corinthians: a expulsão do ex-presidente Andrés Sanchez. Um dos principais líderes políticos do Timão nas últimas duas décadas foi excluído do quadro de sócios por 112 votos, após investigações apontarem lavagem de dinheiro e desvios no cartão corporativo.

Sua reação, porém, foi a típica cena do cartolismo que se encontra na UTI, e abre passagem para empresários e investidores com as famosas sociedades anônimas. Numa única e rápida entrevista para a ESPN após a expulsão, o ex-dirigente optou pelo deboche em vez da defesa, pedindo para ser esquecido porque o futebol hoje em dia está ‘caro, chato e perigoso’.

A poucos quilômetros dali, no Morumbi, o fracasso do São Paulo ecoa na omissão. Acuado por um inquérito da Polícia Civil que investiga saques não justificados de R$ 11 milhões em espécie e pelo escândalo da venda ilegal de camarotes, Julio Casares preferiu se calar. O ex-presidente tricolor, que um dia ascendeu ao poder com a imagem de um administrador moderno e firme nas suas convicções, renunciou e saiu pela porta dos fundos na tentativa de barrar uma destituição certa. Nesse momento, Casares aguarda em silêncio a sequência do processo de expulsão que corre contra ele no Conselho de Ética do clube.

Se Corinthians e São Paulo decidiram milagrosamente mudar de postura, não foi por um lampejo de ética e moral, mas porque a “cortina de fumaça” não conseguia mais conter a pressão da imprensa e das arquibancadas, o cerco da justiça e a ameaça constante de encerramento das atividades institucionais de ambos.

A queda da “Renovação & Transparência” com Andrés

Por quase duas décadas, Andrés Sanchez deu as cartas no Parque São Jorge após surgir na política do Corinthians como conselheiro, e em seguida vice-presidente de futebol, sucedendo o então dirigente Alberto Dualib na presidência. De 2007 a 2021, com passagens intercaladas entre a eleição de aliados como Mário Gobbi, Roberto de Andrade e Duílio Monteiro Alves, o dirigente conseguiu em uma época transformar sua figura no clube em divindade, ao tirar o Timão da Série B e conquistar um Mundial de Clubes, além de erguer o tão sonhado estádio da equipe.

Entretanto, durante o processo em que se ‘canonizou’ como padroeiro corintiano e chegou a ser cotado para assumir a presidência da CBF, Andrés viu seu carisma se transformar em repulsa a partir do momento que escândalos vieram à tona e o Corinthians se afundou numa série de crises, não saindo mais das páginas policiais. Seu grupo político no clube, denominado ‘Renovação e Transparência’, passou a ser alvo de ataques dentro da própria instituição, e ex-aliados passaram a atacar duramente aquilo que um dia foi incontestado.

Denunciado em outubro do ano passado pelo Ministério Público de São Paulo por usar indevidamente o cartão corporativo do clube durante um réveillon no Nordeste do Brasil, Andrés se viu pela primeira vez encurralado, não conseguindo amenizar o escândalo a uma simples bebedeira de fnal de ano. A investigação trouxe a quantia de R$ 480 mil em gastos não esclarecidos, além de um elaborado esquema suspeito de lavagem de dinheiro e apropriação indébita.

A expulsão apoiada por 112 conselheiros não foi somente uma punição; foi um um atestado de óbito político, o qual agora persegue seus sucessores Duílio Monteiro Alves e Augusto Melo – este, um dos que tentou voo solo e acabou destituído da presidência no mesmo 2025 que denunciou Andrés. A pressão incessante das torcidas organizadas do lado de fora do clube somadas às críticas da imprensa quebraram o último suspiro do associativo organizado. Quando Andrés pede para que o esquecessem porque o futebol se tornou algo ‘chato’, ele demonstra a dificuldade de uma geração inteira de cartolas em aceitar que os clubes não são (e nunca foram) seus quintais.

Andrés Sanchez, cartola, Corinthians
Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians — Foto: Ag. Corinthians / Rodrigo Coca

O choque de realidade no Morumbi: Casares e a ilusão do profissionalismo

Se no Corinthians a queda teve tons de espetáculo e zombaria, no São Paulo a derrocada de Julio Casares se dá na calada dos bastidores das investigações criminais e no silêncio de seu principal personagem. A renúncia sob ameaça de impeachment acabou com a vitrine de um administrador que se elegeu prometendo competência, integridade e um Tricolor respeitado, mas que novamente foi engolido pelas promessas e pelo desrespeito a um clube de futebol anteriormente visto como exemplo administrativo no Brasil.

Campeão de forma inédita da Copa do Brasil e da Supercopa, o São Paulo de Casares enfrentou várias crises em cinco anos de mandato. Mas foi apenas em 2025 que encarou a pior delas: a comercialização irregular de ingressos, entre eles, a venda ilegal de camarotes nos shows de Shakira no estádio do Morumbi.

Porém, apesar do escândalo iniciar a queda de Casares e levar consigo dirigentes como sua ex-esposa Mara Casares e Douglas Schwartzmann, o que assombrou de fato o ambiente tricolor foi o inquérito da Polícia Civil. O desaparecimento não explicado de R$ 11 milhões em saques em espécie é a materialização do que a oposição afirma ser ‘gestão temerária’.

As contas reprovadas de 2025 foram a prova cabal de que o modelo associativo sob o comando de Casares estava colapsando. Ele renunciou ao cargo tentando escapar da punição exigida por opositores, mas transferiu o poder de decisão em meio ao caos para o conselho deliberativo e para seu sucessor, Harry Massis. O silêncio do ex-cartola não foi uma escolha prudente, mas uma estratégia jurídica de quem tem consciência de que qualquer palavra pode piorar sua situação nos tribunais.

Julio Casares, cartola, São Paulo
Julio Casares, ex-presidente do São Paulo — Foto: Reprodução/SPFCTV

A luta pela sobrevivência das associações frente ao avanço das SAFs e os cartolas retrógrados

O tombo de dois personagens importantes da cartolagem paulista em um intervalo de quatro meses levanta a seguinte pergunta: por que somente agora as instituições agiram?

Na história, os conselhos deliberativos muitas vezes agiram de forma complacente com administrações que atuaram ardilosamente nos bastidores enquanto empilhavam conquistas em campo e conseguiam jogar a sujeira para baixo do tapete. O que mudou não foi a ética dos conselheiros, mas a realidade do ecossistema do esporte, agora ocupado pelas Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs).

Com o crescimento das SAFs Brasil afora, a régua de exigência do mercado financeiro subiu como nunca. E clubes associativos que não demonstraram mecanismos claros de governança com transparência estão sendo engolidos por fatores como: rebaixamento de crédito, perda de patrocínios de peso e credibilidade, além de um cerco impetuoso de instituições do poder judiciário.

Mesmo com o Botafogo tendo se tornado uma espécie de pária entre os clubes após sofrer um ‘golpe’ nas mãos de John Textor, a SAF continua sendo o modelo do momento no país, e se torna um fantasma entre aqueles que insistem em continuar como associação. Corinthians e São Paulo não expulsaram seus cartolas baseados em uma limpeza, fizeram isso totalmente focados em sobreviver. Manter Andrés e Casares em seus quadros representava a falência moral e o fim de dois times tradicionais.

Foto: Rodrigo Coca / Ag. Corinthians