A seleção brasileira inicia a Copa do Mundo talvez como a equipe mais difícil de ser analisada entre as principais candidatas ao título. Depois de uma campanha irregular nas Eliminatórias e de uma sequência de amistosos que alternou atuações promissoras e apresentações preocupantes, o Brasil desembarca nos Estados Unidos carregando uma combinação rara de talento, incerteza e expectativa. A chegada de Carlo Ancelotti, o treinador mais vitorioso da história da Champions League, transformou o ambiente da seleção, mas ainda não ofereceu respostas definitivas para questões que podem definir o destino brasileiro no torneio.
Se por um lado a equipe possui nomes consolidados como Alisson, Marquinhos, Bruno Guimarães, Vinícius Júnior e Raphinha, por outro ainda busca encontrar equilíbrio tático, soluções para posições problemáticas e uma identidade clara dentro de campo. Mais do que nunca, a caminhada rumo ao sonhado hexa parece depender da capacidade de Ancelotti resolver alguns dilemas fundamentais que acompanham a Seleção desde antes de sua chegada.
A seleção mais misteriosa da Copa
Poucas vezes o Brasil chegou a uma Copa do Mundo cercado por tantas interrogações. A troca de comando técnico, a reformulação gradual do elenco e a ausência de uma base consolidada fazem com que a equipe apareça simultaneamente entre as favoritas e entre as grandes incógnitas da competição.
Os resultados recentes ajudam a explicar essa percepção. Nos amistosos preparatórios, o Brasil alternou momentos de brilho, como a goleada sobre o Panamá, com partidas em que apresentou dificuldades evidentes para controlar adversários organizados. A vitória apertada sobre o Egito, por exemplo, expôs problemas defensivos, dificuldades emocionais após sofrer pressão e uma dependência de soluções individuais.
Ao mesmo tempo, o simples fato de Carlo Ancelotti estar no banco faz com que poucos especialistas descartem a seleção. O italiano construiu sua carreira justamente encontrando equilíbrio em elencos estrelados e potencializando jogadores de alto nível em momentos decisivos. A questão é saber se ele terá tempo suficiente para fazer isso em um ambiente completamente diferente daquele dos clubes.
O problema que o Brasil não está acostumado a ter: as laterais
Historicamente, poucas posições são tão associadas ao futebol brasileiro quanto as laterais. De Carlos Alberto Torres a Cafu, passando por Roberto Carlos, Marcelo, Dani Alves e tantos outros, o Brasil acostumou o mundo a produzir alguns dos melhores laterais da história.
Por isso chama atenção que justamente esse setor seja hoje uma das maiores preocupações da equipe. Na esquerda, Ancelotti alterna entre Douglas Santos e Alex Sandro. Ambos são jogadores experientes, mas estão longe de representar o mesmo nível de impacto ofensivo e físico que caracterizou as grandes gerações brasileiras. Douglas Santos chega da Rússia aos 32 anos, enquanto Alex Sandro já tem 35 anos e é reserva do Flamengo.
A situação é ainda mais delicada pela direita. A lesão de Wesley contra o Egito retirou da equipe justamente o lateral que vinha oferecendo maior explosão física e profundidade ofensiva. Como consequência, Danilo voltou a ganhar espaço, mesmo após meses de questionamentos sobre seu rendimento. O veterano de 34 anos, inclusive, simboliza um dos debates mais intensos da convocação. Inicialmente visto como uma peça de experiência para o grupo, acabou precisando atuar por necessidade e mostrou novamente limitações físicas para enfrentar adversários mais rápidos.
Se o Brasil pretende avançar até as fases finais da Copa, Ancelotti precisará encontrar mecanismos coletivos para proteger as laterais, especialmente contra seleções que exploram muito os corredores, como Marrocos e Croácia.
Quem será o centroavante da Seleção?
Outro dilema importante envolve a posição de camisa 9. Durante anos, Richarlison foi a principal referência ofensiva da equipe, especialmente na Copa do Mundo de 2022. Entretanto, a queda de rendimento nos últimos ciclos acabou custando sua vaga na convocação final. João Pedro também ficou fora, deixando o setor sem um nome claramente consolidado.
A aposta mais frequente de Ancelotti tem sido Matheus Cunha. O atacante possui características interessantes para conectar setores, pressionar adversários e participar da construção ofensiva. O problema é que seus números pela seleção ainda são discretos. Com apenas um gol em 23 partidas, existe uma dúvida legítima sobre sua capacidade de assumir o protagonismo ofensivo em uma Copa do Mundo.
É justamente nesse cenário que cresce a pressão por Endrick. O jovem atacante do Real Madrid continua demonstrando enorme capacidade de impacto sempre que entra em campo. Contra o Egito, saiu do banco para mudar completamente o jogo e marcar o gol da vitória. Não foi um episódio isolado. Desde sua estreia pela seleção principal, Endrick acumula momentos decisivos e frequentemente entrega mais do que muitos jogadores que começam entre os titulares.
A pergunta que começa a surgir é simples: quantas vezes Endrick ainda precisará provar seu valor antes de receber uma sequência real como titular?
Além deles, Igor Thiago está na disputa. O atacante do Brentford começou como titular contra o Egito, mas decepcionou. Mesmo assim, sua capacidade de fazer gols é inegável, já que ele marcou 22 gols na Premier League.
O equilíbrio do meio de campo será decisivo
Se existe um setor que pode determinar o sucesso ou o fracasso do Brasil nesta Copa, esse setor é o meio-campo. Bruno Guimarães vive talvez o melhor momento de sua carreira e vem se consolidando como o principal organizador da equipe. Sua atuação contra o Egito foi uma demonstração clara de sua importância. Quando o Brasil precisava recuperar o controle da partida, foi justamente o volante do Newcastle quem assumiu a responsabilidade de acelerar transições, organizar a circulação da bola e liderar emocionalmente a equipe.
Ao seu lado, Casemiro continua sendo uma figura central, mas o tempo inevitavelmente começa a cobrar seu preço. Aos 34 anos, o volante já não possui a mesma capacidade física dos tempos de Real Madrid. Isso torna ainda mais perigosa a utilização de sistemas excessivamente ofensivos que deixem grandes espaços para serem cobertos.
Ancelotti precisará encontrar o ponto de equilíbrio entre aproveitar o talento ofensivo disponível e evitar que o meio-campo fique exposto. Em jogos contra seleções de elite, essa questão pode ser determinante.
Neymar pode ser reforço ou distração
A convocação de Neymar foi, sem dúvida, o assunto mais comentado da lista final. O maior artilheiro da história da seleção não atua pelo Brasil há quase três anos e segue enfrentando dificuldades físicas desde a grave lesão sofrida em 2023. Sua presença gera entusiasmo entre torcedores, mas também levanta uma série de dúvidas esportivas.
O principal problema não é apenas sua condição física. É o impacto que sua situação pode causar no ambiente da seleção. Neymar continua sendo uma figura capaz de monopolizar atenções, gerar manchetes diárias e alterar completamente o foco da cobertura da equipe.
Se estiver saudável, pode oferecer criatividade, experiência e qualidade técnica únicas. Mas se sua participação for limitada ou cercada por problemas físicos constantes, existe o risco de se transformar em uma distração permanente durante a competição.
O Brasil ainda busca sua identidade
Talvez o maior desafio de Carlo Ancelotti não seja escolher laterais, definir o centroavante ou administrar Neymar. O verdadeiro desafio é construir uma identidade.
O Brasil chega à Copa com talento suficiente para enfrentar qualquer seleção do planeta. Possui jogadores de elite espalhados pelas principais ligas europeias e um treinador cuja carreira dispensa apresentações. No papel, poucos elencos parecem tão fortes.
Mas Copas do Mundo raramente são decididas apenas pelo talento individual. Elas exigem organização coletiva, equilíbrio emocional e uma ideia clara de jogo. E é justamente nesse aspecto que a Seleção ainda parece uma obra em construção.
O potencial para conquistar o hexacampeonato existe. Porém, para transformá-lo em realidade, Ancelotti precisará responder rapidamente às perguntas que ainda acompanham sua equipe. Afinal, entre o sonho do sexto título e uma eliminação precoce, a diferença costuma estar justamente nos detalhes que hoje ainda permanecem sem resposta.
(Foto: Rafael Ribeiro/CBF)