Pôr do sol no Bahrein Fórmula 1
Automobilismo Fórmula 1

Ramadã na Fórmula 1: como pilotos muçulmanos lidam com o mês sagrado 

Entre 17 de fevereiro e 19 de março de 2026 ocorre o Ramadã, mês sagrado do islamismo em que, do nascer ao pôr do sol, os muçulmanos se abstêm de comida, bebida e atividades estimulantes, voltando-se à oração e à autodisciplina. Pilotos de Fórmula 1 e demais esportistas praticantes da religião não são exceções, mas como exatamente eles lidam física e mentalmente com o jejum?

No futebol, ligas como a Premier League costumam adotar, durante o mês sagrado, um protocolo de pausa para que jogadores e árbitros possam desjejuar no decorrer das partidas. As paralisações geralmente acontecem nos minutos finais, quando os atletas aproveitam para ingerir isotônicos e consumir géis de carboidrato.

Porém, isso seria impraticável na Fórmula 1, já que os pilotos não podem simplesmente deixar o carro em meio a um Grande Prêmio para se alimentar. O desgaste físico em uma corrida pode ser severo, com casos de competidores que chegam a perder vários quilos por conta da desidratação. Isso levanta dúvidas sobre os riscos à integridade física de um piloto que precise disputar uma prova sem se alimentar ou se hidratar.

Haryanto foi obrigado a quebrar jejum em 2016

Rio Haryanto Fórmula 1 2016
Foto: Reprodução / Fórmula 1

Último piloto declaradamente muçulmano a correr na Fórmula 1 e primeiro de seu país, o indonésio Rio Haryanto competiu pela Manor Racing em 2016. Naquele ano, o Ramadã ocorreu entre 6 de junho e 7 de julho, período que incluía três GPs no calendário: Canadá, Europa (Baku) e Áustria.

A equipe britânica demonstrou preocupação com a possível falta de nutrientes e líquidos durante as corridas. Por isso, o piloto, então com 23 anos, precisou consultar os médicos da Fórmula 1 antes de cada prova para garantir que estava apto a competir.

Logo na primeira das três etapas, Haryanto foi forçado a quebrar o jejum. Embora tenha seguido a prática ao longo de todo o fim de semana, os médicos o obrigaram a se alimentar e ingerir líquidos no dia da corrida por questões de segurança. Na segunda-feira, o jejum foi retomado.

De acordo com seu agente à época, Piers Hunnisett, a perda de fluidos corporais ao longo de uma corrida de 70 voltas representaria um risco significativo à saúde do indonésio, além do risco de comprometer a concentração em alta velocidade.

Antes de Haryanto, o malaio Fairuz Fauzy, também adepto do islã, esteve envolvido na categoria como piloto reserva da Lotus Renault em 2011 e da Lotus Racing em 2010 — apesar dos nomes semelhantes, tratava-se de dois espólios distintos. Segundo ele, que chegou a vencer uma prova de kart durante o mês sagrado, sentia-se mentalmente mais forte quando estava em jejum.

Carros de fórmula, contudo, são muito mais exigentes que karts, o que torna o desafio de competir sem hidratação e alimentação adequadas significativamente maior. O Alcorão, livro sagrado do islã, prevê exceções e formas de compensação para a quebra do jejum, e Fauzy já teve de adotá-las por conta dos compromissos com o esporte.

Ao todo, três muçulmanos conhecidos tiveram passagem pela categoria. Além de Haryanto, que foi o único titular, e Fauzy, o indonésio Sean Gelael disputou os treinos livres do GP dos Estados Unidos de 2018 pela Toro Rosso.

Ramadã impactou também o calendário da Fórmula 1

Não são apenas os adeptos do islamismo que sentem os efeitos do Ramadã, mas a Fórmula 1 como um todo. Na temporada 2024, os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita, primeiras duas provas do ano, foram realizados em sábados para evitar que a corrida da segunda rodada, em Jeddah, coincidisse com o início do mês sagrado. 

Naquele ano, o período começava em 10 de março, data inicialmente prevista para a corrida saudita. A organização do evento propôs, então, que a prova fosse disputada no sábado. Como os GPs de Fórmula 1 precisam ter ao menos uma semana de intervalo entre si, a etapa anterior também foi antecipada em um dia. 

A mudança impacta não apenas o dia da corrida, mas todo o fim de semana, já que os treinos livres passam a começar na quinta-feira e a classificação é realizada na sexta. 

O GP do Azerbaijão de 2026 também será disputado em um sábado, mas por um motivo menos religioso e mais tradicional. Em 27 de setembro, data inicialmente prevista para o evento, é celebrado no país o Remembrance Day (Dia da Lembrança), em que são homenageados os militares mortos enquanto serviam o Azerbaijão na guerra de Nagorno-Karabakh. Por isso, a prova foi transferida para o dia anterior.

(Foto principal: Reprodução/BBC)