Há histórias que mudam o futebol pelos gols marcados. Outras, pelas finais disputadas. E existem aquelas que jamais aconteceram, mas que continuam despertando curiosidade décadas depois. Lionel Messi vestir a camisa da Espanha pertence justamente a essa última categoria.
Às vésperas de uma final de Copa do Mundo entre Argentina e Espanha, é impossível não imaginar como seria o futebol caso um pequeno detalhe tivesse tomado outro rumo. Bastava uma convocação que não veio. Bastava um telefonema que demorasse mais algumas semanas. Bastava a federação argentina continuar ignorando um garoto franzino que brilhava nas categorias de base do Barcelona.
O maior jogador da história da Argentina poderia ter defendido justamente o país que agora tenta derrotar. É um daqueles roteiros que parecem inventados pelo cinema, mas que aconteceram de verdade.
Quando a Argentina quase perdeu o seu maior patrimônio
No início dos anos 2000, Lionel Messi era apenas um adolescente tentando sobreviver longe de casa. Rosário havia ficado para trás quando o Barcelona decidiu apostar naquele garoto de baixa estatura que precisava de tratamento hormonal para continuar crescendo. Enquanto o clube catalão acreditava em seu potencial, a Argentina parecia simplesmente não enxergá-lo.
Dentro de La Masia, Messi dividia os campos com jovens como Cesc Fàbregas, Gerard Piqué e Víctor Vázquez, todos frequentemente convocados para as seleções de base da Espanha. Já o argentino permanecia invisível para quem comandava as categorias inferiores da Albiceleste.
Quanto mais o tempo passava, maior era o risco. A legislação espanhola permitia que Messi obtivesse a cidadania poucos anos depois de chegar ao país. A partir dali, vestir a camisa da Espanha deixaria de ser apenas uma possibilidade distante para se tornar uma alternativa perfeitamente legal. E a Federação Espanhola percebeu isso antes da Argentina.
Os relatos da época mostram que a Espanha não fez uma tentativa protocolar. Ela realmente quis Messi. Treinadores das categorias de base receberam informações sobre aquele garoto argentino que ninguém parecia valorizar. Houve conversas, aproximações e até pedidos para que companheiros do Barcelona tentassem convencê-lo a defender “La Roja”.
Não era difícil entender o motivo. Mesmo adolescente, Messi já fazia coisas que pareciam impossíveis para alguém da sua idade. Driblava jogadores dois anos mais velhos, decidia partidas praticamente sozinho e chamava atenção de todos que o viam jogar.Menos da Argentina.
A situação chegou a um ponto curioso. Enquanto a Espanha montava uma estratégia para naturalizar seu futuro craque, o pai de Messi decidiu agir por conta própria. Aproveitou uma visita de integrantes da comissão técnica argentina à Europa para entregar uma fita VHS com melhores momentos do filho.
Doze minutos. Foi o suficiente. Quem assistiu ao vídeo entendeu imediatamente que aquele garoto não poderia escapar.
A convocação que salvou uma geração
A reação argentina foi quase desesperada. Percebendo que corria risco real de perder Messi, a federação organizou rapidamente um amistoso da seleção sub-20 apenas para convocá-lo.
Não era um simples jogo. Era uma corrida contra o tempo. Naquele momento, bastava que Messi entrasse em campo oficialmente pela Argentina para que as regras da FIFA praticamente encerrassem qualquer possibilidade de mudança futura de seleção.
Foi exatamente o que aconteceu. Aos 17 anos, entrou durante a goleada por 8 a 0 sobre o Paraguai e ainda marcou um gol depois de driblar o goleiro. Naquele instante, talvez ninguém imaginasse, mas não era apenas um amistoso. Era o nascimento definitivo da relação entre Messi e a Albiceleste.
Existe uma tendência natural de acreditar que tudo estava escrito. Que Messi jamais jogaria por outra seleção, mas a realidade é um pouco diferente.
Anos depois, o próprio argentino confirmou que realmente existiu a possibilidade de defender a Espanha. A diferença é que nunca existiu dúvida em sua cabeça.
Seu sonho continuava sendo exatamente o mesmo daquele menino entrevistado por um jornal de Rosário antes de partir para Barcelona: vestir a camisa da Argentina.
Talvez esse seja o detalhe mais bonito de toda essa história. A Espanha oferecia estrutura. O Barcelona oferecia oportunidades. A vida oferecia um caminho muito mais simples.
Mesmo assim, Messi escolheu esperar. Esperou ser lembrado. Esperou uma convocação que demorou. Esperou que seu próprio país finalmente percebesse aquilo que os espanhóis já haviam descoberto.
Messi e Espanha é encontro carregado de simbolismo
O futebol costuma gostar dessas ironias. Depois de tantos anos, a possível despedida de Messi em Copas do Mundo acontece justamente diante da seleção que quase mudou completamente sua história.
É impossível olhar para essa final sem lembrar que ela poderia ter outro protagonista. Messi poderia estar do outro lado do campo. Poderia ser o camisa 10 espanhol. Poderia estar ouvindo outro hino. Poderia tentar impedir a Argentina de conquistar mais um título mundial.
Mas não estará. Porque, apesar de toda a demora da federação argentina, apesar das tentativas espanholas e apesar de todas as circunstâncias que apontavam para outro destino, houve algo que nunca mudou.
Messi jamais deixou de se sentir argentino, e talvez seja exatamente por isso que essa história continua fascinando.
Não porque ela quase aconteceu. Mas porque mostra que, às vezes, o maior talento do futebol mundial precisou apenas de uma oportunidade para defender a única camisa que realmente queria vestir.
No fim das contas, a Argentina demorou para reconhecer seu maior jogador. A Espanha chegou primeiro. Mas o coração de Messi já havia feito sua escolha muito antes de qualquer convocação.
(Foto: AFP)



