A vitória convincente da Espanha sobre a Arábia Saudita não representou apenas três pontos importantes na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026. O resultado simbolizou uma resposta contundente de Luis de la Fuente às críticas que surgiram após o empate sem gols contra Cabo Verde na estreia. Mais do que isso, mostrou a capacidade do treinador de identificar problemas, fazer ajustes rápidos e devolver sua equipe ao caminho que a transformou em uma das seleções mais fortes do futebol mundial nos últimos anos.
Ao completar 65 anos, De la Fuente recebeu um presente especial: uma atuação dominante de sua equipe, construída a partir de mudanças táticas e decisões corajosas que transformaram completamente o rendimento espanhol. A goleada sobre os sauditas não foi obra do acaso. Foi consequência de um trabalho minucioso de análise, planejamento e execução.
Mudanças que transformaram a Espanha

Após a estreia decepcionante diante de Cabo Verde, o treinador espanhol percebeu que sua equipe precisava recuperar características que sempre marcaram seu trabalho. A Espanha havia mantido a posse de bola, mas faltaram intensidade, profundidade e agressividade ofensiva.
A resposta veio através de uma verdadeira revolução na escalação.
Luis de la Fuente promoveu quatro alterações importantes. Pedro Porro, Dani Olmo, Álex Baena e Lamine Yamal ganharam espaço entre os titulares, enquanto Marcos Llorente, Fabián Ruiz, Gavi e Ferran Torres começaram no banco.
A mudança mais significativa, porém, não foi apenas nos nomes. O treinador também alterou o sistema de jogo, abandonando o tradicional 4-3-3 para utilizar um 4-2-3-1 mais dinâmico.
A nova formação permitiu que Pedri tivesse mais liberdade para criar jogadas, enquanto Rodri passou a controlar o meio-campo com menos responsabilidade ofensiva. Dani Olmo se tornou a peça de ligação entre os setores, funcionando como articulador das ações ofensivas.
Os números ajudam a entender o impacto das mudanças. A Espanha produziu muito mais oportunidades de gol, aumentou a quantidade de cruzamentos para a área e conseguiu pressionar o adversário desde os primeiros minutos. O domínio foi tão grande que o placar poderia ter sido ainda mais elástico caso um gol de Ferran Torres não tivesse sido anulado por um impedimento milimétrico.
Lamine Yamal e Oyarzabal simbolizam a nova fase

Entre os destaques da partida, dois nomes chamaram atenção.
O primeiro foi Lamine Yamal. Mesmo com limitação física que permitia apenas 60 minutos de atuação, o jovem atacante precisou de apenas 45 minutos para mostrar toda sua qualidade. Sua velocidade, capacidade de drible e movimentação constante abriram espaços na defesa saudita e deram uma nova dinâmica ao ataque espanhol.
O segundo foi Mikel Oyarzabal.
O contraste entre suas duas primeiras partidas na Copa é impressionante. Contra Cabo Verde, o atacante passou praticamente despercebido e não chegou a tocar na bola durante seus 30 minutos em campo. Diante da Arábia Saudita, a história foi completamente diferente.
Oyarzabal marcou dois gols e ainda distribuiu uma assistência. A atuação se tornou o símbolo perfeito da transformação vivida pela equipe entre um jogo e outro.
O desempenho do atacante também evidencia uma característica importante das equipes de De la Fuente: quando o sistema funciona, os jogadores ofensivos conseguem potencializar suas qualidades individuais.
Uma seleção acostumada a marcar gols
Embora a goleada tenha chamado atenção, ela não representa uma surpresa para quem acompanha o trabalho de Luis de la Fuente.
Desde que assumiu a seleção principal da Espanha, o treinador construiu uma equipe extremamente eficiente ofensivamente. Os números comprovam isso.
Em 44 partidas sob seu comando, a Espanha marcou 129 gols. Trata-se de uma média impressionante de 2,93 gols por jogo.
Na prática, isso significa que marcar três gols por partida se tornou algo quase habitual para a equipe espanhola. O resultado fora do padrão não foi a goleada sobre a Arábia Saudita, mas sim o empate sem gols contra Cabo Verde.
Esse dado ajuda a explicar por que o treinador reagiu tão rapidamente após a estreia. Ele sabia que o problema não estava relacionado à qualidade dos jogadores, mas sim ao funcionamento coletivo da equipe.
A capacidade de adaptação como principal virtude
Talvez a maior qualidade de Luis de la Fuente seja justamente sua capacidade de adaptação.
Desde sua chegada à Federação Espanhola em 2013, ele passou pelas seleções Sub-19, Sub-21, Olímpica e principal. Durante esse período, enfrentou momentos de pressão e soube reagir em praticamente todos eles.
Um exemplo marcante aconteceu após a derrota para a Escócia nas Eliminatórias da Eurocopa. Na ocasião, o treinador promoveu mudanças importantes na equipe e conseguiu recuperar rapidamente o desempenho.
Agora, na Copa do Mundo, a história se repetiu.
Em vez de insistir em uma fórmula que não funcionou na estreia, De la Fuente identificou os erros, fez alterações profundas e encontrou uma solução imediata.
A vitória sobre a Arábia Saudita mostrou uma Espanha mais agressiva, mais vertical e muito mais próxima daquela que conquistou o respeito do futebol europeu nos últimos anos.
Se a estreia levantou dúvidas, a segunda rodada serviu para reforçar uma certeza: quando Luis de la Fuente percebe que algo não está funcionando, ele não hesita em mudar. E essa capacidade de tomar decisões difíceis pode ser um dos fatores que colocam a Espanha novamente entre as grandes candidatas ao título da Copa do Mundo de 2026.
(Foto de capa: IMAGO)