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Futebol Premier League

Robertson e Salah se despedem: o fim de uma geração histórica no Liverpool

Algumas despedidas no futebol acontecem de maneira silenciosa. Outras carregam um peso muito maior porque representam o encerramento de uma era inteira dentro de um clube. A saída de Robertson e Mohamed Salah do Liverpool se encaixa exatamente nesse segundo cenário.

Durante quase uma década, os dois estiveram entre os rostos mais importantes de uma das fases mais marcantes da história recente dos Reds. Juntos, participaram da reconstrução liderada por Jurgen Klopp, ajudaram a recolocar o clube entre as potências da Europa e encerraram uma espera de 30 anos pelo título da Premier League.

Agora, porém, o Liverpool se aproxima de uma transição importante. A partida diante do Brentford marca o último jogo de Robertson em Anfield, enquanto Salah também encerra sua trajetória no estádio que se tornou sua casa durante nove temporadas.

O momento gera naturalmente uma sensação de nostalgia entre os torcedores. Mas a história dos dois no Liverpool vai muito além de números, títulos ou estatísticas.

De jogador da quarta divisão a símbolo da era Klopp

Robertson
Foto: Divulgaçõ/Liverpool

A trajetória de Robertson talvez seja uma das histórias mais improváveis do futebol moderno.

Quando Jurgen Klopp contratou o lateral junto ao Hull City por cerca de oito milhões de libras em 2017, poucos imaginavam o impacto que ele teria no clube.

Quatro anos antes disso, Robertson ainda atuava pelo Queen’s Park, equipe da quarta divisão escocesa. Sua ascensão foi construída de maneira lenta, sem o mesmo status de outros jovens considerados grandes promessas.

Mas foi justamente no Liverpool que tudo mudou.

Robertson se transformou em peça fundamental do sistema criado por Klopp e ajudou a redefinir a maneira como laterais passaram a atuar no futebol moderno.

Durante anos, o Liverpool utilizou Robertson e Trent Alexander Arnold como praticamente dois construtores ofensivos pelas laterais. Enquanto muitos times ainda enxergavam laterais apenas como jogadores defensivos, Klopp passou a usar os dois como elementos centrais na criação.

Os números ajudam a mostrar esse impacto.

Robertson acumulou 60 assistências na Premier League, a segunda maior marca entre defensores na história da competição, atrás apenas do próprio Alexander Arnold.

Mas talvez seu maior legado não esteja apenas nos dados.

Kenny Dalglish outro ídolo escocês do Liverpool, definiu Robertson como “um grande crédito ao Liverpool”, e isso ajuda a resumir sua trajetória. O escocês sempre carregou uma característica muito valorizada pela torcida dos Reds: intensidade.

Era comum vê-lo pressionando, disputando cada bola e jogando com uma postura que muitas vezes parecia de um torcedor dentro de campo.

Ao longo do período no clube, conquistou nove títulos importantes, incluindo duas Premier Leagues e uma Champions League.

Mas a trajetória também foi marcada por frustrações dolorosas.

O Liverpool terminou duas vezes a Premier League apenas um ponto atrás do Manchester City de Pep Guardiola. Em 2018/19, por exemplo, a equipe somou impressionantes 97 pontos e ainda assim não conseguiu conquistar o campeonato.

Robertson também participou de duas derrotas em finais de Champions League para o Real Madrid.

Mesmo nesses momentos, Klopp conseguiu transformar frustrações em combustível.

Após a derrota para o Real Madrid na final de Kiev, em 2018, Robertson relembrou uma frase do treinador alemão:

“Essa é apenas a primeira etapa da nossa jornada. Estaremos de volta.”

E realmente estiveram.

No ano seguinte, o Liverpool venceu a Champions League e pouco depois conquistou a Premier League, encerrando uma espera de três décadas.

Salah deixa números históricos e uma identidade construída em Anfield

Foto: Getty Images

Se Robertson representou intensidade, Salah representou impacto ofensivo absoluto.

O egípcio chegou ao Liverpool na mesma janela de transferências de Robertson em 2017, mas sua história no futebol europeu começou muito antes.

Depois de aparecer bem no Basel, teve dificuldades durante a passagem pelo Chelsea e precisou reconstruir a carreira na Itália, atuando por Fiorentina e Roma.

No Liverpool, encontrou o ambiente ideal.

Sua primeira temporada já mostrou algo fora do comum.

Rapidamente Salah se transformou em um dos jogadores mais decisivos do mundo, acumulando temporadas acima dos 30 gols e quebrando recordes históricos do clube.

Ao longo de nove anos, marcou 257 gols, tornando-se o terceiro maior artilheiro da história do Liverpool.

Mas sua influência ultrapassa os números.

Salah ajudou a transformar a maneira como o Liverpool atacava. Sua velocidade, capacidade de infiltração e eficiência nas finalizações fizeram dele uma das principais referências ofensivas da Premier League moderna.

Durante sua passagem, participou diretamente de alguns dos momentos mais marcantes da história recente do clube. Esteve presente na conquista da Champions League em 2019, no título da Premier League que encerrou uma espera de 30 anos e também em campanhas que recolocaram o Liverpool entre as maiores potências do futebol europeu.

Os números ajudam a mostrar a dimensão de seu impacto, mas talvez não consigam explicar tudo. Salah se tornou muito mais do que um artilheiro dentro de Anfield. O egípcio virou símbolo de uma geração, referência técnica e um dos jogadores mais amados pela torcida nos últimos anos.

Mesmo em temporadas nas quais o Liverpool apresentou oscilações, Salah continuou produzindo em alto nível. Sua regularidade talvez tenha sido uma das características mais impressionantes durante toda sua trajetória. Enquanto diversos jogadores viveram picos e quedas de desempenho, o atacante manteve números consistentes durante praticamente toda sua passagem pelo clube.

A saída de Robertson e Salah também representa algo maior do que duas mudanças no elenco.

Durante anos, ambos foram peças centrais da identidade construída por Jurgen Klopp. Robertson representava intensidade, entrega e competitividade. Salah simbolizava qualidade técnica, eficiência e capacidade de decidir partidas importantes.

Após a saída de Klopp, surgiram dúvidas sobre o futuro do Liverpool e sobre a capacidade da equipe continuar competitiva. Arne Slot conseguiu manter o clube disputando títulos e mostrou que existe uma nova geração sendo construída.

Mas algumas substituições nunca acontecem de forma simples.

Novos jogadores chegarão, novos protagonistas aparecerão e o Liverpool continuará sua história. Porém, substituir Robertson e Salah significa muito mais do que encontrar um lateral e um atacante para ocupar suas posições.

Significa tentar preencher espaços deixados por dois jogadores que ajudaram a construir uma das gerações mais importantes do Liverpool neste século.

(Foto de capa: Getty Images)

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Kaique