Poucos jogadores tiveram uma trajetória tão desafiadora nos últimos dois anos quanto Rodri. Considerado um dos melhores meio-campistas do futebol mundial e vencedor da Bola de Ouro, o espanhol viu sua carreira ser interrompida em setembro de 2024, quando sofreu uma grave ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA). A lesão o deixou afastado dos gramados por cerca de oito meses, mas sua recuperação foi muito além do tempo previsto inicialmente.
Mesmo depois de voltar aos treinamentos e estar fisicamente apto para atuar, Rodri e o então técnico do Manchester City, Pep Guardiola, optaram por um processo extremamente cauteloso. O treinador acreditava que o volante não recuperaria seu nível máximo durante a temporada 2025/26 e chegou a afirmar, meses antes da Copa do Mundo, que “o verdadeiro Rodri” só seria visto novamente no Mundial.
A previsão acabou se confirmando. Poucos dias após essas declarações, Rodri ainda sofreu uma lesão muscular na coxa, o que reforçou a decisão de controlar cuidadosamente sua minutagem. Apesar de ter retornado brevemente em novembro, ele voltou a ficar várias semanas sem atuar até recuperar completamente sua condição física. Na imprensa espanhola, a decisão foi bastante elogiada justamente por priorizar o longo prazo em vez de acelerar o retorno.
Agora, na Copa do Mundo de 2026, o resultado dessa estratégia é evidente. Rodri voltou a comandar o meio-campo da Espanha e recuperou o protagonismo que o transformou em um dos jogadores mais importantes do futebol europeu.
O cérebro da seleção espanhola dentro de campo

Se a Espanha voltou a disputar uma final de Copa do Mundo, muito passa pela influência de Rodri na organização da equipe de Luis de la Fuente.
Os números ajudam a explicar esse domínio. Entre todos os jogadores com pelo menos 270 minutos disputados na competição, Rodri aparece como o segundo atleta com maior média de passes por 90 minutos, registrando 101,2. Também ocupa a segunda posição em passes certos, com média de 94 acertos por partida, além de ser o segundo jogador com mais toques na bola, alcançando média de 114 ações por jogo.
Seu total de 655 passes certos já representa o maior número registrado por um jogador em uma única edição da Copa do Mundo. Ainda que o novo formato do torneio tenha proporcionado mais partidas, outro dado reforça sua eficiência: considerando atletas que atuaram pelo menos 400 minutos em uma Copa, Rodri possui a maior média de passes certos por 90 minutos já registrada. Nem mesmo Xavi, um dos maiores meio-campistas da história da Espanha e peça fundamental no título mundial de 2010, alcançou esse índice.
Entretanto, Rodri não se destaca apenas pela quantidade de passes. Seu diferencial está na capacidade de acelerar a construção ofensiva. O volante figura entre os melhores da competição em passes que quebram linhas defensivas, com média de 15,2 por 90 minutos. Esse fundamento permite que a Espanha transforme rapidamente a defesa em ataque e aproveite a movimentação constante de jogadores como Dani Olmo, Mikel Oyarzabal, Álex Baena e Fabián Ruiz.
A equipe espanhola se caracteriza por grande mobilidade ofensiva. Os jogadores trocam constantemente de posição, criando espaços e linhas de passe. Nesse contexto, Rodri funciona como o organizador central, encontrando companheiros livres e dando velocidade às ações sem perder precisão.
Muito mais do que qualidade com a bola

Embora seja reconhecido mundialmente pela capacidade de controlar o ritmo das partidas, talvez o aspecto mais impressionante da atuação de Rodri nesta Copa do Mundo tenha sido justamente o trabalho defensivo.
Isso ficou evidente na semifinal diante da França, considerada por muitos a seleção com maior poder ofensivo da competição.
Diferentemente da imagem tradicional da Espanha, que costuma controlar completamente a posse de bola, a equipe teve pouco mais de 50% da posse no confronto. Ainda assim, dominou o adversário através da intensidade sem a bola.
Rodri foi decisivo para neutralizar Michael Olise, principal responsável pela criação ofensiva francesa durante o torneio. O atacante conseguiu realizar apenas dois passes que quebraram linhas defensivas, metade do menor número que havia registrado anteriormente na competição. Além disso, perdeu a posse em 36,4% dos seus 55 toques na bola, muito acima do pior índice que havia apresentado até então.
A superioridade espanhola também apareceu nos números coletivos. A seleção venceu 14 dos 22 desarmes tentados, enquanto a França conseguiu apenas oito desarmes em 14 tentativas. Nos duelos individuais, os espanhóis levaram vantagem em 55,9% das disputas, deixando os franceses com apenas 44,1% de aproveitamento, o pior índice da equipe em uma Copa do Mundo desde 1978.
Outro dado chama atenção: a França venceu somente oito disputas aéreas durante toda a partida, com aproveitamento de apenas 32%, seu menor número em um jogo de Mundial nos últimos 40 anos.
Individualmente, Rodri venceu 11 duelos, exatamente a mesma quantidade somada por Aurélien Tchouaméni e Adrien Rabiot. Também foi o único jogador da partida a disputar mais de dois duelos aéreos e vencer todos eles, terminando com aproveitamento perfeito de quatro vitórias em quatro disputas. Nenhum atleta tentou mais desarmes do que ele.
O desafio final: impedir Lionel Messi

Todo esse crescimento leva Rodri ao maior desafio possível. Na decisão da Copa do Mundo, a Espanha enfrentará a Argentina de Lionel Messi.
O camisa 10 argentino chega à final sendo o jogador ofensivo mais decisivo da competição. Suas participações em gols, capacidade de criar oportunidades e influência sobre o desempenho argentino fizeram dele o principal nome do torneio.
Do lado espanhol, a responsabilidade passa diretamente pelos pés de Rodri. Se com a bola ele organiza toda a construção ofensiva da equipe, sem ela será novamente o responsável por proteger a defesa, reduzir os espaços e dificultar a vida do maior jogador da Argentina.
A previsão feita por Pep Guardiola meses atrás acabou se tornando realidade. O “verdadeiro Rodri” reapareceu justamente na Copa do Mundo. Depois de uma recuperação longa, cuidadosa e marcada pela paciência, o meio-campista voltou ao mais alto nível do futebol internacional. Agora, resta apenas um último obstáculo para transformar esse retorno em uma história perfeita: superar Lionel Messi e conduzir a Espanha ao título mundial.
(Foto de capa: AFP)



