Futebol Serie A

Análise: Roma de Gasperini potencializa todos os jogadores em um esquema direto e letal

A goleada por 4 a 0 sobre a Fiorentina não foi apenas uma estreia impressionante da Roma na Serie A. Foi, sobretudo, uma demonstração de como Gian Piero Gasperini consegue transformar um conjunto de jogadores com características diferentes em peças de um mesmo mecanismo. Donyell Malen marcou três vezes, Paulo Dybala deu três assistências e Rodrigo Mora participou de uma estrutura ofensiva que constantemente desorganizou a defesa adversária.

O placar, portanto, é consequência de algo mais interessante do que a eficiência dos atacantes. A Roma conseguiu criar um cenário em que seus melhores jogadores recebiam a bola exatamente onde poderiam causar mais problemas. O 3-4-2-1 de Gasperini não deve ser interpretado como uma formação rígida: com a bola, a equipe se transformava constantemente, criando superioridade em diferentes corredores e colocando a Fiorentina diante de decisões defensivas difíceis a todo momento. A própria imprensa italiana destacou que a Roma atacava com seis jogadores e impunha duelos individuais por todo o campo.

Três zagueiros que deixam de ser apenas zagueiros

A primeira peça do mecanismo da Roma está na saída de bola. Gasperini começa com três zagueiros, mas não pretende que eles permaneçam simplesmente posicionados em uma linha de três durante toda a construção. Dependendo do lado da jogada, um deles pode avançar e ocupar uma posição semelhante à de um lateral, empurrando o adversário para trás e permitindo que o ala daquele setor permaneça ainda mais adiantado.

É uma característica típica da ideia de Gasperini: os jogadores não estão presos à posição inicial. O sistema oferece uma referência estrutural, mas permite que cada peça ocupe diferentes alturas. Com isso, a Roma consegue sair de uma estrutura de três defensores para desenhos muito mais próximos de um 3-2-4-1 ou até de uma linha com quatro jogadores na construção. Essa fluidez é justamente uma das marcas do treinador italiano.

Na partida contra a Fiorentina, essa dinâmica foi particularmente importante porque permitiu aos alas atacar em posições mais agressivas. Wesley e Lulli podiam avançar e oferecer amplitude, enquanto os zagueiros tinham liberdade para sustentar ou conduzir a posse. A Fiorentina, consequentemente, precisava decidir se acompanhava os alas ou se protegia o corredor central, e qualquer escolha abria outra possibilidade para a Roma.

Koné e Cristante: os jogadores que abrem o campo para os atacantes

É nesse ponto que Manu Koné e Bryan Cristante assumem uma importância que vai muito além da simples função de meio-campistas. Quando os zagueiros avançam e os alas se projetam, os dois podem baixar para participar da primeira fase da construção. Eles funcionam como uma espécie de dobradiça entre a defesa e o ataque.

O efeito dessa movimentação é aparentemente contraditório: quanto mais jogadores a Roma coloca na saída, mais espaço ela consegue criar para os três jogadores ofensivos. Koné e Cristante recuam, atraem jogadores da Fiorentina e deixam uma zona enorme entre a linha de meio-campo adversária e sua defesa. É exatamente nesse espaço que Mora, Dybala e Malen podem aparecer.

A Fiorentina passa, então, a enfrentar um dilema. Se seus meio-campistas avançam para pressionar Koné e Cristante, deixam espaço às costas para os três homens de frente. Se permanecem próximos da defesa, permitem que os dois meio-campistas da Roma avancem com a bola. O sistema cria, portanto, uma situação na qual a defesa adversária parece sempre estar reagindo à jogada em vez de controlá-la.

O espaço vazio que vira território de Mora, Dybala e Malen

Todo esse sistema tem um objetivo: criar espaço entre as linhas. Esse espaço não aparece por acaso. Gasperini o constrói.

Mora, Dybala e Malen não precisam permanecer presos às suas posições iniciais. Eles podem trocar de corredor, atacar profundidade, recuar para receber ou simplesmente ocupar o espaço deixado por um companheiro. A Fiorentina não conseguia estabelecer referências claras de marcação porque os três atacantes estavam constantemente alterando a relação entre largura, profundidade e ocupação do espaço central.

Dybala foi o maior beneficiado. O argentino terminou a partida com três assistências para Malen, participando diretamente de todos os gols do holandês. Mas o dado mais interessante não é simplesmente o número de passes decisivos: é onde e como Dybala conseguia receber. Com a estrutura de Gasperini criando espaço ao seu redor, o argentino podia atuar entre linhas e depois atacar a área ou os corredores laterais.

Malen, por sua vez, tornou-se o principal beneficiário da movimentação. O holandês não precisava jogar como um centroavante tradicional esperando a bola dentro da área. Ele podia partir de diferentes posições, atacar os espaços criados por Dybala e Mora e aparecer na área no momento em que a defesa estivesse desorganizada. O resultado foi um hat-trick, com os três gols construídos a partir de assistências de Dybala.

Mora completa essa equação oferecendo mais uma variável. Sua movimentação obriga a defesa a lidar com um terceiro jogador capaz de ocupar o espaço central. Se um zagueiro sai para acompanhar o português, abre espaço para Malen; se um volante acompanha Dybala, Mora pode aparecer; se a defesa recua, os três podem receber entre as linhas.

Gasperini não está apenas montando um time na Roma, está criando problemas

É justamente por isso que a goleada contra a Fiorentina merece ser analisada para além do placar. Gasperini não encontrou uma maneira de fazer apenas Dybala ou Malen jogar bem. Ele montou uma estrutura na qual um jogador potencializa o outro.

Os três zagueiros permitem que os alas avancem. Os alas empurram os extremos adversários para trás. Koné e Cristante sustentam a saída e atraem a pressão. Esse movimento abre o espaço entre linhas. Mora, Dybala e Malen atacam esse espaço. E, quando a Fiorentina tenta corrigir uma dessas situações, a Roma simplesmente encontra outro corredor.

É o princípio fundamental do futebol de Gasperini: criar situações em que o adversário tenha de escolher qual problema quer resolver. Contra a Fiorentina, a Viola parecia nunca conseguir resolver todos ao mesmo tempo. A Roma chegava com seis jogadores ao ataque, enquanto a defesa era constantemente submetida a duelos e movimentações diferentes.

Por isso, talvez o maior elogio ao trabalho de Gasperini não seja dizer que Malen marcou três gols ou que Dybala deu três assistências. É perceber que ambos tiveram condições para fazer isso porque o sistema criou o contexto perfeito para suas características.

A Roma não venceu porque tinha três atacantes melhores do que os defensores da Fiorentina. Venceu porque fez a defesa adversária lidar com mais problemas do que conseguia resolver. E essa é a melhor versão de uma equipe treinada por Gasperini: uma equipe na qual o esquema não limita os jogadores, mas cria as condições para que cada um deles pareça ainda melhor do que realmente é.

(Foto: Getty Images)