Lutas UFC

Ronda Rousey se empolga, mas a MVP superar o UFC beira o impossível

A recente declaração de Ronda Rousey, afirmando que acredita que a Most Valuable Promotions (MVP) pode ultrapassar o UFC no futuro, além de dizer que gostaria de ser “o Dana White” da organização, gerou enorme repercussão no mundo das lutas.

A fala, no entanto, apesar de carregada de entusiasmo e estratégia promocional, esbarra em uma realidade estrutural que torna essa hipótese extremamente improvável, para não dizer impossível até a longo prazo.

Segundo entrevistas recentes, Rousey não apenas elogiou o modelo da MVP, liderada por Jake Paul e Nakisa Bidarian, como também criticou o UFC por mudanças em sua gestão e prioridades.

Para “Roudy”, o público moderno estaria mais interessado em personalidades e grandes eventos do que em cinturões ou rankings tradicionais. Nesse sentido, a MVP surgiria como uma promotora mais alinhada com o entretenimento e com uma suposta valorização maior dos atletas.

Além disso, o retorno de Rousey em um evento transmitido via streaming global, com nomes como Gina Carano, Nate Diaz e Francis Ngannou, mostra claramente a tentativa da MVP de entrar no mercado do MMA com impacto imediato, apostando em nostalgia e figuras conhecidas. Mas é justamente aí que começa a diferença fundamental entre “evento chamativo” e “hegemonia esportiva”.

Ronda Rousey enfrentará Gina Carano na luta principal do primeiro evento de MMA da MVP
Ronda Rousey enfrentará Gina Carano na luta principal do primeiro evento de MMA da MVP (Imagem: Ed Mulholland-Imagn Images)

O UFC é uma instituição consolidada

O UFC não é apenas uma promotora de lutas. Ele é, há décadas, o eixo central do MMA global. Desde sua transformação em um produto estruturado nos anos 2000, a organização construiu algo que nenhuma concorrente conseguiu replicar: um ecossistema completo de esporte, entretenimento e negócio.

A força da marca é um dos principais fatores. O UFC se tornou sinônimo de MMA para o grande público. Assim como a NBA representa o basquete ou a NFL o futebol americano, o UFC transcendeu a ideia de “evento” e virou referência absoluta. Esse nível de consolidação não se constrói com alguns cards estrelados, é fruto de décadas de investimento, storytelling e padronização.

Outro ponto decisivo é o capital financeiro. Após a venda da organização por bilhões de dólares em 2016, o UFC passou a operar com respaldo corporativo massivo, o que garante contratos globais, produção de alto nível e capacidade de absorver riscos que outras promoções simplesmente não conseguem acompanhar.

Talvez o fator mais determinante seja o elenco. O UFC possui, simultaneamente, a maior concentração de atletas de elite do planeta. Campeões, contenders e prospects estão distribuídos em todas as categorias, criando um fluxo contínuo de lutas relevantes.

Diferente da MVP, que aposta fortemente em nomes conhecidos, a esmagadora maioria fora do auge, o UFC trabalha com renovação constante. A organização não depende exclusivamente de estrelas: ela cria estrelas. Foi assim com a própria Rousey, com Conor McGregor e com inúmeros outros nomes que se tornaram fenômenos globais.

Esse ciclo contínuo é impossível de replicar no curto prazo. Uma promoção pode contratar grandes nomes pontualmente, mas não consegue montar um ranking inteiro competitivo em todas as divisões com a mesma profundidade.

Outro aspecto que reforça a supremacia do UFC é a quantidade de eventos. A organização realiza dezenas de cards por ano (serão 44 em 2026), espalhados por diversos continentes. Isso garante presença constante na mídia, engajamento contínuo do público e oportunidades regulares para novos atletas surgirem.

A MVP, por outro lado, ainda opera em um modelo pontual, baseado em megaeventos. Esse formato pode gerar picos de atenção, mas não sustenta uma estrutura esportiva de longo prazo e nem atrai lutadores no auge.

Ronda Rousey promoveu, mas provavelmente nem ela acredita no que disse

Existe uma diferença crucial entre produzir um evento que momentaneamente rivalize em audiência e superar uma organização consolidada. A história dos esportes de combate está repleta de exemplos de promoções que surgiram com grande investimento e nomes fortes, mas desapareceram poucos anos depois.

O próprio card liderado por Rousey e Carano já enfrenta críticas por apostar mais no apelo comercial do que na competitividade esportiva, sendo visto por alguns analistas como um produto que pode até atrair curiosidade inicial, mas dificilmente fidelizará o público mais exigente.

A fala de Ronda Rousey cumpre um papel claro: promover o evento e fortalecer a narrativa da MVP como uma alternativa ao UFC. No campo do marketing, isso faz sentido. No campo estrutural, porém, a comparação não se sustenta.

O UFC reúne uma combinação quase imbatível de fatores: marca global consolidada, poder financeiro, elenco de elite, calendário robusto e experiência operacional acumulada ao longo de décadas. Não se trata apenas de quem faz o maior evento, mas de quem sustenta o mais alto nível de forma consistente.

Por mais que a MVP consiga gerar impacto pontual, especialmente com nomes famosos e plataformas de grande alcance, ultrapassar o UFC exigiria algo muito além de boas ideias e cards estrelados. Precisaria de tempo, história, estrutura, profundidade e consistência em uma escala que, hoje, simplesmente não existe fora do Ultimate.

Em outras palavras: a MVP pode crescer, incomodar e até redefinir aspectos do entretenimento no MMA. Mas ultrapassar o UFC não é apenas improvável, é no cenário atual, claramente inalcançável. Entretanto, isso não é demérito algum para o evento de Jake Paul com Ronda Rousey como protagonista.

(Imagem: Reprodução)