A classificação do Santos para as oitavas de final da Copa Sul-Americana era uma obrigação, e ela foi cumprida. Depois da vitória por 4 a 1 na Venezuela, o Peixe confirmou a vaga ao vencer novamente a Universidad Central, desta vez por 4 a 2, na Vila Belmiro, fechando o confronto com um confortável 8 a 3 no placar agregado. O resultado elimina qualquer risco esportivo e mantém o clube vivo em uma competição que pode salvar a temporada.
No entanto, quem olhar apenas para o placar dificilmente compreenderá o momento vivido pela equipe de Cuca. Apesar da classificação tranquila, o Santos voltou a apresentar problemas que se repetem há semanas: dificuldades defensivas, pouca intensidade durante boa parte da partida e uma dependência cada vez maior do talento individual para resolver jogos. Contra um adversário tecnicamente inferior, o desempenho esteve longe de transmitir confiança.
Classificação esconde falhas que continuam aparecendo
O roteiro da partida resumiu bem a temporada santista. Antes mesmo que o torcedor pudesse se acomodar na Vila Belmiro, a Universidad Central abriu o placar com menos de 20 segundos, aproveitando um erro de saída de bola de Adonís Frías. Não foi apenas uma falha individual. Foi mais um exemplo de uma equipe que frequentemente entra desconcentrada e oferece espaços desnecessários aos adversários.
O primeiro tempo reforçou essa impressão. Embora o Santos tivesse mais qualidade técnica, quem controlou boa parte das ações foi justamente a equipe venezuelana. O Peixe criou oportunidades, mas desperdiçou diversas delas, especialmente com Gabigol, que voltou a viver uma noite de pouca eficiência antes de finalmente marcar. Até o empate de Miguelito, nos minutos finais da etapa inicial, o ambiente era de apreensão muito maior do que o esperado para um confronto praticamente decidido desde o jogo de ida.
A melhora só apareceu após o intervalo. Com mais movimentação, velocidade nas transições e participação decisiva dos jogadores que entraram melhor na partida, o Santos conseguiu construir a virada. Gabriel Bontempo assumiu protagonismo distribuindo duas assistências, Gabigol enfim encontrou o caminho das redes, Gabriel Menino apareceu bem infiltrando na área e Rony fechou a goleada de cabeça.
O problema é que nem mesmo durante o melhor momento ofensivo o Santos conseguiu transmitir segurança. A Universidad Central voltou a marcar em uma cobrança de escanteio na qual Mottes apareceu completamente livre dentro da área. O lance evidenciou uma deficiência recorrente da equipe: a concentração defensiva. Contra adversários de nível mais elevado, erros desse tipo costumam custar eliminações.
O Santos melhora individualmente, mas ainda não funciona como coletivo
Se existe um aspecto positivo, ele passa pela qualidade técnica do elenco. O Santos possui jogadores capazes de decidir partidas praticamente sozinhos. Gabigol, mesmo desperdiçando várias oportunidades, terminou o jogo com gol e participação ativa nas principais jogadas ofensivas. Gabriel Bontempo foi um dos melhores em campo pela capacidade de acelerar o jogo, enquanto Neymar, mesmo entrando apenas no segundo tempo, continua sendo um diferencial capaz de mudar o ritmo das partidas.
O problema é justamente que essas individualidades continuam mascarando limitações coletivas. O time ainda produz poucas jogadas sustentadas, depende muito de lampejos e encontra dificuldades para controlar emocionalmente as partidas quando sofre qualquer tipo de pressão.
Defensivamente, os problemas parecem ainda mais preocupantes. O sistema de marcação sofre tanto em bolas paradas quanto em situações de construção desde trás. Os erros de posicionamento e as falhas técnicas têm sido frequentes, independentemente das peças utilizadas por Cuca. Não se trata mais de um acidente isolado, mas de um padrão que acompanha o Santos há várias semanas.
No ataque, a eficiência também continua sendo uma questão. O placar de quatro gols poderia sugerir um desempenho ofensivo dominante, mas a realidade foi diferente. Gabigol perdeu diversas oportunidades claras antes de balançar as redes, enquanto outras jogadas só foram concluídas após rebotes ou desvios. O Santos perdeu oportunidades de contra-ataque por ter um elenco envelhecido e de pouca força em transição, e se mostrou um time previsível em boa parte do confronto.
A classificação, portanto, não elimina as dúvidas. Ela apenas adia a necessidade de respostas mais convincentes. Nas próximas semanas, o nível de exigência aumentará, mas não tanto. Primeiro, o Santos terá um confronto importante contra o Remo pela Copa do Brasil. Depois, enfrentará o Macará nas oitavas de final da Sul-Americana. Nenhum dos dois adversários permitirá o volume de erros que a Universidad Central tolerou, mas também não serão adversários do mais alto nível que o Santos pode enfrentar.
O trabalho de Cuca também entra em uma fase delicada. O treinador conseguiu entregar resultados importantes recentemente, mas o desempenho coletivo continua distante daquele esperado para um elenco que conta com nomes como Neymar, Gabigol, Barreal e Miguelito. A equipe ainda alterna momentos muito bons com apagões difíceis de explicar, principalmente na defesa.
No fim das contas, o Santos fez exatamente o que precisava fazer: classificou-se sem sustos no agregado e manteve vivo o sonho continental. Porém, a atuação mostrou que vencer continua sendo diferente de convencer. Enquanto o time depender mais do talento individual do que de uma estrutura coletiva sólida, cada fase eliminatória representará um novo teste de sobrevivência. O placar contra a Universidad Central foi confortável, mas o futebol apresentado indica que ainda há muito trabalho para transformar um elenco talentoso em uma equipe realmente confiável para disputar títulos.
(Foto: Ricardo Moreira/Getty Images/Esportes News Mundo)



