Ramón Díaz, Santos
Futebol Brasileirão

Santos entre Ramón Díaz e Thiago Motta é prova que diretoria está perdida

Em meio à turbulência que já virou rotina nos bastidores da Vila Belmiro, o Santos Futebol Clube volta ao centro das atenções ao revelar conversas com dois treinadores que não poderiam ser mais diferentes em estilo, filosofia e momento de carreira: Ramón Díaz e Thiago Motta. A notícia, por si só, escancara um problema crônico na gestão esportiva do clube: a total ausência de um projeto claro de futebol.

Enquanto a diretoria busca desesperadamente um nome para comandar o time na sequência da temporada — marcada por instabilidade, desorganização tática e pressão da torcida — a escolha dos dois nomes levanta um alerta: afinal, o que o Santos quer ser em campo?

Ramón Díaz: um pragmático experiente

Ramón Ángel Díaz é um nome conhecido do torcedor sul-americano. Ex-treinador de River Plate, Al Hilal e, mais recentemente, do Corinthians, o argentino traz no currículo conquistas e um perfil de liderança forte. Taticamente, é conhecido por montar equipes competitivas, organizadas defensivamente e perigosas no contra-ataque — muitas vezes à custa da posse de bola e da fluidez ofensiva.

No Vasco de 2023, por exemplo, Díaz foi o responsável por organizar um time que beirava o rebaixamento e que passou a ter uma defesa sólida, com um sistema reativo, muitas vezes no 4-4-2 tradicional. Com linhas baixas, compactação no meio e aposta em transições rápidas, ele conseguiu extrair o máximo de um elenco limitado. Contudo, seu estilo é previsível, pouco atrativo para o torcedor que exige protagonismo e intensidade ofensiva.

No Corinthians ele se apoiou na qualidade de Rodrigo Garro e Memphis Depay, além da velocidade e oportunismo de Yuri Alberto, e com um time protegido defensivamente deixou os 3 resolverem seus problemas táticos que não se sustentaram e culminaram na sua demissão após derrota para o Fluminense no Brasileirão, com críticas de Depay à forma de atuar da equipe.

Thiago Motta: o modernista europeu

Do outro lado, Thiago Motta representa o oposto em quase todos os aspectos. Jovem, em ascensão e com passagens por Spezia, Bologna e, mais recentemente, pela Juventus, o ítalo-brasileiro se tornou símbolo de uma nova geração de técnicos europeus. Adepto de um jogo propositivo, com variações táticas dentro da partida e uso intenso de conceitos modernos como marcação por zona, jogo aposicional, mas com amplitude através dos pontas bem abertos e construção desde a defesa, Motta é, atualmente, um dos técnicos mais promissores da Europa.

Na Juventus, mesmo com um elenco em reformulação e sob pressão constante, Motta implementou um estilo de jogo baseado no 4-3-3 ou 3-4-2-1, sempre priorizando o controle do jogo com posse de bola, triangulações e ocupação racional dos espaços. Sua equipe se caracteriza por buscar superioridade numérica em setores do campo, pressionar alto e propor o jogo — exatamente o oposto da proposta de Ramón Díaz.

Além disso, Motta trabalha com intensidade nos treinamentos e desenvolvimento tático dos atletas, algo que exige tempo, estrutura e paciência — itens raros no futebol brasileiro e especialmente escassos no Santos atual.

O que o Santos quer?

A grande questão que surge ao ver esses dois nomes na mesa é: o Santos sabe o que quer? Optar entre Díaz e Motta não é uma simples escolha entre dois treinadores; é uma decisão sobre a identidade futebolística do clube. Díaz representa o “futebol de resultados”, voltado à sobrevivência e imediatismo. Motta representa a construção de um projeto moderno, de longo prazo, com base em conceitos que exigem tempo e respaldo institucional.

O problema é que o Santos, nos últimos anos, tem flertado com ambos os extremos, sem se comprometer com nenhum. Em um ano, aposta em treinadores ofensivos; no outro, recorre a nomes pragmáticos, que priorizam o “resultadismo”. Essa gangorra tática e filosófica só contribui para a falta de padrão, o desânimo da torcida e os péssimos resultados em campo.

Conversar com Ramón Díaz e Thiago Motta ao mesmo tempo é como visitar uma churrascaria e um restaurante vegano sem saber o que quer jantar. São caminhos incompatíveis que, escolhidos ao acaso, apenas reforçam a ideia de um clube sem rumo.

A visão externa que todos tem sobre o Santos, do time não ter comando, não ter projeto de futebol, e ser dominado pelo imediatismo, é reforçada. Quem sofre é o torcedor, que a cada dia vê o nome do clube associado ao de um treinador que rejeita o convite de assumir o time. O Santos não sabe onde ir, mas os treinadores sabem que não querem ir ao Santos.

(Foto: JUAN MABROMATA/AFP via Getty Images)