Futebol Brasileirão

São Paulo troca de treinador e faz aposta de risco com Roger

A demissão de Hernán Crespo do comando do São Paulo Futebol Clube nesta segunda-feira (9) entra para a lista das decisões mais difíceis de entender no futebol brasileiro recente. Vice-líder do Campeonato Brasileiro, competitivo mesmo com um elenco longe de ser considerado um dos mais fortes do país e apresentando um padrão de jogo claro, o treinador argentino foi dispensado por “divergências internas” com a diretoria.

A saída surpreende não apenas pelo momento esportivo, mas pela rapidez com que o clube se movimenta para anunciar Roger Machado, ex-Internacional, como substituto. A troca, feita em meio a bons resultados, levanta questionamentos inevitáveis sobre os verdadeiros motivos da demissão e sobre o risco de interromper um trabalho que, apesar das limitações, vinha funcionando.

Nos bastidores, as informações apontam que a queda de Crespo não teve relação direta com desempenho dentro de campo, mas sim com desgaste interno. Divergências sobre planejamento, decisões técnicas e gestão do elenco teriam criado um ambiente de tensão entre treinador e diretoria.

Esse tipo de ruptura costuma ser mais comum quando os resultados são ruins, mas neste caso ocorre justamente quando o time estava entre os primeiros colocados do campeonato, o que torna a decisão ainda mais difícil de justificar.

Crespo vinha sendo elogiado justamente por conseguir fazer o São Paulo competir acima do que se esperava. O elenco atual do clube não é considerado superior ao de rivais diretos na briga pelo título, mas a equipe mostrava organização, disciplina tática e capacidade de enfrentar adversários mais fortes sem se desestruturar, como na vitória diante do Flamengo.

O treinador argentino sempre foi conhecido por valorizar sistemas compactos, linhas bem definidas e transições rápidas. Esse tipo de proposta costuma favorecer elencos que não têm tantas estrelas, porque reduz a dependência de talento individual e aumenta a força coletiva. Por isso, a sensação entre torcedores e analistas é de que o São Paulo estava, sim, “tirando leite de pedra”.

Quando um trabalho assim é interrompido no meio da temporada, o risco é grande. E ele aumenta ainda mais quando o substituto tem características bem diferentes. A chegada de Roger Machado deixa claro que a diretoria pretende mudar o estilo de jogo, e essa mudança pode trazer consequências imprevisíveis.

Mudança de estilo com Roger Machado torna o São Paulo uma incógnita

Roger Machado é o novo treinador do São Paulo
Roger Machado é o novo treinador do São Paulo (Imagem: Reprodução Internacional)

Roger é um treinador que costuma apostar em um modelo mais apoiado na posse de bola, na construção desde a defesa e em um jogo mais propositivo. Suas equipes normalmente utilizam linha de quatro defensores, laterais mais ofensivos e um meio-campo técnico, com maior circulação de passes.

No Internacional, por exemplo, ele buscou reorganizar o time para ter mais controle das partidas, tentando impor ritmo mesmo fora de casa. Esse tipo de proposta pode ser interessante em teoria, principalmente para um clube do tamanho do São Paulo, que tradicionalmente busca protagonismo.

O problema é que o elenco atual foi moldado para um modelo diferente. Com Crespo, a equipe parecia mais confortável jogando de forma compacta, explorando contra-ataques e valorizando a disciplina tática.

Mudar completamente a estrutura no meio do campeonato pode gerar instabilidade, perda de confiança e queda de rendimento, pelo menos no curto prazo. Além disso, um estilo mais ofensivo tende a expor mais a defesa, o que pode ser perigoso em uma competição longa e equilibrada como o Brasileirão.

Roger Machado já mostrou bons trabalhos em outros clubes, mas assumir um time que está na vice-liderança e alterar sua identidade no meio da temporada é um desafio enorme. Se der certo, a diretoria será vista como corajosa. Se der errado, a decisão de demitir Crespo será lembrada como um erro grave de planejamento.

O que mais incomoda em toda essa história é a incoerência. No futebol brasileiro, técnicos costumam ser demitidos quando os resultados não aparecem. No caso do São Paulo, o treinador caiu justamente quando o time estava funcionando.

Esse fato passa a impressão de que o problema não era o desempenho, mas sim a falta de alinhamento interno, algo que costuma ser ainda mais preocupante do que uma sequência de derrotas. Só que no caso, aos olhos da torcida e da opinião pública o treinador estava certo.

O São Paulo tinha um bom trabalho e um time competitivo, apesar dos problemas. Optar por recomeçar nesse momento não parece uma decisão baseada em futebol, mas sim em política interna. E quando decisões assim são tomadas, o histórico mostra que as consequências raramente são positivas.

O tempo dirá se Roger Machado conseguirá manter o nível da equipe, mas hoje a sensação é clara: o clube assumiu um risco desnecessário ao abrir mão de um treinador que vinha entregando mais do que o esperado.

(Imagem de capa: Reprodução)