Scott Coker
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Scott Coker retorna com modelo antigo para tentar recuperar o ‘algo que está faltando’ no MMA

Quando Scott Coker decidiu voltar ao MMA com uma nova organização global financiada em cerca de 60 milhões de dólares, a primeira reação natural foi de espanto. Não pela falta de currículo. Pelo contrário. Poucas pessoas conhecem tão profundamente os bastidores do esporte quanto o fundador do Strikeforce e ex-presidente do Bellator. Justamente por isso, a pergunta inevitável surge: por que alguém que já passou por tudo isso escolheria voltar?

Coker conhece melhor do que quase qualquer outro executivo o tamanho da máquina chamada UFC. Ele viu de perto como é difícil construir uma alternativa sólida dentro de um mercado monopolizado esportiva, comercial e culturalmente pela organização de Dana White. Viveu isso no Strikeforce, quando criou uma organização relevante o suficiente para ser comprada e posteriormente desmontada pelo próprio UFC. Viveu novamente no Bellator, tentando transformar uma empresa instável numa concorrente viável em escala global. Ainda assim, ele está de volta.

E talvez o mais interessante em sua entrevista recente não seja necessariamente o novo projeto em si, mas o diagnóstico que ele faz do momento atual do MMA.

Coker acredita que o MMA perdeu algo no caminho

Existe uma frase particularmente reveladora dita por Coker: “há algo errado no MMA atualmente”. Ele admite não conseguir definir exatamente o que é, mas insiste que existe uma espécie de vazio no esporte.

A observação parece exagerada à primeira vista. Afinal, o MMA nunca teve tantos eventos, tantas organizações e tanta exposição global. O UFC continua financeiramente forte. O PFL investe pesado. O ONE Championship mantém relevância na Ásia. O MVP MMA entrou no mercado fazendo enorme barulho ao lado de Jake Paul.

No entanto, o argumento de Coker toca num ponto real: quantidade não significa necessariamente vitalidade. O MMA atual vive uma era de excesso de conteúdo, mas escassez de acontecimentos verdadeiramente especiais. O UFC domina tanto o mercado que muitas vezes parece não precisar mais vender grandes rivalidades ou criar estrelas com o mesmo cuidado de décadas anteriores. O produto se tornou constante, eficiente e extremamente profissionalizado, mas também previsível. Coker parece enxergar justamente essa lacuna.

A principal aposta da nova liga será uma volta ao modelo clássico de torneios eliminatórios. Algo que remete diretamente aos tempos de Pride, K-1 e até dos primeiros UFCs. A ideia é simples: uma categoria por vez, mata-mata direto, vencedor avança e derrotado vai embora. Parece quase antiquado diante do modelo atual baseado em rankings, contratos longos e proteção de ativos comerciais. Mas exatamente por isso existe apelo.

Durante anos, o MMA se afastou da imprevisibilidade que ajudou a construir sua identidade. O formato de torneios traz de volta justamente essa sensação de urgência. Cada luta importa imediatamente. Não há espaço para reconstruções, gerenciamento cuidadoso de cartel ou espera interminável por “momentos ideais”.

Coker entende que nostalgia também vende. O sucesso histórico do Pride no Japão e dos antigos GP’s do K-1 não aconteceu apenas pela qualidade técnica das lutas. Existia uma narrativa quase épica em acompanhar atletas sobrevivendo rodada após rodada até encontrar “o melhor homem da noite”. O executivo aposta que ainda existe público para isso.

O desafio de encontrar estrelas em um mercado saturado

O maior problema, porém, talvez não esteja no formato. Está no elenco. Hoje, o UFC absorve praticamente todos os principais talentos do esporte. Além disso, outras organizações disputam os nomes restantes de maneira agressiva. O próprio MVP MMA entrou recentemente no mercado tentando construir eventos altamente midiáticos.

Mesmo assim, Coker insiste que ainda existe espaço, e honestamente, seu histórico dá credibilidade para essa confiança. Foi ele quem ajudou a desenvolver nomes como Ronda Rousey, Daniel Cormier, AJ McKee, Aaron Pico e Usman Nurmagomedov. Ao contrário do UFC, frequentemente acusado de simplesmente absorver talentos já prontos, Coker sempre trabalhou melhor no desenvolvimento gradual de estrelas.

Seu foco agora parece estar menos em contratar campeões estabelecidos e mais em encontrar atletas com o chamado “X-factor”: lutadores capazes de gerar conexão emocional, entretenimento e identificação. Isso é especialmente importante num momento em que o MMA sofre para criar figuras culturalmente gigantescas como já teve no passado.

Outro ponto central da estratégia será a internacionalização imediata. Diferente do Strikeforce, que cresceu regionalmente antes de se tornar relevante nacionalmente, a nova organização já nasce com ambição global. Eventos na Ásia, Europa e América do Norte fazem parte do plano inicial.

Isso também representa uma leitura inteligente do mercado atual. O MMA deixou de ser exclusivamente americano há muito tempo. Hoje, muitos dos maiores públicos consumidores estão fora dos Estados Unidos. Organizações como o ONE provaram que modelos regionais podem sobreviver explorando identidades locais fortes.

Além disso, Coker possui um histórico raro de relacionamento internacional. Trabalhou com Pride, Dream e Rizin, construindo uma rede de contatos que poucos executivos americanos possuem.

O peso da experiência e a última grande aposta de um veterano

No entanto, talvez o elemento mais relevante de toda essa história seja justamente o fato de Scott Coker não parecer movido por ingenuidade. Ele sabe exatamente o quão brutal é o negócio das lutas. Sabe que organizações quebram rapidamente. Sabe que investidores frequentemente queimam dinheiro tentando competir com o UFC.

Inclusive, a reação irônica de Jake Paul nas redes sociais resume bem o ceticismo existente. O influenciador basicamente sugeriu que os investidores estavam prestes a perder dinheiro, e talvez estejam. No entanto, Coker aparenta enxergar o projeto menos como uma guerra direta contra o UFC e mais como uma alternativa estética ao modelo atual do MMA.

Isso é importante. Durante anos, quase toda nova organização surgiu prometendo “derrubar o UFC”. Nenhuma conseguiu. Coker evita esse discurso. Sua proposta parece muito mais ligada a oferecer uma experiência diferente do que tentar assumir a liderança do mercado.

No fundo, o retorno de Scott Coker também parece profundamente pessoal. Ele próprio admite que prefere construir empresas do zero do que assumir estruturas problemáticas, como aconteceu no Bellator. Existe claramente um prazer quase artesanal em criar algo novo dentro do universo das artes marciais, e talvez seja exatamente isso que o mantém voltando.

O MMA atual é mais rico, maior e mais profissional do que nunca. Mas também pode ter perdido parte da espontaneidade, da loucura e da identidade que o transformaram num fenômeno cultural global. Scott Coker acredita que ainda existe espaço para recuperar parte disso. A grande questão é se o público ainda sente falta da mesma coisa.

(Foto: Divulgação/Bellator)