Sete dias. Apenas um semana. Foi esse o intervalo entre Sean Dyche aparecer entre os indicados a técnico do mês de janeiro e ser demitido pelo Nottingham Forest. No futebol moderno, a única estabilidade garantida é a instabilidade, mas, olhando friamente para os números, a pergunta é inevitável: Dyche realmente merecia ser convidado a se retirar da equipe?
A derrota para o Leeds United e o empate sem gols contra o lanterna Wolves foram a gota d’água para o proprietário Evangelos Marinakis encerrar a passagem do treinador após apenas quatro meses no cargo. É necessário ressaltar que o grego é um dos nomes mais difíces para se lider, Nuno Espirito Santo que o diga. Só que, quando a gente mergulha nos dados e no contexto, a história não é tão simples quanto parece.
Sean Dyche conta com resultados melhores do que parecem
Desde que assumiu em 21 de outubro, Dyche comandou o Forest em 18 jogos de Premier League. Nesse recorte, o time somou 22 pontos e ocupa a 12ª posição numa tabela hipotética considerando apenas esse período. Para quem pegou o clube em crise, não é exatamente desempenho de rebaixado. Longe disso inclusive, estamos falando de um início de projeto.
Ele venceu seis partidas e registrou um aproveitamento de 33,3%, o melhor da carreira dele na elite inglesa, superando os 27,9% no Burnley e os 28% no Everton. Entre os oito técnicos permanentes que já comandaram o Forest na Premier League, Dyche aparece com a terceira melhor taxa de vitórias. Não é brilhante, mas também não é um desastre.
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Além disso, somou mais pontos em 18 jogos do que os dois treinadores anteriores juntos no mesmo número de partidas. Em termos objetivos, ele entregava o que foi pedido: estabilizar a equipe e mantê-la viva na briga contra o rebaixamento.
Ataque travado e torcida impaciente
Dyche deixa o Forest na 17ª colocação, uma posição acima de onde encontrou o time, mas apenas três vitórias em casa pesaram demais. A última havia sido em 14 de dezembro. No City Ground, a paciência da torcida começou a evaporar, e o mais bizarro desse último caso, é que simplesmente amassaram o Wolverhampton, mas nao foram capazes de furar o bloqueio do adversário.
O maior problema foi claro durante toda a passagem: falta de gols. O Forest marcou apenas 25 vezes na liga. Apenas o Wolves balançou menos as redes. E o dado mais alarmante veio justamente no empate contra o próprio Wolverhampton: 35 finalizações sem marcar. Foi o maior número de chutes de um time que passou em branco na Premier League em quase uma década.
Para piorar, Chris Wood, maior artilheiro do clube na história da Premier League, não jogou um minuto sequer sob Dyche por causa de uma lesão no joelho sofrida ainda na era Ange Postecoglou. Sem sua principal referência ofensiva, o ataque virou um amontoado de tentativas frustradas.
Os números de conversão de finalizações são sintomáticos. O Forest tem uma das piores taxas da liga na temporada 2025-26. O volume até aparece em alguns jogos, mas eficiência… passa longe. E quando a bola não entra, o discurso de “processo” começa a soar vazio para arquibancada.
Estilo que não comprou o elenco
Se os números oferecem uma defesa parcial, o ambiente interno conta outra versão. Dyche sempre foi um técnico identificado com intensidade física, organização defensiva e jogo direto, algo meio distante do bonito, do esporte interessante de ser visto. Em alguns contextos, funciona muito bem. No Forest atual, a sintonia parece não ter sido completa.
Fontes indicam que ele teve dificuldades para criar conexão com parte do elenco. Alguns jogadores questionaram métodos e abordagens táticas, especialmente a ênfase na fisicalidade. Após a derrota para o Leeds, a diretoria ouviu o grupo e o respaldo ao treinador não foi total.
Isso, no futebol moderno, costuma ser sentença quase definitiva. Porque o primeiro tropeço na confiança, já abre espaço para haverem mais problemas num curto espaço de tempo, o que ocorreu no final das contas.
Curiosamente, Sean Dyche começou bem nesse aspecto com a torcida. Revelado nas categorias de base do clube, ele soube usar o discurso emocional, mencionando Brian Clough, memórias do River Trent e referências que tocaram o coração do torcedor. O clima melhorou após a curta e turbulenta passagem de Postecoglou. Mas essa boa vontade inicial tem prazo de validade quando os resultados não empolgam.
Decisão inevitável ou precipitada?
O Forest já vinha monitorando alternativas. Vitor Pereira surge como principal candidato e já estava no radar antes mesmo da derrota em Elland Road. As conversas avançaram ao longo da semana, e Dyche foi demitido na madrugada de quinta-feira.
A decisão, segundo relatos, foi tomada com relutância. O próprio contexto da contratação de Dyche já era fruto de turbulências anteriores, incluindo a saída conturbada de Nuno Espirito Santo e a aposta que não funcionou com Postecoglou. Sem contar que, agora com Sean Dyche demitido, abre o espaço para talvez ser a última bala do pente, porque o tempo tem passado, e ele não anda de acordo com o que o Nottingham Forest deseja.
Marinakis é conhecido por decisões fortes e rápidas. Para alguns, é ambição. Para outros, impulsividade, talvez até inconsequência. A troca constante de treinadores pode resolver um problema imediato, mas também pode impedir qualquer construção de médio prazo.
Então, ele mereceu cair?
Se a análise for puramente numérica, é difícil dizer que Sean Dyche falhou de forma gritante. Melhorou a pontuação, teve o melhor aproveitamento da carreira na Premier League e manteve o time fora da zona de rebaixamento.
Mas futebol não é só matemática. A falta de gols, a impaciência da torcida, a desconexão com parte do elenco e o medo de que o projeto não tivesse fôlego pesaram mais do que os números frios.
Talvez a demissão não tenha sido totalmente justa. Talvez tenha sido inevitável. O fato é que Dyche sai com argumentos para se defender, mas também deixa um Forest ainda lutando para encontrar identidade e estabilidade.
Agora, a bola está com Marinakis. Porque trocar técnico é fácil. Difícil é acertar o próximo.
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