Neste sábado (17), a televisão brasileira perdeu um dos seus grandes nomes dos seus mais de 70 anos de história: o apresentador Silvio Santos. O empresário, dono do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), teve seu nome marcado na história do país e também teve seus momentos de relação com o esporte e outras áreas, os quais vamos listar nesta matéria especial.
A provocação de Eurico a Globo em 2001
Antes de chegarmos a 2001, vamos voltar alguns dias, especificamente ao penúltimo dia do ano 2000. Era 30 de dezembro daquele ano, e haveria a partida decisiva da Copa João Havelange, entre Vasco e São Caetano, em São Januário. A partida acontecia, enquanto em um determinado momento dela, o alambrado do estádio cruzmaltino cede e provoca um gravíssimo acidente, deixando torcedores feridos, consequentemente conduzidos aos hospitais e muita correria no local.
A época, Eurico Miranda se sentiu injustiçado e aborrecido com a cobertura da Globo e a resistência da própria e do a época governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho em não prosseguir a partida. Segundo o biógrafo de Eurico, Sergio Frias, o Vascão passou 18 meses sem receber verbas da Globo, como uma retaliação ao caso.
No documentário “A Mão de Eurico”, do Globoplay, o a época repórter da emissora carioca, e hoje diretor de esportes, Renato Ribeiro, falou sobre a rusga do dirigente com a emissora da família Marinho.
– No sábado (dia do jogo), a reportagem do Jornal Nacional foi ao ar e não houve contestação dos vascaínos, do Eurico ou do Vasco. O problema se deu nas reportagens de domingo. Por causa dessas reportagens, o Vasco fez uma reclamação formal à Globo. E, nesse caso, o Vasco tinha razão. As reportagens foram infelizes, porque elas não obedeceram à ordem cronológica dos fatos. Mas não houve uma intenção deliberada da Globo de vilanizar o Eurico. Tanto que na segunda-feira pediram para que eu fizesse uma reportagem contando de forma bem didática e na ordem cronológica tudo que tinha acontecido no jogo.
Posteriormente, a partida foi remarcada para o dia 18 de janeiro de 2001, uma quinta-feira à tarde, no Maracanã. Naquele jogo, o Vasco venceu o time paulista pelo placar de 3×1, com gols de Juninho Pernambucano, Jorginho Paulista e Romário e conquistou o quarto título brasileiro de sua história. Paralelo a isso, algo chocou todos: o fato da logomarca do SBT se fazer presente na camisa vascaína. Também na série, Euriquinho revelou que inicialmente, o intuito não era esse:
– O objetivo inicial era botar o Ratinho. Tinha um bonequinho que tinha um bigodinho, igual ao do Ratinho. Era pra botar esse bonequinho na camisa. Acabou que ele (Eurico) achou por bem ser o símbolo do SBT.
A camisa com a logo da emissora de Silvio Santos foi usada única e exclusivamente neste jogo, sendo uma relíquia e alvo de procura de muitos torcedores vascaínos.
A polêmica do Paulistão 2003
Tudo começou nos anos 90, quando Silvio Santos se animou com os bons resultados do futebol no SBT, com a Copa do Brasil de 1995 sendo uma das maiores audiências da história da emissora paulista, e com a exibição da Copa Mercosul durante aquela época. Em outubro de 2002, a Globo havia recusado a proposta da Federação Paulista de Futebol (FPF), que a época pedia R$ 12 milhões pelos direitos do Campeonato Paulista do ano seguinte.
A FPF fez o mesmo pedido ao SBT, porém ofereceu não só a exclusividade, como também dez jogos a mais no pacote que lhe era de direito. Porém, a guerra estava próxima de começar: a Federação havia dado um ultimato a Globo para decidir o que fazer, com o prazo indo até 27 de dezembro. Nesta data, a emissora dos Marinho havia enviado um fax a entidade, porém ele só foi protocolado em 2 de janeiro do ano seguinte, dando o pontapé inicial a uma batalha nos tribunais.
O SBT iria transmitir quatro partidas semanalmente, sendo duas nos sábados a tarde e uma no domingo pela manhã, não querendo mexer no Domingo Legal, a época apresentado por Gugu Liberato, na faixa da tarde. A equipe da emissora tinha nomes como Dirceu Marchioli “Maravilha”, Elia Jr., Paulo Andrade, o músico Léo Jaime e Luciano do Valle.
A rodada de estreia foi um prenúncio do que aconteceria durante todo o campeonato. Em Santo André x Santos, a Globo fez a transmissão, ainda que não tivesse autorização para isso. Cleber Machado e Casagrande tiveram que fazer o jogo do estúdio, já que não podiam entrar no estádio. A volta do intervalo teve um atraso de 17 minutos, para que a Globo fosse forçada a deixar de exibir o jogo, mas nada feito.
Quem ditava os horários era a emissora de Silvio Santos. Uma situação inusitada aconteceu na semifinal, quando em 5 de março, Corinthians e Palmeiras se enfrentaram às 21h, forçando a Globo a reduzir dez minutos do Jornal Nacional e cortar quarenta do capítulo de Mulheres Apaixonadas, folhetim do horário das 9, de Manoel Carlos, que estava fazendo muito sucesso. Coube ao narrador Luciano do Valle, cedido pela Band transmitir o jogo pela emissora da Anhanguera. Na emissora dos Marinho, Galvão Bueno contou a história do clássico. Em audiência, a Globo venceu, marcando 39 pontos, contra 13 do SBT.
A partida de volta da grande final, que reunia São Paulo e Corinthians, foi em um sábado, às 18h. Para que a novela das 7 da ocasião, O Beijo do Vampiro, não fosse prejudicada, a Globo abdicou de exibir a reprise do último capítulo de Sabor da Paixão, folhetim do horário das 18h.
A paixão e patrocínio ao Corinthians
Silvio cresceu como torcedor do Fluminense, mas viu o Corinthians como parceiro para a exposição das marcas e para sua emissora. Nos programas chegou a cantar a clássica marchinha “Doutor, eu não me engano”. No ano de 2009, patrocinou o clube por intermédio do Baú, Telesena e do banco PanAmericano. Na década de 1980, divulgava o Carnê Corintião na programação da emissora, visando a construção do estádio do Alvinegro do Parque São Jorge, algo que surgiu anos mais tarde.
Em nota, o Timão se solidarizou e lamentou a morte de Silvio:
– Sempre irreverente. Nunca escondeu sua paixão pelo Timão. Doutor, eu não me engano, meu coração é corintiano.
A Playmaker Brasil deseja os nossos mais profundos sentimentos a família e a todos os fãs de Silvio Santos, sua ousadia e sua alegria seguirão eternamente na comunicação brasileira.
(Foto: Reprodução)