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Copa do Mundo

De Southgate a Tuchel: como a Inglaterra mudou e por que alguns problemas continuam

A Inglaterra de Thomas Tuchel continua sendo uma seleção difícil de entender. Em algumas partidas, a equipe apresenta um futebol rápido, intenso e capaz de explorar diferentes setores do campo. Em outras, encontra enormes dificuldades para criar oportunidades e volta a exibir uma lentidão que lembra os últimos anos do trabalho de Gareth Southgate.

A comparação entre os dois treinadores é inevitável, mas as razões para os problemas são diferentes.

Southgate construiu uma equipe que frequentemente acumulava jogadores nas mesmas regiões do campo. Harry Kane recuava para participar da criação, Jude Bellingham ocupava a função de camisa 10 e os jogadores escalados pelos lados também buscavam espaços internos.

Tuchel tentou corrigir esse problema com uma mudança clara de perfil. O treinador passou a priorizar pontas rápidos e capazes de manter a amplitude, liberou Declan Rice para participar mais do ataque e devolveu aos laterais uma função mais tradicional.

Quando essa estrutura funciona, a Inglaterra parece mais equilibrada. O problema aparece quando os pontas não conseguem desequilibrar. Sem jogadores como Phil Foden e Cole Palmer, o treinador fica com poucas alternativas para mudar completamente a forma de atacar.

Pontas abertos para liberar Bellingham e Kane

Rashford Inglaterra
Getty Images

Uma das maiores diferenças entre Southgate e Tuchel está na escolha dos jogadores de lado.

Durante os últimos grandes torneios, Southgate utilizou atletas que, apesar de começarem as partidas pelos lados, tinham características de meias ofensivos.

Na Euro 2024, Bukayo Saka, Cole Palmer e Jarrod Bowen eram as opções pela direita. Na esquerda, o treinador contava com Phil Foden, Anthony Gordon e Eberechi Eze.

O objetivo não era necessariamente manter esses jogadores próximos às linhas laterais.

Southgate queria que eles ocupassem os corredores internos e se aproximassem de Harry Kane. Em muitos momentos, a Inglaterra funcionava praticamente com dois camisas 10 atrás do centroavante.

A estratégia teve bons resultados em determinados períodos. Raheem Sterling, por exemplo, foi um dos principais jogadores da Inglaterra na Euro 2020 atuando a partir da esquerda e buscando espaços mais centrais.

O problema aumentou com a ascensão de Jude Bellingham.

O meia do Real Madrid passou a ocupar a região central do ataque. Ao mesmo tempo, Kane continuou recuando para buscar a bola, enquanto Foden e outros jogadores também se movimentavam para dentro.

A consequência era uma concentração excessiva de atletas no mesmo setor.

Tuchel tentou resolver essa questão escolhendo pontas mais tradicionais.

Jogadores como Noni Madueke Marcus Rashford, têm a responsabilidade de receber a bola aberto, atacar os defensores e oferecer profundidade. A ideia é manter os adversários espalhados e criar espaços no centro.

A estratégia funcionou muito bem contra a Sérvia nas Eliminatórias e diante da Croácia na estreia da Copa do Mundo.

Mas também mostrou suas limitações contra a República Democrática do Congo.

Marcus Rashford e Madueke tiveram dificuldades para criar oportunidades. A Inglaterra só encontrou soluções quando Saka e, principalmente, Anthony Gordon entraram e passaram a ocupar mais os corredores internos.

Esse é o principal risco da escolha de Tuchel.

Ao deixar Foden e Palmer fora da Copa, o treinador abriu mão de jogadores capazes de transformar completamente o estilo ofensivo da equipe.

Rice e Bellingham ganham mais liberdade

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Foto: FIFA

A utilização de pontas abertos também tem relação direta com o papel de Jude Bellingham.

Tuchel quer criar espaço para que seu meia ofensivo receba a bola em zonas perigosas.

Bellingham ou Morgan Rogers ocupam a região central sem precisar disputar espaço constantemente com os jogadores que começam pelos lados.

Os resultados ajudam a explicar a preferência do treinador.

Bellingham marcou um gol e deu uma assistência contra o Panamá, enquanto Rogers teve boas atuações durante as Eliminatórias quando o jogador do Real Madrid esteve ausente.

Declan Rice também ganhou uma função diferente.

Southgate sempre valorizou o meio-campista, mas frequentemente precisava utilizá-lo como principal responsável pela proteção defensiva.

A falta de volantes de marcação fazia com que Rice permanecesse mais recuado. Outros jogadores, como Jordan Henderson e Kobbie Mainoo, recebiam maior liberdade para avançar.

Na Euro 2024, Southgate chegou a tentar Trent Alexander-Arnold no meio-campo em busca de uma solução.

Com Tuchel, a chegada de Elliot Anderson mudou a dinâmica.

Os dois meio-campistas podem avançar, mas Rice não é mais automaticamente o jogador que precisa permanecer atrás quando o parceiro se aproxima do ataque.

A amplitude oferecida pelos pontas também abre corredores para suas chegadas.

Dessa forma, Rice pode avançar e se juntar a Bellingham na entrada da área, aumentando o número de jogadores capazes de criar e finalizar.

Laterais têm uma função mais simples no sistema com Tuchel

Spence tuchel inglaterra
Foto: Reuters / Andrew Boyers

Outra diferença importante aparece nas laterais.

Southgate utilizou diversas vezes uma formação com três zagueiros e dois alas.

Kyle Walker podia fechar como parte da linha defensiva, enquanto jogadores como Luke Shaw e Kieran Trippier tinham grande responsabilidade ofensiva.

Como a equipe não utilizava pontas tradicionais, os alas precisavam oferecer amplitude e participar constantemente do ataque.

Tuchel inverteu essa lógica.

Como a largura já é garantida pelos pontas, os laterais têm uma função mais simples.

O treinador prefere uma linha de quatro defensores e espera que os laterais apoiem com ultrapassagens, ofereçam opções de passe e mantenham o equilíbrio da equipe.

Eles não são os principais responsáveis pela criação.

Essa ideia também ajuda a explicar a ausência de Trent Alexander-Arnold.

O lateral construiu sua carreira sendo um dos principais criadores de seu setor. No Liverpool, atuou durante anos atrás de Mohamed Salah, que frequentemente deixava o lado do campo para buscar posições internas.

Com um ponta como Madueke, que precisa permanecer aberto, a presença de Alexander-Arnold poderia alterar toda a estrutura pensada por Tuchel.

A escolha, também gera questionamentos.

Djed Spence oferece menos qualidade ofensiva do que Alexander-Arnold e já irritou Tuchel ao abandonar algumas vezes a função definida pelo treinador.

Por isso, surge uma dúvida importante: se os pontas não funcionarem, quem assumirá a criação?

O grande problema aparece quando o plano principal falha

Copa do Mundo, Inglaterra, República Democrática do Congo
Foto: Butch Dill/AP

As mudanças de Tuchel possuem uma lógica clara.

Os pontas oferecem amplitude. Bellingham recebe mais espaço no centro. Rice ganha liberdade para avançar. Os laterais apoiam sem precisar carregar a responsabilidade ofensiva.

Quando todas as peças funcionam, a Inglaterra consegue atacar de maneira mais organizada.

O problema é que o treinador construiu uma equipe extremamente dependente desse modelo.

A decisão de deixar jogadores como Foden e Palmer fora da Copa representa uma aposta enorme.

Tuchel preferiu especialistas capazes de executar funções específicas em vez de jogadores mais versáteis.

Quando Madueke, Rashford ou outros pontas vencem seus duelos, o sistema cria espaços para Bellingham, Rice e Kane.

Quando isso não acontece, a equipe perde alternativas.

Os laterais não possuem a mesma responsabilidade criativa do período de Southgate e o banco não conta com meias ofensivos capazes de entrar e mudar completamente o desenho da equipe.

Essa é a principal diferença entre os problemas dos dois treinadores.

A Inglaterra de Southgate sofria porque muitos jogadores buscavam os mesmos espaços. A de Tuchel pode sofrer pelo motivo contrário: sua estrutura é tão específica que, quando as peças escolhidas não cumprem suas funções, existem poucas alternativas para abandonar o plano original.

Tuchel conseguiu resolver alguns dos problemas que herdou, principalmente a falta de espaço para Bellingham e a utilização excessivamente defensiva de Rice. No entanto, criou uma nova dependência.

Por isso, a Inglaterra continua alternando atuações brilhantes e decepcionantes. Quando o sistema funciona, a equipe parece mais equilibrada e perigosa. Quando falha, a ausência de um verdadeiro plano B faz com que os antigos problemas voltem a aparecer de uma forma diferente.

(Foto de capa: Richard Pelham/Getty Images)

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Kaique