Durante anos, os clubes recém-promovidos à Premier League carregaram o peso de uma maldição quase inevitável: a de retornar à Championship logo após o acesso. No entanto, a temporada 2025-26 tem mostrado um cenário surpreendente. Sunderland, Leeds United e Burnley vêm contrariando as previsões mais pessimistas e mostrando que é possível competir de igual para igual com os gigantes do futebol inglês.
A expectativa era de sofrimento. Afinal, nas duas últimas edições da Premier League, todas as equipes que haviam subido foram rebaixadas imediatamente. Antes disso, essa coincidência só havia ocorrido uma única vez, na temporada 1997-98. Por isso, a descrença era geral — muitos acreditavam que a distância entre a primeira e a segunda divisão da Inglaterra havia se tornado intransponível.
Mas o futebol, como sempre, adora contrariar as estatísticas. Nove rodadas depois do início da atual temporada, os três promovidos somam 38 pontos em conjunto — um feito raro. Sunderland, com 17 pontos, é o grande destaque, seguido por Leeds, com 11, e Burnley, com 10. Essa soma coletiva só foi superada em duas ocasiões na história da Premier League: em 1992-93 e 2005-06.
O renascimento do Sunderland e o novo fôlego dos promovidos
A vitória do Sunderland por 2 a 1 sobre o Chelsea, em pleno Stamford Bridge, colocou o time momentaneamente na segunda colocação da tabela — algo que não acontecia com um clube recém-promovido desde 2005. A equipe comandada por Régis Le Bris tem sido o símbolo da nova era dos promovidos: organizada, intensa e confiante.
O Sunderland soma 17 pontos em nove jogos, igualando marcas históricas e se colocando entre os melhores inícios de um time vindo da Championship. Desde o Hull City de 2008-09, nenhum estreante havia conquistado tanto em tão pouco tempo. Enquanto isso, Leeds e Burnley também vêm mostrando competitividade e consistência, ambos mantendo distância confortável da zona de rebaixamento.
Os críticos, antes certos de que a Premier League era uma liga cruel para os novatos, agora se veem obrigados a rever seus conceitos. O sucesso inicial dessas três equipes dá sinais de que o futebol inglês está vivendo um raro momento de equilíbrio entre as divisões.
Um estilo de jogo direto e eficiente
Um dos principais motivos por trás do bom desempenho dos promovidos está na mudança de estilo. Ao contrário de temporadas anteriores, quando equipes que subiam tentavam impor um jogo de posse e construção refinada — muitas vezes sem sucesso —, Sunderland, Leeds e Burnley optaram por uma abordagem mais direta e física.
As estatísticas confirmam essa tendência. O Sunderland, por exemplo, é o segundo time da Premier League com maior proporção de passes verticais (37,3%). Já Burnley e Leeds reduziram significativamente a posse de bola em comparação à Championship. A prioridade, agora, é a eficiência: defesa sólida, transições rápidas e foco em bolas paradas.
O técnico do Leeds, Daniel Farke, resumiu bem a nova filosofia ao afirmar que seu time está “priorizando uma defesa intransponível e difícil de ser quebrada”. E os números provam que está funcionando — Leeds é uma das equipes mais eficazes em recuperar bolas no campo adversário, liderando em turnovers que resultam em finalizações.
A força nas bolas paradas e o impacto físico
Outro ponto-chave tem sido o aproveitamento nas bolas paradas. Burnley (45,1%) e Sunderland (42,1%) lideram o ranking de clubes que mais criam chances a partir dessas situações. Em termos de gols esperados (xG), os dois também estão entre os melhores da liga nesse quesito. Leeds, embora menos dependente das bolas paradas, converteu 44% de seus gols em jogadas desse tipo — ficando atrás apenas de Arsenal e Chelsea.
Esses números revelam um padrão: as equipes recém-promovidas entenderam que, diante de adversários tecnicamente superiores, a eficiência e a força física são armas indispensáveis. E, até agora, têm colhido os frutos dessa estratégia.
Entre o realismo e a esperança
Apesar do ótimo início, os modelos estatísticos sugerem que parte desse desempenho pode não ser sustentável. Dados de gols esperados indicam que Sunderland e Burnley têm resultados acima do esperado, o que pode sinalizar uma possível queda de rendimento ao longo da temporada. Ainda assim, a confiança e o momento atual são fatores que não podem ser ignorados — o futebol é, afinal, um esporte movido por fases.
Historicamente, equipes promovidas que somam 10 pontos ou mais nas nove primeiras rodadas raramente são rebaixadas. Das 46 que atingiram essa marca, apenas nove caíram ao fim da temporada. Isso torna o cenário de 2025-26 especialmente promissor para Sunderland, Leeds e Burnley.
A quebra da maldição
Se conseguirem manter o ritmo, os três clubes podem entrar para a história como o trio que quebrou a maldição dos promovidos. O último ano em que todos os recém-chegados permaneceram na Premier League foi 2022-23 — e, curiosamente, Nottingham Forest, um dos sobreviventes daquela temporada, tinha apenas cinco pontos neste mesmo estágio.
Hoje, Burnley já tem o dobro disso, Leeds mostra uma solidez defensiva surpreendente e Sunderland vive um conto de fadas moderno. A combinação de pragmatismo tático, juventude e espírito coletivo está desafiando o que antes parecia impossível.
Se o início da temporada serve como prenúncio, 2025-26 pode ser lembrada como o ano em que a Premier League provou que a esperança — mesmo quando mínima — ainda pode vencer as probabilidades.