Thomas Tuchel chegou ao comando da Inglaterra com uma missão muito clara: quebrar o ciclo de frustrações que acompanha a seleção há décadas. O treinador alemão foi escolhido justamente por sua reputação de estrategista, capaz de vencer grandes jogos e encontrar soluções nos momentos mais delicados. No entanto, a derrota por 2 a 1 para a Argentina, na semifinal da Copa do Mundo, colocou esse status em xeque e abriu uma discussão que promete acompanhar o técnico até a Euro 2028.
A eliminação teve um roteiro dolorosamente familiar para os torcedores ingleses. A equipe abriu o placar, passou a recuar cada vez mais, perdeu completamente o controle da partida e acabou sofrendo a virada nos minutos finais. Para quem acompanhou as campanhas sob o comando de Gareth Southgate, a sensação foi de déjà vu. A diferença é que Tuchel havia sido contratado justamente para impedir que essa história se repetisse.
Naturalmente, as críticas recaíram sobre suas decisões durante o jogo, principalmente pelas substituições realizadas após o gol de Anthony Gordon. Mas será que elas realmente foram as responsáveis pela derrota?
A troca que virou símbolo da eliminação
A principal decisão questionada aconteceu aos 62 minutos de partida.
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Com a Inglaterra vencendo por 1 a 0, Tuchel retirou Anthony Gordon, autor do gol inglês, para colocar o zagueiro Ezri Konsa. A substituição transmitiu uma mensagem clara: proteger a vantagem em vez de buscar o segundo gol.
Na teoria, a mudança fazia algum sentido. Afinal, a Argentina já começava a aumentar a pressão ofensiva.
Na prática, porém, o efeito foi exatamente o contrário.
Sem Gordon, a Inglaterra perdeu sua principal válvula de escape pelos lados do campo. Cada recuperação de bola terminava rapidamente em nova posse argentina, já que praticamente não existia mais uma opção para acelerar os contra-ataques.
Foi como entregar novamente a bola para Lionel Messi e companhia.
Para piorar, Tuchel ainda promoveu outras alterações de perfil defensivo antes da virada argentina, reforçando ainda mais a impressão de que sua equipe havia desistido de atacar.
Os próprios jogadores admitiram o problema
Se existia alguma dúvida sobre a mudança de postura da Inglaterra, ela praticamente desapareceu após as entrevistas dos jogadores.
Harry Kane foi bastante direto ao analisar a derrota.
Segundo o capitão, depois do primeiro gol a equipe passou a pensar apenas em segurar o resultado, quando deveria ter continuado pressionando a Argentina.
Marc Guehi seguiu linha semelhante.
O zagueiro afirmou que, logo após abrir o placar, a sensação dentro de campo era de que o objetivo havia mudado completamente. Em vez de continuar atacando, os jogadores passaram automaticamente a defender mais próximos da própria área.
Dan Burn também reconheceu que a equipe recuou demais.
Na visão do defensor, a Inglaterra se tornou excessivamente passiva, permitindo que a Argentina acumulasse oportunidades até que o empate parecesse apenas uma questão de tempo.
As declarações mostram que o problema não ficou restrito às arquibancadas ou aos comentaristas. Os próprios atletas perceberam que algo mudou drasticamente durante a partida.
Tuchel discorda da principal crítica
Apesar da enorme repercussão envolvendo suas substituições, Thomas Tuchel apresentou uma leitura diferente da partida.
Segundo o treinador, a Inglaterra começou a recuar imediatamente depois do gol marcado por Anthony Gordon, muito antes da entrada de Ezri Konsa.
Na visão do alemão, a mudança de comportamento aconteceu de forma quase automática.
Os jogadores passaram a atuar como se tivessem muito mais medo de perder do que vontade de vencer.
Ou seja, para Tuchel, as substituições não provocaram a queda de rendimento. Elas foram apenas uma tentativa de administrar um cenário que já havia mudado dentro de campo.
Essa interpretação encontra respaldo nas palavras de Lautaro Martínez.
O atacante argentino afirmou que percebeu claramente quando a intensidade inglesa começou a diminuir. Segundo ele, após cerca de uma hora de jogo, a Inglaterra já não conseguia pressionar como antes, recuando suas linhas e permitindo que a Argentina assumisse completamente o controle da posse de bola.
O velho problema da Inglaterra continua vivo
Curiosamente, esse comportamento foi exatamente o que Thomas Tuchel criticava antes mesmo de assumir a seleção inglesa.
Durante a Euro 2024, o treinador afirmou que via uma equipe excessivamente pressionada, jogando sempre para evitar erros, e não para buscar vitórias.
Agora, pouco mais de um ano depois, a Inglaterra voltou a apresentar exatamente o mesmo problema.
A comparação com a final da Euro contra a Itália também surgiu rapidamente.
Para muitos analistas, o roteiro foi praticamente idêntico: vantagem no placar, excesso de cautela e incapacidade de manter a posse de bola nos momentos decisivos.
Gary Neville resumiu esse sentimento ao afirmar que já perdeu as contas de quantas vezes assistiu à Inglaterra repetir esse mesmo filme.
A gestão de Tuchel entra em seu momento mais delicado
Até a semifinal, o trabalho do treinador era amplamente aprovado.
A campanha nas Eliminatórias havia sido perfeita, sem derrotas e sem sofrer gols.
Na Copa do Mundo, apesar de algumas atuações irregulares, a equipe avançou até a semifinal mantendo boas expectativas.
Tudo mudou em poucos minutos diante da Argentina.
Como acontece frequentemente no futebol, o julgamento de um treinador costuma ser definido justamente pelas decisões tomadas nas partidas mais importantes. E foi exatamente nesse momento que Tuchel passou a ser questionado.
A entrada de Konsa no lugar de Gordon seguirá sendo debatida durante muito tempo.
Da mesma forma, a utilização de Nico O’Reilly em vez de buscar alternativas mais ofensivas continuará alimentando discussões entre torcedores e especialistas.
O maior desafio talvez não seja tático
Mais importante do que qualquer substituição será a forma como Thomas Tuchel conseguirá administrar o ambiente interno da seleção.
A Federação Inglesa continua demonstrando confiança no treinador e mantém o planejamento voltado para a Euro 2028. Entretanto, esse respaldo institucional pode não ser suficiente caso os próprios jogadores passem a perder confiança em suas decisões.
No futebol de seleções, o tempo é extremamente curto.
Existem poucos períodos de treinamento e poucas partidas realmente decisivas para recuperar uma imagem desgastada.
Por isso, reconstruir essa relação será tão importante quanto qualquer ajuste tático.
A Euro 2028 será o verdadeiro julgamento
Apesar das críticas, ainda é cedo para afirmar que o projeto fracassou.
Thomas Tuchel continua sendo um treinador vencedor, com currículo suficiente para justificar a confiança da Federação Inglesa.
Ao mesmo tempo, a derrota para a Argentina mostrou que apenas conhecimento tático não resolve todos os problemas da Inglaterra.
Existe uma barreira emocional que acompanha a seleção há décadas e que voltou a aparecer justamente quando a pressão aumentou.
A grande dúvida agora é saber se a responsabilidade pela eliminação pertence principalmente ao treinador ou aos próprios jogadores.
Essa resposta provavelmente só aparecerá na Euro 2028.
Até lá, Tuchel terá a missão de convencer um país inteiro e principalmente seu próprio elenco de que aquela derrota não definiu seu trabalho. Porque, no futebol inglês, o problema nunca foi apenas chegar perto. O verdadeiro desafio sempre foi dar o último passo.
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