O nome de Khephren Thuram tem ganhado força no futebol europeu. Desde que chegou à Juventus em 2024, vindo do Nice, o francês de 24 anos rapidamente se tornou uma das figuras mais completas do meio-campo da Serie A. Com força física, elegância técnica e leitura de jogo madura, Thuram atraiu o interesse de gigantes como Arsenal, Chelsea, Liverpool e Tottenham.
Entre as comparações que surgem sobre o seu estilo, uma das mais intrigantes é a feita pelo ex-jogador Jermaine Pennant, que o associou a ninguém menos que Steven Gerrard, lenda do Liverpool e um dos meio-campistas mais influentes da Premier League nas últimas duas décadas.
Mas será que Thuram realmente lembra Gerrard? Ou a semelhança é apenas superficial — baseada em porte físico e estilo energético? A análise das características de ambos revela um paralelo fascinante entre dois jogadores de gerações diferentes, unidos por uma filosofia de meio-campo que o futebol moderno tem cada vez mais dificuldade em reproduzir.
O estilo Gerrard: intensidade, transição e liderança
Para entender a comparação, é preciso revisitar o que tornava Steven Gerrard único. Capitão do Liverpool por mais de uma década, Gerrard era o protótipo do meio-campista “box-to-box” — aquele que atua de área a área, com presença constante tanto na defesa quanto no ataque.
Seu jogo se baseava em três pilares: intensidade física, visão de jogo vertical e capacidade de decisão. Gerrard tinha uma leitura de espaço impressionante, que lhe permitia se antecipar defensivamente e, segundos depois, iniciar uma transição com passes longos e precisos ou conduções potentes.
Além disso, o inglês possuía uma das melhores finalizações de média distância de sua geração — elemento que o tornava uma ameaça constante fora da área. Entre 2004 e 2014, Gerrard marcou mais de 100 gols pelo Liverpool, muitos deles em momentos decisivos, incluindo finais de Champions League e FA Cup.
Mas o que mais o diferenciava era a liderança emocional. Gerrard era o tipo de jogador que arrastava o time consigo, que definia o ritmo da partida não apenas com a bola, mas com a postura. Era, ao mesmo tempo, cérebro e coração do Liverpool.
O estilo Thuram: potência controlada e versatilidade moderna
Khephren Thuram, por sua vez, representa uma versão modernizada desse arquétipo. Filho de Lilian Thuram, ídolo da seleção francesa, Khephren cresceu com a solidez tática como base, mas desenvolveu uma fluidez incomum para alguém de sua estatura (1,92 m).
Na Juventus, principalmente sob a orientação de Thiago Motta, ele evoluiu de um meio-campista físico para um jogador completo, capaz de progredir em condução, ditar ritmo e criar superioridades. Seu mapa de calor revela um domínio territorial quase total do meio-campo: ele recua para participar da saída de bola, conduz até o último terço e aparece na área como elemento surpresa.
Com 58 jogos e seis gols pela Juve, Thuram mostra números modestos à primeira vista, mas o impacto vai além das estatísticas. Sua taxa de progressões com bola está entre as maiores da Serie A, e sua capacidade de romper linhas faz dele uma arma tanto em transição quanto em posse sustentada.
Tecnicamente, tem uma condução próxima ao corpo, passes curtos precisos e uma habilidade de “escapar da pressão” típica dos meio-campistas formados na França — lembrando o toque refinado de Paul Pogba em seus melhores dias, mas com mais disciplina tática e menos improviso arriscado.
As semelhanças: o motor que impulsiona o time
A comparação com Gerrard, portanto, não é descabida. Ambos compartilham características estruturais que definem o verdadeiro “box-to-box”: força física, resistência, leitura de espaço e presença ofensiva.
Como Gerrard, Thuram é capaz de mudar o ritmo do jogo com uma ação individual. Ele conduz em velocidade, quebra linhas e tem uma passada longa que o faz parecer incontrolável quando entra em aceleração. Também possui o mesmo instinto de “atacar o espaço”, chegando de surpresa à área — algo que Gerrard fazia com maestria em seus anos sob o comando de Rafa Benítez.
Em termos de mentalidade, Thuram também demonstra liderança silenciosa. Mesmo jovem, tornou-se um dos pilares de uma Juventus em reconstrução, e a própria diretoria bianconera o considera “intocável”. Sua postura serena contrasta com o temperamento mais explosivo de Gerrard, mas o resultado é semelhante: ambos impõem respeito, cada um à sua maneira.
As diferenças: o contexto molda o jogador
No entanto, há diferenças fundamentais. Gerrard jogava em um futebol inglês menos sistematizado, onde a liberdade e o instinto eram mais valorizados. Sua verticalidade natural o fazia arriscar constantemente, buscando sempre o gol ou a jogada direta. Thuram, em contraste, atua em uma era de posicionamento estrutural e controle tático.
O francês é mais paciente na posse, prefere conduzir até encontrar o passe certo e raramente se arrisca em chutes longos ou transições desorganizadas. Ele é mais “engenheiro” do que “herói”, mais preocupado em manter o equilíbrio coletivo do que em ser protagonista.
Além disso, Gerrard era mais artilheiro — e talvez mais emocional. Thuram, embora tecnicamente refinado, ainda carece da veia decisiva que tornava Gerrard um ícone. Seu potencial, porém, é evidente: com apenas 24 anos, já combina força física de um volante clássico com a visão criativa de um meia moderno.
Enquanto Mikel Arteta observa atentamente a possibilidade de tê-lo no Arsenal, a Juventus já deixou claro: ele é o futuro do clube. E se continuar nessa trajetória, não será apenas um eco de Gerrard — mas o símbolo de uma nova geração de “box-to-box” que redefine o equilíbrio entre força e inteligência no futebol moderno.
(Foto: Getty Images)