O roteiro do UFC para a divisão dos pesos-pesados parecia definido. A expectativa da organização é que Tom Aspinall, atual campeão linear da categoria, enfrente o vencedor da luta entre Alex Pereira e Ciryl Gane, marcada para o dia 14 de junho, no histórico evento da Casa Branca. O combate valerá o cinturão interino e servirá para definir o próximo desafiante ao título principal.
No entanto, Tom Aspinall pode acabar mudando completamente esse cenário. Uma declaração recente de Eddie Hearn, novo empresário do britânico e presidente da Matchroom Boxing, ligou o sinal de alerta nos bastidores do UFC. Segundo ele, o campeão não pretende continuar aceitando lutar sob os termos atuais de seu contrato.
A situação é especialmente delicada porque a divisão dos pesados atravessa um momento de escassez de grandes nomes. Sem Jon Jones e com poucos atletas capazes de disputar o topo da categoria, o UFC vê em Tom Aspinall uma peça fundamental para os próximos anos. Por isso, qualquer conflito contratual ganha proporções ainda maiores.
Empresário de Tom Aspinall fala em valores baixos de premiação
O principal motivo da tensão envolve dinheiro. De acordo com Eddie Hearn, Tom Aspinall teria direito a apenas cerca de 2% da receita movimentada por uma eventual luta contra Alex Pereira ou Ciryl Gane.
O empresário considera o valor extremamente baixo para um campeão que correria riscos físicos significativos em um dos maiores eventos da história do UFC. Em entrevistas recentes, Hearn afirmou que os fãs ficariam revoltados se soubessem quanto o britânico receberia por uma luta desse porte.
“Vou revelar o valor com o tempo: os fãs do UFC ficarão revoltados com o dinheiro que Tom Aspinall supostamente receberá por esse tipo de luta – pela receita gerada por esse tipo de luta”, disse Hearn.
“Não é justo. Não estamos tentando ser irracionais, mas meu conselho para Tom Aspinall é: você não precisa disso.”
As declarações representam uma mudança importante. Até pouco tempo atrás, o caminho natural era que Tom Aspinall aguardasse sua recuperação para enfrentar o vencedor da disputa pelo cinturão interino. Agora, existe a possibilidade de uma negociação mais dura com o UFC antes que qualquer luta seja oficializada.
Relação entre Tom Aspinall e Dana White ficou mais fria
Outro fator que ajuda a explicar o impasse é o desgaste na relação entre Tom Aspinall e Dana White.
Tudo começou após a luta contra Ciryl Gane, encerrada sem resultado depois de uma grave lesão ocular sofrida pelo campeão. Na época, Dana White chegou a sugerir que o problema talvez não fosse tão sério quanto parecia.
A realidade, porém, foi muito diferente. Tom Aspinall precisou passar por quatro cirurgias e ficou vários meses afastado das atividades. O britânico relatou dificuldades significativas durante o processo de recuperação, tornando a situação mais sensível.
Desde então, as trocas de declarações entre os lados se tornaram mais frequentes. O cenário ficou ainda mais delicado quando Tom Aspinall decidiu assinar com Eddie Hearn, um dos maiores desafetos públicos de Dana White no mundo das lutas.
Embora o UFC continue projetando uma luta de unificação contra o vencedor de Alex Pereira x Ciryl Gane, a relação já não parece tão harmoniosa quanto antes.
UFC pode ter déjà vu na divisão dos pesados
O caso lembra um capítulo que o UFC certamente prefere esquecer. No passado, Francis Ngannou deixou a organização após divergências relacionadas a remuneração, liberdade contratual e condições de trabalho.
Agora, existe o risco de uma situação parecida acontecer novamente. Caso Tom Aspinall decida seguir o conselho de seu empresário e buscar novos caminhos fora do UFC, a organização perderia justamente o principal nome da categoria.
A comparação não é exagerada. Assim como aconteceu com Ngannou, Tom Aspinall está no auge da carreira, possui enorme valor de mercado e desperta interesse em diferentes setores da indústria dos esportes de combate.
Para o UFC, perder o campeão seria um golpe duríssimo. A divisão dos pesados já sofre com a falta de grandes estrelas e enfrenta dificuldades para renovar sua elite. Sem Tom Aspinall, o cenário ficaria ainda mais limitado e o planejamento construído em torno do vencedor de Alex Pereira x Ciryl Gane poderia simplesmente desmoronar.
Por enquanto, o confronto de unificação continua sendo o objetivo oficial. Mas as recentes declarações de Eddie Hearn mostram que o futuro de Tom Aspinall talvez não esteja tão alinhado com os planos do UFC quanto parecia há alguns meses. E isso pode transformar uma simples negociação contratual em uma das maiores novelas do MMA em 2026.
(Foto: Ricard Presley/PxImages)