Futebol Copa do Mundo

Tuchel estaciona a Inglaterra na própria área, Messi vira arco e Argentina vai à final; confira 6 impressões

A Argentina está novamente na final da Copa do Mundo. Anthony Gordon abriu o placar para a Inglaterra aos 10 minutos do segundo tempo, mas Enzo Fernández empatou aos 40, em um chute de fora da área, e Lautaro Martínez completou a virada aos 47, de cabeça. Lionel Messi deu as assistências para os dois gols e conduziu a seleção de Lionel Scaloni ao encontro com a Espanha na decisão.

O placar conta uma história dramática, mas ainda insuficiente. A Argentina venceu porque soube atravessar os diferentes momentos da partida, porque encontrou sua melhor versão técnica justamente quando mais precisava e porque, do outro lado, Thomas Tuchel cometeu uma espécie de suicídio futebolístico.

A Inglaterra tinha o resultado, jogadores mais jovens para atacar os espaços e uma Argentina obrigada a se expor. Tuchel, porém, decidiu retirar sua equipe da partida. Em vez de buscar o segundo gol, estacionou quase todo o time dentro da própria área e passou mais de meia hora esperando que Messi e seus companheiros não encontrassem uma solução.

Encontraram duas. A seguir, veja seis impressões deixadas pela semifinal.

Vitória da Argentina começa pelo ritmo da partida

O primeiro tempo não teve fluidez, grandes sequências de passes ou transições constantes. Foram 19 faltas e dois cartões amarelos antes do intervalo. O jogo ficou nervoso, interrompido e, em vários momentos, quase parado.

Para uma seleção argentina com veteranos em posições importantes, esse cenário não foi exatamente ruim. Em vez de permitir que a Inglaterra transformasse sua juventude e força física em correria, a equipe de Scaloni encurtou o campo, provocou duelos e levou o adversário para uma disputa mais emocional do que atlética.

Não foi bonito. Foi inteligente.

A Argentina não precisou acompanhar os ingleses em uma partida de área a área. Fez a Inglaterra jogar no ritmo que lhe interessava: falta, discussão, bola parada, disputa e pouca continuidade. Quando o jogo pediu guerra, os argentinos se comportaram como generais. E a Inglaterra, que tinha condições de acelerar, aceitou participar daquela batalha quase estática.

Tuchel confundiu proteção com rendição

A Inglaterra chegou ao gol aos 10 minutos do segundo tempo, quando Morgan Rogers cruzou e Gordon apareceu para completar. Naquele momento, o cenário parecia ideal: a Argentina precisaria avançar, deixaria espaços e ofereceria campo para os ingleses contra-atacarem com seus pontas rápidos, mas Tuchel conseguiu transformar essa vantagem em um problema.

Aos 27 minutos, retirou justamente Gordon, autor do gol e uma das principais válvulas de velocidade, para colocar Konsa e formar uma linha de cinco defensores. Dez minutos depois, mandou Burn e O’Reilly para o campo. A Inglaterra chegou à reta final com seis defensores e praticamente nenhuma possibilidade de atacar os espaços que a Argentina inevitavelmente deixaria.

Na prática, formou uma linha de cinco protegida por outra linha quase inteira diante da área. Kane ficou isolado. Não havia um jogador para conduzir um contragolpe, prender a bola no ataque ou simplesmente obrigar os zagueiros argentinos a respeitarem alguma ameaça.

Entre o gol inglês e a virada argentina, a Inglaterra teve apenas 12% de posse de bola. Não foi uma estratégia defensiva. Foi uma abdicação. Cada corte inglês funcionava como um passe para a Argentina recomeçar a jogada.

Tuchel alegou que os argentinos estavam vencendo as disputas aéreas e que a linha de cinco serviria para fechar os espaços. A explicação chega a piorar o diagnóstico. Quando um adversário está cruzando demais, não basta empilhar zagueiros na pequena área. É preciso pressionar quem cruza, disputar a segunda bola e oferecer alguma ameaça do outro lado.

Tuchel eliminou todas essas possibilidades. Ele não protegeu a vantagem. Apenas ofereceu à Argentina a intermediária, as laterais, a posse de bola e o direito de atacar sem qualquer receio de sofrer um contragolpe.

Messi deixou de ser flecha e virou arco

Messi foi fundamental nos gols da Argentina, o primeiro foi marcado por Enzo Fernández
Messi foi fundamental nos gols da Argentina, o primeiro foi marcado por Enzo Fernández (Imagem: Getty Images)

Messi teve um primeiro tempo discreto. Foi cercado, sofreu faltas e teve pouco espaço no centro do campo. A Inglaterra conseguia encurtar sua ação porque ainda mantinha jogadores em posições mais altas e tentava disputar o controle da partida. Entretanto, depois do gol, tudo mudou.

Ao afundar seu time, Tuchel permitiu que Messi recuasse, recebesse a bola de frente e escolhesse de onde construir. O argentino já não precisava ser a flecha que rompia a defesa em velocidade. Tornou-se o arco que lançava os companheiros.

Messi passou a encontrar espaço pelo lado direito, distribuiu cruzamentos, atraiu marcadores e organizou as jogadas de uma posição mais distante da área. Mac Allister acertou a trave de cabeça, Pickford precisou trabalhar e a pressão aumentou até se tornar insustentável.

No empate, Messi participou de uma cobrança curta de escanteio, recebeu novamente e encontrou Enzo Fernández livre na entrada da área. O meio-campista bateu de longe e marcou. Na virada, o camisa 10 cruzou para Lautaro Martínez cabecear próximo da pequena área.

Os dois gols resumem perfeitamente a nova função de Messi. Em vez de concluir, ele criou. Ou seja, ao invés de atacar o último espaço, desenhou o caminho para que os companheiros chegassem até ele. Tuchel colocou tantos jogadores perto do próprio gol que liberou justamente o homem que não precisava estar ali para decidir.

Scaloni leu a semifinal; Tuchel tentou apenas sobreviver a ela

A Argentina fez sua melhor partida na Copa justamente porque não permitiu que o aspecto físico definisse o confronto. Primeiro controlou o ritmo. Depois avançou as linhas, ocupou o campo inglês e colocou seus meio-campistas dentro da área.

Scaloni também utilizou o banco para aumentar as possibilidades da equipe. Nico González, Rodrigo De Paul e Lautaro Martínez entraram enquanto a Argentina elevava o volume ofensivo. Tuchel fez o contrário: retirou alternativas e transformou a Inglaterra em uma equipe com uma única missão, sobreviver. Com isso, a diferença entre os treinadores foi brutal.

Quando a partida pediu conflito, Scaloni ofereceu jogadores preparados para o confronto. Na hora que demandou organização, adiantou a marcação e não permitiu que a Inglaterra saísse. E, no momento em que o jogo clamava por técnica, deu liberdade para Messi criar, fez Enzo e Mac Allister pisarem na área e colocou Lautaro para atacar os cruzamentos.

Scaloni talvez não tenha construído sua reputação em grandes clubes, mas demonstra conhecer perfeitamente o material humano que possui. Ele não tenta obrigar a Argentina a jogar sempre da mesma maneira. Adapta o time ao que cada partida exige.

Tuchel, contratado justamente por sua capacidade tática, fez o oposto. Encontrou uma equipe competitiva, chegou à vantagem e, no momento mais importante, deixou de acreditar nos próprios jogadores.

O medo de estar na frente fez a Inglaterra perder

Tuchel ficou tão preocupado com a possibilidade de sofrer o empate que retirou do time qualquer chance de marcar o segundo gol. Quando Enzo Fernández empatou, os ingleses já não tinham velocidade, profundidade ou controle de bola para reagir. Depois da virada, Rashford e Ivan Toney foram lançados como um último recurso, quando o estrago já estava feito.

Mais grave ainda foi ouvir o treinador afirmar após o jogo que não tinha arrependimentos, embora tenha reconhecido que sua equipe se tornou passiva. A Inglaterra não foi eliminada porque tentou vencer e falhou. Foi eliminada porque, depois de conseguir a vantagem, seu treinador decidiu que jogar futebol era arriscado demais.

Não há, até o momento, uma decisão anunciada sobre o futuro de Tuchel. Ele possui contrato até a Eurocopa de 2028, e a Federação Inglesa ainda não se pronunciou após a eliminação. Mas, caso seu ciclo seja encerrado, a decisão será perfeitamente compreensível. Uma semifinal de Copa não pode ser tratada como uma tentativa de sobreviver durante mais de meia hora dentro da pequena área.

Thomas Tuchel foi um dos grandes responsáveis pela derrota da Inglaterra para a Argentina
Thomas Tuchel foi um dos grandes responsáveis pela derrota da Inglaterra para a Argentina (Imagem: Getty Images)

Argentina chega ao seu auge; Inglaterra assina sua sentença

A Argentina chega à final mostrando que guardou seus melhores momentos técnicos para a reta decisiva do torneio. Os atuais campeões do mundo souberam sofrer sem se desorganizar, mostraram que seu treinador é capaz de interpretar corretamente uma partida e que Messi, mesmo sem a explosão de outros tempos, continua enxergando soluções que ninguém mais enxerga. O único problema para nossos hermanos é que a Espanha, também está no seu melhor, o que indica uma decisão memorável.

Enquanto isso, a Inglaterra volta para casa com uma lição duríssima. Tuchel tinha o resultado, o talento e os espaços para contra-atacar. Preferiu empilhar defensores, eliminar suas próprias armas e convidar a Argentina a jogar. E, contra Messi, um convite desses não é prudência. É sentença.

(Imagem de capa: Getty Images)