Nem toda derrota dominante apaga um sonho e é exatamente nisso que o time de Jack Della Maddalena está apostando. Mesmo depois de uma atuação fraquíssima contra Islam Makhachev, a confiança segue intacta nos bastidores, pelo menos é o que parece. Depois de tudo o que aconteceu na defesa de cinturão, o australiano tenta se segurar em algo que não parece muito concreto, mas quem não arrisca, não petisca.
A fala de Ben Vickers, treinador de Della Maddalena, não passou despercebida. Em um esporte onde a memória recente pesa e muito, dizer que seu atleta pode vencer alguém que acabou de dominá-lo de forma clara é, no mínimo, corajoso. Ou, como muita gente pode interpretar, ousado até demais.
Mas vamos por partes.
Derrota dura, mas não definitiva
A primeira luta entre Della Maddalena e Makhachev, no UFC 322, teve um roteiro bem definido: domínio do russo de uma ponta a outra, com direito a ver o atual campeão naquele momento, completamente destruído mentalmente e desacreditado depois de ter sido brutalmente amassado por cinco rounds. Quedas entrando com facilidade, controle no chão e uma sensação constante de que o australiano estava sempre um passo atrás. Não foi uma luta equilibrada e isso é importante deixar claro.
Makhachev fez o que sabe de melhor: impôs o grappling sufocante, ditou o ritmo e neutralizou praticamente todas as armas do então campeão dos meio-médios. Para muitos, aquilo ali já era suficiente para encerrar qualquer discussão sobre uma possível revanche. Só que o MMA não funciona exatamente assim.
Se tem uma coisa que esse esporte ensina constantemente é que contextos mudam. Evolução acontece. E, principalmente, lutadores aprendem, às vezes mais nas derrotas do que nas vitórias. E é justamente nesse ponto que Vickers se apoia.
Segundo o treinador, o resultado da primeira luta não apaga o potencial de Della Maddalena. Muito pelo contrário: serve como combustível. Ele reconhece o domínio de Makhachev, mas não vê aquilo como um limite definitivo, e sim como um problema que pode ser resolvido.
Claro, falar é uma coisa. Executar dentro do octógono contra um dos atletas mais dominantes da atualidade é outra completamente diferente. E o primeiro passo para provar o contrário, é derrubar Carlos Prates no próximo final de semana.
Estamos falando de confiança ou teimosia?
A declaração de que Della Maddalena poderia vencer “provavelmente com o mesmo plano de jogo” chamou ainda mais atenção. Porque aí entra um ponto delicado: até que ponto essa confiança é estratégica e até que ponto ela ignora o que realmente aconteceu na luta?
Afinal, se o plano não funcionou na primeira vez e foi dominado de forma clara, insistir nele pode parecer, no mínimo, arriscado. Por outro lado, também existe uma leitura diferente: talvez o problema não tenha sido o plano em si, mas a execução. Timing, ajustes finos, preparo específico… tudo isso pode transformar completamente um combate.
E é aí que mora o perigo para Makhachev em uma eventual revanche. Porque, se Della Maddalena conseguir corrigir minimamente sua defesa de quedas e impor mais seu jogo em pé, o cenário pode mudar. Não é garantia de vitória, longe disso, mas já tira a luta daquele território de domínio absoluto.
Ainda assim, vale dizer: Makhachev não é qualquer adversário. O russo vem construindo um legado consistente, com vitórias dominantes e uma capacidade rara de controlar diferentes estilos. Não é à toa que muitos já o colocam como um dos grandes nomes da história recente do UFC.
Ou seja, acreditar é importante. Mas vencer exige bem mais do que isso.
Primeiro passo de Della Maddalena: sobreviver ao teste brasileiro
Antes de qualquer papo sobre revanche, revanche e mais revanche, existe um detalhe importante: Carlos Prates.
O brasileiro será o adversário de Della Maddalena no UFC Perth, e não está entrando ali como figurante, as odds estão completamente equilibradas, com o brasileiro aparecendo como um bicho-papão da divisão. Muito pelo contrário, é aquele tipo de luta que pode bagunçar completamente os planos.
Prates é conhecido por ser agressivo, perigoso em pé e com capacidade de transformar qualquer troca franca em caos. E, convenhamos, depois de uma derrota dominante, voltar contra um striker perigoso não é exatamente o cenário mais confortável do mundo.
Se Della Maddalena quiser mesmo voltar à rota do título, vai precisar mostrar evolução imediata. Não só vencer, mas convencer. Demonstrar que absorveu as lições da luta contra Makhachev e que ainda pertence à elite da divisão. Porque, no fim das contas, o discurso só se sustenta com performance.
Maddalena entre a ousadia e a realidade
A fala de Vickers pode dividir opiniões e isso é natural. Para alguns, é confiança de quem acredita no próprio trabalho. Para outros, soa como uma tentativa de manter vivo um cenário que, hoje, parece distante, porque uma coisa é clara também, é necessário estar vivo na mídia, na imprensa. Mas uma coisa é certa: o MMA adora uma boa história de redenção.
E, se Della Maddalena conseguir passar por Carlos Prates e retomar o embalo, essa narrativa ganha força automaticamente. Aí, sim, a revanche deixa de ser um “e se?” e começa a virar uma possibilidade real. Até lá, porém, é menos sobre palavras e mais sobre ação.
Porque no UFC, diferente de qualquer discurso motivacional, a verdade sempre aparece quando a porta do octógono se fecha.
(Foto: Divulgação/UFC)