Lutas UFC

UFC e a globalização que pode causar problemas nos Estados Unidos

O UFC a cada ano se torna mais global, uma organização que no passado era dominada por ídolos americanos e brasileiros, com um canadense furando a bolha ou as vezes um russo, agora tem lutadores grandes em diversos países.

Atualmente, dos 11 campeões, somente um americano e, na verdade é uma americana, Kayla Harrison. E o Brasil, que sempre foi a segunda maior potência, também tem apenas um cinturão, o do peso-mosca, de Alexandre Pantoja. Os demais cinturões estão divididos em Austrália (2), Inglaterra, Russia, África do Sul, Espanha, Geórgia, Quirguistão e China.

E quando fazemos uma análise mais profunda, o único cinturão americano pode estar em risco, já que Kayla Harrison está próxima de assinar contrato para uma luta diante da lendária Amanda Nunes, que é uma parada indigesta para qualquer atleta.

Já no caso do Brasil, Pantoja vem dando um show e aumentando sua popularidade no país e em todo o mundo, mas provavelmente terá que defender seu cinturão contra o garoto de ouro Joshua Van, que vem impressionando o mundo das artes marciais mistas, mas que representa o pequeno país de Mianmar.

Em um primeiro momento, essa expansão de atenção com europeus, asiáticos e africanos se destacando demonstra que hoje o UFC é global e possui atletas de destaque e base de fãs em todos os continentes, mas não pode esvaziar suas colunas de sustentação.

Se o momento é de bonança pela exploração de novos mercados como Espanha, China e África do Sul, além da consolidação do Reino Unido, a diminuição de grandes ídolos dos Estados Unidos, Brasil e Canadá pode ser um enorme problema.

Os novos rostos do UFC

No elenco atual, com a aposentadoria de Jon Jones, o rápido declínio de Israel Adesanya e a situação pitoresca de Conor McGregor, o UFC tem uma ausência de um “rosto da companhia”. Alex Poatan, com seus nocautes espetaculares estava caminhando para ser esse produto global, com todo background brasileiro, mas a derrota para o russo, sem carisma, Magomed Ankalaev, freou toda a expectativa.

Melhores lutadores do momento no UFC
Melhores lutadores do momento no UFC (Imagem: Imago/Instagram)

Atualmente, os principais nomes do Ultimate, em matéria de desempenho são o ex-campeão Islam Makhachev, que não tem o carisma necessário para ser o rosto da companhia; Merab Dvalishvili, que defende as cores da Geórgia e não tem nocautes espetaculares como cartão de visita; Tom Aspinall, que tem o que é necessário para se tornar ídolo, mas precisa de uma rivalidade para crescer, algo que não conseguiu ter com Jon Jones;

E, por fim, o nome de maior potencial do Ultimate, Ilia Topuria, que vem de desempenhos espetaculares sobre três lendas do esporte, mas precisa ser mais midiático fora do “cage”, além de ter carisma para conquistar um público que não seja espanhol, já que ele não foi o preferido dos presentes nas arenas nos três combates que o projetaram.

Conor McGregor e Israel Adesanya, por suas personalidades e estilos plásticos, furaram a bolha da nacionalidade e se tornaram ídolos globais, assim como Georges St-Pierre, que colocou o Canadá como um dos grandes mercados do Ultimate, mas angariou uma legião de fãs nos Estados Unidos. Hoje, não me parece que nenhum dos quatro novos rostos citados tem condições de furar a bolha e cair nas graças do grande público norte-americano.

Essa situação, a médio prazo, pode fazer com que o país do UFC diminua o interesse no evento. Afinal, por mais apaixonado pelo esporte que o público seja, ganhar é importante. Ídolos alimentam paixões e consolidam interesses.

O futuro próximo de Brasil e Estados Unidos

Os dois maiores mercados do UFC, por mais que tenham o mesmo número de cinturões, vivem momentos distintos. O Brasil enxerga a popularidade de Alexandre Pantoja aumentar, além das possibilidades de recuperação de cinturão de Alex Poatan e Amanda Nunes e a chegada dos lutadores da Fighting Nerds (Caio Borralho, Jean Silva, Carlos Prates e Maurício Ruffy), a espetacular Natália Silva e Diego Lopes, ou seja, tem um futuro próximo muito promissor e a expectativa de retomar uma popularidade que não tem desde a explosão midiática de Anderson Silva, Júnior Cigano e companhia.

Já os Estados Unidos, vivem talvez sua safra de lutadores menos dominante da história. Hoje, existem pouquíssimos lutadores em condições de cinturão a médio prazo. A grande aposta para ser o rosto americano da companhia era Sean O’Malley, que tinha desempenho e estilo necessários para brilhar, mas as derrotas para Merab Dvalishvili inviabilizaram qualquer explosão do folclórico lutador.

Com isso, os americanos com potencial de cinturão e popularidade se restringem a Sean Brady e, principalmente, Justin Gaethje, pois o experiente lutador é muito querido dos torcedores e pode fazer uma narrativa heróica, já que para conquistar o título peso-leve, teria que derrotar Ilia Topuria, algo que alçaria o nome de Gaethje para uma idolatria com poucos precedentes.

Justin Gaethje com a bandeira dos Estados Unidos
Justin Gaethje com a bandeira dos Estados Unidos (Imagem: Jeff Bottari/Zuffa)

Sendo assim, a chance de vermos um americano conquistar o país e angariar mais fãs para a companhia fora da bolha é muito baixa e isso pode impactar na adesão do público aos eventos e na compra dos Pay-per-views dentro dos Estados Unidos.

É bem difícil imaginar um novo Jon Jones, Chuck Liddell, Mark Coleman, Tito Ortiz, Brock Lesnar e companhia, algo que para um país tão nacionalista e uma liga tão próxima à Casa Branca como o UFC, tem um enorme potencial danoso a médio prazo para Dana White. Um exemplo disso é a NBA, que quanto mais se torna global, menos audiência tem nos Estados Unidos.

(Imagem de capa: Reprodução/UFC)