O torcedor do Aston Villa viveu uma semana intensa. Dentro de campo, a equipe segue sem vencer no início da Premier League e ainda ouviu do técnico Unai Emery que o time estava “preguiçoso” após o empate fora de casa contra o Sunderland. Fora de campo, uma mudança pesada no comando: Monchi, o homem forte do futebol, deixou o clube e foi substituído por Roberto Olabe. Tudo isso às vésperas da estreia na Liga Europa contra o Bologna, que marca um novo capítulo na temporada dos Villans.
Mesmo com esse cenário de pressão e mudanças, Emery parece cada vez mais seguro no comando. A chegada de Olabe não foi um movimento imposto, mas sim um acerto em que o próprio treinador teve participação direta. Para muitos, isso é sinal claro de que o espanhol ganhou ainda mais força dentro do clube.
De Monchi a Olabe: uma nova filosofia em Villa Park
Monchi foi peça importante na ida do Aston Villa à Champions League, mas seu estilo estava mais voltado para resultados imediatos. Já Olabe, ex-diretor esportivo da Real Sociedad, chega com um perfil de planejamento a médio e longo prazo. Ele não é um desconhecido para Emery: ambos são bascos, nasceram em cidades próximas no norte da Espanha e trabalharam juntos em 2006, quando Olabe o contratou para comandar o Almería. Desde então, sempre houve vontade de se reencontrar.
Esse reencontro não é só de amizade, mas de estratégia. Olabe é conhecido por ter personalidade forte e não apenas dizer “sim” ao treinador. Ele vai sugerir caminhos, desafiar ideias e participar do planejamento ao lado de Emery, do diretor de operações Damian Vidagany e dos donos do clube. A intenção é que a transição seja rápida e harmônica – algo essencial num momento em que o time precisa de estabilidade.
O desafio dentro de campo para Unai Emery: reerguer o time e os jogadores
Se fora de campo a situação parece bem encaminhada, dentro dele o Aston Villa patina. O time tem apenas três pontos e um gol marcado nas cinco primeiras rodadas da Premier League, um contraste enorme com as últimas temporadas, quando terminou em quarto e sexto lugar. O próprio Emery não poupou palavras depois do empate no fim de semana e deixou o gramado antes do apito final, numa crítica aberta à postura dos jogadores.
O zagueiro Ezri Konsa concordou com o técnico, dizendo que ele tinha razão, mas negou que o elenco esteja em crise apesar de ocupar a zona de rebaixamento. Emery, de fato, já viveu situações assim antes: em 2021-22, seu Villarreal começou com seis jogos sem vencer; no Sevilla, em 2015-16, ganhou apenas cinco das 18 primeiras partidas – temporada que terminou com título da Liga Europa sobre o Liverpool. Não por acaso, o duelo com o Bologna nesta quinta-feira pode ser um ponto de virada para ele voltar a uma competição que venceu quatro vezes e que conhece como poucos.
Transferências caras, restrições e um elenco “herdado”
Parte do problema do Villa passa pela política de transferências. Desde 2019, o clube gastou mais de 700 milhões de libras, mas também vendeu acima de 400 milhões, muito disso graças à saída de Jack Grealish para o Manchester City por 100 milhões em 2021 e de Jhon Durán para o Al-Nassr por 71 milhões. Mesmo assim, as regras de lucros e sustentabilidade da Premier League – contra as quais o Villa votou lá atrás – limitam bastante as contratações.
O resultado é um elenco caro, mas com muitos jogadores contratados antes de Monchi e Emery. Dos titulares no último jogo, apenas dois foram pedidos por eles: Morgan Rogers e Evann Guessand. O restante vem de épocas anteriores, como John McGinn (trazido por Steve Bruce) e nomes contratados ainda sob Dean Smith, demitido há quase quatro anos.
Monchi acertou em alguns casos – como Pau Torres, Youri Tielemans e o próprio Rogers –, mas também teve apostas que não vingaram, como Donyell Malen, Marcus Rashford por empréstimo e até Amadou Onana, que sofre com lesões. E ainda há o “fantasma” do pré-Monchi Philippe Coutinho, contratado por 17 milhões de libras e que voltou ao Brasil sem ter jogado por dois anos.
Tudo isso reforça a importância de Olabe. Ele terá de repetir no Villa o que fez na Real Sociedad, onde comprou e vendeu Alexander Isak, contratou Martin Ødegaard por empréstimo e supervisionou a ascensão de Martin Zubimendi antes de sua venda milionária ao Arsenal. O caminho agora tende a passar mais pela base e por negócios inteligentes do que por grandes gastos.
Um técnico cada vez mais influente
Se tem um lado positivo em toda essa turbulência, é que ela deixa claro o tamanho da influência de Emery em Villa Park. Ele teve voz ativa na escolha de Olabe, conhece bem o novo diretor e terá ao seu lado alguém de confiança para estruturar o clube a médio prazo. É um movimento que, ao mesmo tempo, fortalece o técnico e traz alguém com autoridade para apontar novos rumos.
Claro, isso não resolve de imediato os problemas em campo nem garante vitórias. Mas mostra que a diretoria enxerga em Emery o homem certo para conduzir essa transição. E se há alguém acostumado a superar começos difíceis e reconstruir times competitivos, esse alguém é ele. Para o torcedor, a esperança é que esse novo capítulo traga estabilidade, resultados e, quem sabe, mais noites europeias memoráveis no Villa Park.